Mãe realizada, filho feliz!

25 10 2009

Você morre de culpa quando tem de sair para trabalhar e deixar o filho em casa? Não se preocupe tanto: o seu trabalho traz uma série de benefícios para a criança Jeanne Callegari.

Fonte:http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI3774-10513,00-CARREIRA+MAE+REALIZADA+FILHO+FELIZ.html

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É só você se levantar para ir ao trabalho, de manhã, que seu filho faz uma carinha de tristeza. Desde que as mulheres começaram a sair em massa para o mercado de trabalho, há 40 anos, precisam enfrentar esse tipo de dilema. Pensam que estão abandonando os filhos e que eles vão sofrer muito com sua ausência. E pensam nas conseqüências que isso trará para o futuro deles. Se isso passa por sua cabeça com freqüência, não se preocupe. Seu trabalho traz mais benefícios para seu filho do que você pode imaginar.

A primeira vantagem é óbvia: o dinheiro. A maioria das mulheres trabalha, hoje, por necessidade. As famílias precisam do salário de homens e mulheres. É uma tranqüilidade não depender apenas de uma fonte de renda. Se o marido ou a mulher perdem o emprego, situação não incomum, existe uma rede de segurança, algo que protegerá a todos, principalmente os filhos, durante a crise. Mesmo quando não há nenhum problema, o dinheiro permite que as crianças tenham acesso a coisas que não poderiam de outra forma. Uma escola de qualidade, aulas de natação, dança ou inglês. Essas atividades podem fazer a diferença no futuro, quando ela entrar no mercado de trabalho, e mesmo para se tornarem adultos mais equilibrados e saudáveis. Claro que não é preciso, nem recomendável, colocar a criança em milhares de atividades, deixando-a sem tempo livre para brincar e aprender livremente. Mas uma boa escola e uma ou duas atividades extras são bem-vindas. E isso custa caro.

Se o marido ganha o suficiente para os dois, a mulher se sente culpada em trabalhar, afinal, teoricamente, a família não precisa. Mas a situação não é tão simples. A jornalista americana Leslie Bennetts, autora do livro The Feminine Mistake (O Erro Feminino, inédito no Brasil), que fala das razões para as mulheres não pararem de trabalhar, argumenta que, nesse caso, as mulheres ficam dependentes do marido. E se ele pedir o divórcio? E se você quiser o divórcio? E se ele perder o emprego? E se acontecer um acidente? Nesses casos, toda a família fica vulnerável. Principalmente a criança, que vai se encontrar em uma situação difícil de repente.

Para o homem, é um alívio quando a mulher trabalha. “A responsabilidade de ser o único provedor é muito grande”, diz a psicóloga Ceres Alves de Araújo. A pressão diminui sobre ambos, o que melhora o astral em casa. Mais uma vantagem para os filhos, que podem contar com pais menos estressados e um clima leve.

Com as mulheres trabalhando, abre-se um espaço importante para que o homem participe mais da vida em família. A situação ainda não é a de uma divisão meio a meio, o que sobrecarrega muitas mães, mas aos poucos os homens começam a cozinhar, trocar fralda, levar ao médico. A criança ganha um pai participativo, mais presente que em qualquer geração anterior, que brinca e cuida dela. O dinheiro e a segurança não são os únicos motivos pelos quais as mulheres trabalham. A realização pessoal também conta. E aí acontece um paradoxo. “Quanto mais gostam do trabalho, mais as mulheres se sentem culpadas”, diz Ceres. Elas encaram como se abandonassem os filhos não por uma necessidade simples, mas por um motivo muito mais egoísta, que é se sentir bem com projetos pessoais.

Gostar do trabalho, porém, não deve ser motivo de culpa. “Uma mãe realizada e satisfeita com o trabalho transmite confiança para o filho”, diz a psicóloga Simone Savaya. O contrário também é verdadeiro: se a mãe decide ficar em casa e se sente frustrada por não trabalhar, isso vai refletir na relação com os filhos. Ela pode até, inconscientemente, culpar a criança por afastá-la da atividade de que gosta. Para o filho, então, vale muito mais ter uma mãe que trabalha, realizada e feliz, que uma mãe que fica com ela o tempo todo mas é frustrada, infeliz e dependente.

O trabalho dos pais, hoje, é motivo de orgulho para os filhos. Antigamente, ocorria o contrário. Dois estigmas pendiam sobre as crianças: o da mãe que trabalhava, pois significava que a família era pobre e precisava de duas rendas, e o dos pais separados. As crianças que viviam essas situações sofriam preconceitos e se sentiam diferentes do grupo. Hoje, o divórcio é uma situação normal, assim como o trabalho das mães. “É mais comum o contrário: se a mulher não trabalha, o filho vai querer saber o que há de errado com ela”, diz Ceres. As crianças se orgulham do trabalho dos pais, gostam de saber o que ocorre no escritório, perguntam, têm curiosidade.

Esse orgulho é um dos maiores presentes que os pais podem dar aos filhos. Sem perceber isso, muitos pais dizem a eles que vão trabalhar porque precisam. Melhor seria dizer, também, que vão trabalhar porque gostam, porque é legal. E que, um dia, ele também vai crescer e ter um trabalho bacana. O orgulho dos pais acaba se transformando em referência para as crianças. Como em todas as outras coisas, eles são seu modelo. Um pai que dá banho, troca fralda e faz o jantar mostra para os filhos que é normal para um homem realizar essas tarefas. Da mesma forma, a mãe que trabalha mostra para a filha que as mulheres também são responsáveis pelo sustento da casa; o mesmo vale para os meninos. “A gente observa que os filhos de mães que trabalham se tornam companheiros muito mais colaborativos quando crescem”, diz Ceres. Os pais dão o exemplo; as crianças ganham modelos que vão orientá-las para o resto da vida.

 Existe ainda outra vantagem. Se você trabalha fora, a tendência é que se preocupe com o que realmente importa. Quando as mulheres começaram a ter empregos, a culpa era muito, muito grande, ainda maior que hoje. Isso resultou em mães permissivas, que não conseguiam dizer “não” aos filhos ao fim do dia. De lá pra cá, a situação melhorou muito. A culpa existe, mas não impede que os pais imponham limites às crianças. Por outro lado, se você passa menos tempo com os filhos, a tendência é que se preocupe apenas com os hábitos mais relevantes. Você entende a importância da flexibilidade e sabe que de vez em quando não tem problema ele ficar acordado até mais tarde ou tomar um sorvete.

Desde que não sejam hábitos diários, tudo bem. Para seu filho, o resultado é uma mãe menos focada em detalhes, que se preocupa com o que é importante e não vai brigar por coisas à toa. A criança não precisa ficar do seu lado o tempo todo para ser feliz. Ao longo da história, mesmo com as mulheres trabalhando em casa, os filhos não passavam o dia grudados em suas saias. Eles corriam e brincavam ao ar livre, sendo cuidados por toda a comunidade. “Criança precisa de criança”, diz Ceres. Precisa brincar, correr, fazer amigos, desenvolver suas próprias habilidades e interesses. Ela tem mais chances de fazer isso se não passa o dia inteiro grudada na barra da saia da mãe.

Isso não significa que dá para ser uma mãe virtual, que mal está presente. “Se a mulher sai antes da criança acordar e volta depois que ela dormiu, não vejo benefício”, diz a terapeuta de família Magdalena Ramos. Claro que é legal conversar com o filho por telefone, matar a saudade durante o dia, mas isso não pode ser tudo. É importante tocar, abraçar, brincar. “Quando está com a criança, a mãe deve estar inteira. Corra, ria, se jogue no chão”, diz a terapeuta de família Magdalena Ramos. De nada adianta ficar assistindo à novela enquanto ele brinca sozinho no quarto.

A vida é feita de fases. Nos primeiros anos, seu filho vai exigir mais a sua presença, precisar de cuidados constantes. Talvez essa não seja a melhor hora para iniciar uma pós-graduação, um MBA ou aceitar um emprego que exija muitas viagens. E isso vale também para o marido, que, afinal, está mais presente na família. Depois de alguns anos, as crianças vão entrar na escola e ficar mais independentes. Aí é hora de voltar a investir pesado na carreira.

Mesmo sabendo de tudo isso, as mulheres podem balançar. Isso porque as crianças mostram, de todas as maneiras, que preferiam que os pais estivessem em casa. Elas reclamam. E são espertas, vão reclamar daquilo que sabem que vai magoar. Se ela percebe que você se sente culpada por deixá-la, é exatamente nessa tecla que ela vai bater. Portanto, se você se sentir mais segura ao sair, vai passar esse sentimento para o filho, que ficará mais tranqüilo. Claro que um emprego flexível, que permitisse a você controlar seus horários, ajudaria bastante.

A correria seria menos intensa. Essa questão, e as mudanças que já estão ocorrendo, são discutidas na próxima reportagem. Mesmo sem elas, porém, você pode se sentir segura. Pense em todas as coisas para as quais arruma tempo. A lista é extensa, não? Isso porque a mãe que trabalha tem muitos interesses.

Nenhum papel a limita ou define. Para a criança, essa mãe poderosa, capaz de dar conta de tantas coisas, é uma heroína. Um modelo que vale a pena ser seguido. Por isso, não se preocupe em dar conta de conciliar trabalho e filhos: você já faz isso.





Complicada e perfeitinha: como lidar com as dificuldades do dia-a-dia das mulheres

25 10 2009

Você vive se cobrando e, vira e mexe, acha que não é uma boa mãe, que deveria dar mais atenção às crianças, à casa, ao marido? Saiba que não é a única.

Fonte: http://revistacrescer.globo.com - outubro de 2009, edição 191.

Por Tamara Foresti

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Eu sou a pior mãe do mundo.” Quantas vezes você já se martirizou com esse pensamento? Você faz o melhor para os seus filhos, mas se culpa por ter demorado para trocar a fralda do bebê ou porque não colocou um casaco na mochila da filha. Enquanto observa as outras mães, sempre organizadas e sorridentes, se pergunta se vai dar conta da maternidade. Será que é só você que não tem tudo sob controle?

Definitivamente, você não está sozinha nesse barco. Muitas mulheres amam os filhos, mas não se sentem completamente felizes com a maternidade. Nesse quadro se encaixam as americanas Trisha Ashworth e Amy Nobile, que fizeram mais de 100 entrevistas para escrever Eu Era Uma Ótima Mãe Até Ter Filhos (Ed. Sextante). O livro conta a história de mães possíveis, dando conselhos bem-humorados de como superar as dificuldades do dia-a-dia. Veja trechos da nossa conversa com as autoras, que analisam o que é ser mãe hoje:

 ESCOLHAS

Um dos maiores desafios da mãe moderna é ter muitas opções, todas acompanhadas de uma pressão imensa em fazer a escolha certa. Se decidimos e nos arrependemos, vem a culpa. Crescemos achando que queremos e podemos fazer tudo. Por causa disso, nossas expectativas são altas demais. Pessoalmente, fizemos escolhas duras (Amy continuou trabalhando depois de ter filhos e Trisha optou por ser mãe em tempo integral), muito mais difíceis do que imaginávamos.

A CULPA


Culpa é o resultado das expectativas inatingíveis. Ela aparece quando não fazemos perfeitamente tudo o que planejamos. Precisamos alinhar nossas expectativas com a realidade. Uma vez feito isso, aprendemos a fazer escolhas conscientes e convivemos em paz com elas. Assim, deixamos a culpa de lado e paramos de nos comparar com outras mães. A primeira coisa para exorcizar esse fantasma é lembrar que não existe uma mãe perfeita. Em nossa cabeça, criamos um modelo materno cheio de atividades que achamos que deveríamos fazer e, para a maioria das mulheres, ele é irreal. Deveríamos sentar e pensar nas nossas expectativas, procurando priorizar algumas e deletar outras. Só assim começamos a fazer as melhores escolhas para a família.

 

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Quem são as autoras Trisha  fazia propagandas para a TV até o nascimento dos filhos. É casada há 15 anos e mãe de Alexandra, de 8, Pierce, de 6, e Julia, de 4. Amy, casada há 10 anos, é relações públicas. Além de brincar com os filhos, Sam, de 5, e Emily, de 4, adora sair com as amigas

 

 

HUMOR E HUMILDADE

O primeiro passo para aprender a amar a maternidade o tanto quanto amamos nossos filhos é sermos honestas, conversando abertamente sobre nossos problemas com outras mães. Acreditamos que manter o senso de humor e humildade é importante – estamos todas juntas nesse barco e, se pudermos rir dos nossos escorregões e triunfos, o caminho vai ser mais gostoso. Muitas vezes ficamos obcecadas em planejar o futuro ou lamentar o que poderíamos ter feito de diferente no passado. Aprender a viver o aqui e o agora é melhor para a família toda. Uma mãe nos disse que 10 minutos dançando com seus filhos de manhã aumentava o astral do dia inteiro. Esse é um exemplo de como uma atividade simples pode transformar a rotina.

O CASAMENTO

Após o nascimento, as crianças passam a ser a prioridade da vida. Queremos que os maridos leiam nossas mentes e saibam, por intuição, quando precisamos de ajuda e quando devem ser proativos. Entrevistamos vários homens que disseram que fariam qualquer coisa pelas esposas, mas precisavam de um manual para saber como se portar.

CRIANDO FILHAS

Para criar as mães do futuro livres de culpa, precisamos ficar de olho no nosso comportamento. As meninas observam o jeito como nos tratamos. Se colocarmos sempre os outros na nossa frente, a ponto de nunca termos tempo para nós mesmas, é assim que elas serão quando crescerem. Mas se conviverem com uma mulher que se ama, se cuida e aproveita a vida, é isso que aprenderão. Nem todas as mulheres nascem sabendo ser mães. Esse é um dos maiores preconceitos (e expectativas) que criamos. Nem sempre temos instinto materno ou sabemos o que fazer. Na verdade, muitas das habilidades que tínhamos antes dos filhos não valem para a maternidade! Precisamos aprender a ser mães, o que é surpreendente e frustrante. Saber que muitas mulheres também sofrem com isso é um alívio.

SER MULHER

Não somos a mesma pessoa que éramos antes dos filhos. A chave para descobrir o nosso novo “eu” é lembrar que, além de mães, somos mulheres. Para sermos felizes com a maternidade, não podemos esquecer de nós mesmas, nos priorizando de vez em quando. Não se culpe por isso, pois é saudável para a família toda. Queremos que nossos filhos sejam felizes e, um dia, bons pais. Por isso, precisamos dar o exemplo.





Sucesso na carreira é sinônimo de solidão?

25 10 2009

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Cada uma na sua área, estas mulheres chegaram ao topo. São respeitadas pelas empresas, lideram equipes e, quase sempre, ganham mais que o marido. Descobriram, porém, que tantas conquistas podem custar caro. Numa conversa franca, elas discutem as ciladas da ascensão profissional e os truques para não cair nelas

Por Sibelle Pedral | fotos Fabio Heizenreder

Fonte: http://claudia.abril.com.br/materias/1779/?pagina1&sh=28&cnl=24&sc=

Agosto de 2004.

 

 

Depois de semanas negociando agendas carregadas, conseguimos reunir um timaço para discutir um tema que ainda é tabu: o quociente de solidão de executivas poderosas.

Cristiane Almeida, 43 anos, divorciada, é mãe de um garoto de 9. Formou-se médica fisiatra e coordena o Centro de Reabilitação do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Eneida Bini, 45 anos, casada, um filho de 17 anos, ex-presidente da Avon no Brasil, dirige hoje a Herbalife, multinacional de suplementos alimentares.

Vânia Curiati, 35, casada, tem gêmeos de 7 anos e uma menina de 4. É diretora de softwares da IBM no Brasil.

Beth Meger, 44, separada, tem dois filhos, um de 22 anos e outro de 5 meses. Ela criou e comanda a NS&A, agência que cuida da intermediação de negócios em publicidade.

Rosi de Castro, 38, casada, um garoto de 8 anos, é diretora administrativa da Bamberg, consultoria de imóveis de alto padrão em São Paulo.

Atuando como mediadora ao lado de CLAUDIA, a psicóloga Valéria Meirelles, que organiza workshops sobre mulher, carreira e vida pessoal.

CLÁUDIA: Foi preciso fazer renúncias para chegar aonde vocês chegaram?

 Eneida: Minha maior renúncia foi o tempo que não pude dedicar ao meu filho. Até ele completar 8 anos, cumpri muito bem o meu papel de mãe. Ainda era supervisora, executava as minhas tarefas e ia cedo para casa. Tirava férias de 30 dias! Quando assumi mais responsabilidades como diretora, acabaram-se as férias longas e passei a trabalhar após o expediente. Aí mudou a forma de me relacionar com a família. Felizmente, não houve ruptura: o César já tinha os amigos da escola, se preocupava com outras coisas. 

Rosi: Praticamente não tive licença-maternidade. Vinte dias depois da cesárea, estava na empresa com o bebê no moisés. Antes de completar 3 meses, ele já ficava dez horas por dia num berçário. Hoje me arrependo: perdi um momento importante da história do meu filho. 

Beth: Por causa da carreira, adiei muito a maternidade. Além de trabalhar sem parar, viajava demais. O resultado é que me tornei mãe só agora, aos 44 anos, depois de encerrar o segundo casamento, que durou mais de 20 anos – apesar de ter adotado o Ricardo, um garoto de 9 anos que certa manhã encontrei dormindo na porta da minha empresa. O fim daquela relação me fez repensar meus valores e quis ser mãe. Cheguei a procurar um banco de esperma, mas desisti quando o geneticista alertou que não podia dar nenhuma garantia sobre o caráter do bebê. Nessa época, numa viagem de trabalho, uma pessoa que eu conhecia havia muito tempo disse que gostaria de me dar um filho. Eu já conhecia bem o caráter dele. Fizemos uma viagem e voltei grávida.

 Valéria: Em nenhum momento você pensou em conciliar as duas coisas, o filho e a carreira?

 Beth: Em todos os momentos pensei nisso, mas meu marido não queria. Então, como na época a carreira supria as minhas necessidades de felicidade, eu me alimentava dela.

CLAUDIA:Tantas renúncias na vida pessoal não deixaram um gosto amargo? Sucesso pode ser sinônimo de solidão?

Rosi: Acho que sim. Na verdade, tem menos a ver com as renúncias e mais com o fato de não encontrar ninguém com quem dividir decisões. Já contei histórias da empresa para meu marido e ouvi críticas à minha atitude. No setor empresarial, você vai subindo e fazendo inimigos naturalmente. A tendência é ficar só e limitar a convivência às pessoas em quem realmente confia, ou seja, a família. Se nem na família existe apoio, tenho um problema.

 Beth: Nossa convivência fica restrita, o que pode causar solidão. Até dois anos atrás, por exemplo, não comemorava meu aniversário com festa. Minha grande dúvida era: as pessoas virão porque gostam de mim ou simplesmente porque sou a chefe? Outro momento de solidão vinculado à ascensão profissional é o final de semana. Você não tem para quem ligar, porque não sobrou espaço para amigos fora do trabalho.

 Vânia: Isso para mim é prioridade – e uma questão de disciplina. Pelo menos uma vez por mês, saio para jantar com os amigos da faculdade. Faço três horas de almoço para encontrar uma pessoa querida. Em contrapartida, se um dia for preciso trabalhar 15 horas seguidas, a empresa sabe que pode contar comigo.

 Eneida: Para mim a solidão aparece no momento das grandes decisões. Não posso compartilhar meus pontos de vista com muitas pessoas nem buscar opiniões diferentes. Por outro lado, amadurecemos à medida que a carreira progride. Procurei não me isolar nesse processo: fui aprendendo com as pessoas, me aproximando delas. Quando eu estava em plena ascensão, tinha que me empenhar tanto que aí, sim, me distanciava dos outros. Para mim, a solidão foi muito maior no começo.

 Valéria: É possível sair da solidão e administrar bem o estar sozinha. São coisas muito diferentes…

 Cristiane: Outro dia, li isso num livro budista. A solidão é a ausência do outro. Já a solitude é sentir-se feliz simplesmente por estar consigo mesma. A maturidade traz essa capacidade de ver a vida com outros olhos.

 CLAUDIA: Qual o papel dos maridos no sucesso profissional de vocês?

 Eneida: O meu é um “maridaço”. Se não fosse ele, acho que não teria feito nem metade do que consegui fazer. O Paulo já estava no nível gerencial quando entrei na Avon. Aí vieram as promoções e meu salário se aproximou do dele. Há um momento em que o homem começa a ficar um pouco inseguro, como se tivesse que ganhar mais sempre. Mas meu marido me apoiou o tempo todo, eventualmente cuidando do filho, ajudando no supermercado…

 Cristiane: Meu ex é uma das melhores pessoas que conheci na vida. O problema é que ele é um grande sonhador e eu sempre fui uma pessoa prática. A situação degringolou depois que fiz especialização em trauma de crânio nos Estados Unidos. Como é uma área que pouca gente estuda, na volta comecei a me projetar na profissão. Ele passou a implicar com o fato de eu trabalhar demais, e as coisas ficaram difíceis.

 Beth: Minha primeira separação tem uma história parecida: um marido sonhador, e eu numa situação de ascensão, inclusive salarial. Quando eu tinha uma reunião ou viagem, ele fazia um escândalo. A certa altura, precisei optar entre a relação amorosa e o trabalho. Escolhi o trabalho.

Rosi: Todas nós temos o sonho de encontrar uma pessoa que queira crescer com a gente, criar filhos. Mas isso é difícil. Muitos homens acham que a carreira deles vem em primeiro lugar. Se a mulher é forte e bem-sucedida, pensam: “Já não sou o primeiro na vida dela, tem a carreira”.

 Vânia: Sempre tive muito apoio. Este ano, pela primeira vez, não pude ir à festa de Dia das Mães da escola dos meus filhos. Meu marido me disse: “Não tem problema. Deixa que eu vou, mesmo que tenha que me vestir de mulher”. Era o único homem.

 CLAUDIA: Os filhos são os maiores afetados pela dedicação à carreira?

 Vânia: Os meus levam numa boa. Sabem que eu gosto do meu trabalho. Mas é claro que eu faço lição pelo telefone e o fim de semana é deles.

 Eneida: Uma vez disse para o meu filho: “Você gostaria que a mamãe parasse de trabalhar e ficasse com você em casa?” Ele tinha uns 12 anos e me respondeu: “Ficou louca? Imagine, o que você iria fazer aqui dentro?” É um menino ótimo, de cabeça boa, ajustado. Agora que está na Austrália, estudando, me preocupo com a solidão do meu marido. Trabalho até tarde e não estou em casa quando ele chega.

 Cristiane: Se meu filho me liga a qualquer momento e diz que precisa de mim, largo tudo na hora para atendê-lo. Ele sabe que é a coisa mais importante da minha vida.

 CLAUDIA: Se fosse preciso deixar cair um dos pratinhos que a gente equilibra – os filhos, o trabalho, o relacionamento amoroso e outros mais -, qual vocês escolheriam?

 Cristiane: Deixei cair o da relação. E hoje acho que foi uma coisa boa. Meu marido está melhor, encontrou seu espaço. E eu me vi inteira para cuidar do meu filho.

 Eneida: Para mim, é o do trabalho. Se acontecer alguma coisa com o atual emprego, arrumo outro. Com a família, é bem mais complicado. As pessoas acham que, quando atingimos um determinado patamar profissional, a carreira se torna tudo na vida. Não é verdade. Meu trabalho pode ou não durar muito tempo e, no final, quero olhar para trás e encontrar a família, os amigos, a saúde em dia.

 Beth: A família é importante, mas não posso dizer simplesmente que deixo cair o pratinho do trabalho. A empresa é minha. Vários empregos dependem de mim. Se eu fechar a porta, prejudico muita gente.

 Valéria: A escritora e feminista Rosiska Darcy de Oliveira afirmou certa vez que a mulher, ao entrar no mercado de trabalho, fez um acordo secreto: ao empregador, prometeu que ele não perceberia que ela tem família; à família, que nem sequer notariam que ela tem um emprego. Pelo visto, não é bem verdade…

 Vânia: Se for verdade, devemos virar esse jogo. As empresas precisam aceitar que a mulher tenha uma família e criar condições flexíveis para que ela cresça na carreira. A culpa também é das mulheres, que insistem em tentar se adaptar mesmo que a empresa não mostre nenhum jogo de cintura. Na minha, procuramos conciliar as coisas. Um dia, cheguei tarde para uma reunião com o presidente porque tinha ido à festa de final de ano dos meus filhos na escola. Todos estavam me esperando. Como sabiam o porquê do meu atraso, alguns tentaram fazer gracinhas. Cortei na hora: “Estou vindo da festinha das crianças”. Nos sentamos e a reunião começou.

 CLAUDIA: Vocês têm truques para afastar a solidão?

 Eneida: Mesmo que você não tenha tempo para sair, o que custa pegar o telefone e ligar para alguém? Ontem, fiquei uma hora e meia parada no trânsito. Liguei para minha mãe, falei com duas amigas… Não perco o contato com as pessoas.

 Beth: Não sou de sair com amigos, mas não esqueço aniversário de ninguém. Não deixo passar batido. Outra estratégia é sempre encontrar um tempo quando alguém me procura para conversar. Minha agenda pode estar cheia, mas paro e ouço.

 CLAUDIA: Que conselho vocês dariam às mulheres que estão batalhando para subir na carreira talvez sem imaginar que triunfo não é necessariamente sinônimo de bem-estar?

 Rosi: Acho que elas devem se valorizar e repetir sempre: “Eu mereço”.

 Vânia: Elas precisam acreditar em sua força interior.

 Beth: Tudo na vida tem seu ônus. Todas terão que fazer escolhas. Então, é pesar os prós e os contras e seguir em frente. Quando a gente muda de emprego para ganhar mais, não sabe se os novos colegas vão nos respeitar tanto quanto os do trabalho anterior. O importante é ter foco e saber o que se quer conquistar.

 Eneida: É isso. E não se sujeitar a situações que as façam infelizes só em nome da carreira ou do dinheiro.

 Cristiane: Só quero lembrar que sucesso na carreira não é sinônimo de felicidade. Você pode ter a admiração dos colegas e não ser feliz.





Afinal, até onde as mulheres querem chegar na carreira?

15 10 2009

O preço que estamos… ou não estamos dispostas a pagar pelo topo.

Por: Iracy Paulina.

Reportagem de Liliane Simeão, Revista Cláudia, outubro de 2005.

DBU011  Ótimos salários, cargos de prestígio, benefícios e.. muitas horas extras são os prêmios de algumas executivas. Boa parte das mulheres, porém, tende a repensar suas metas e não apenas por buscar uma rotina mais tranquila.

Um estudo da Catalyst, organização americana que faz pesquisas sobre a participação feminina no mercado de trabalho, mostrou que uma das pedras no caminho das mulheres rumo aos cargos de comando é a dificuldade encontrada para incorporar uma jornada muito extensa. Os pesquisadores chegaram a essa conclusão ao detectar que uma em cada três americanas com título em MBA não estava empregada em período integral, enquanto a proporção masculina era de um para 20. Com a experiência de quem já provou o gostinho do topo quando era presidente de uma indústria de embalagens metálicas, em São Paulo, a administradora de empresas Ana teresa Meireles, 45 anos, corre dessa tendência: sempre aceitou numa boa o trabalho em período integral. Messmo assim, ela resolveu dar uma guinada profissional. “Somos formados por várias facetas e, a cada momento, uma toma dianteira, ganha prioridade. Cumpri uma etapa importante e decidi que já era hora de ter mais liberdade de escolher os projetos que realmente queria tocar. A sabedoria está em não nos tornarmos refém de uma parte de nossas vidas, seja ela a carreira, os filhos, o casamento, o social, o status ou poder”, observa a administradora, que atualmente comanda a própria consultoria, a Focus.

Um executivo competente, segundo Ana teresa, não pode ser obsessivo, precisa ter uma mente aberta e receptiva. Ela cultiva o relacionamento com os amigos, viaja com a família de férias, dedica-se à corrida quase diariamente, curte os filmes que adora, saboreia a leitura de um bom livro, exercita o prazer da escrita. “Essas coisas são como alimentos vitais para mim”, explica Ana, que não se arrepende nem um pouco de ter deixado a presidência de uma grande empresa.

HOMENS SÃO MAIS COMPETITIVOS?

De acordo com uma pesquisa recente feita na Universidade de Pittsburgh, Estados Unidos, o apetite feminino pela competição é menor que o masculino. No experimento, homens e mulheres tinham que fazer o máximo de contas possível no prazo de cinco minutos. Os pesquisadores notaram que, mesmo se saindo bem sozinhas, elas evitaram as rodadas em que os grupos competiam entre si, o que não ocorria com os homens. Há quem defenda essa diferença seria inata e explicaria o fato de eles encararem a hierarquia corporativa como um ringue de luta, enquanto nós pisaríamos mais manso nesse terreno. Para a socióloga Clara Araújo, da Universidade Estadual do RJ, isso é bobagem. “As diferenças de expectativa são fruto da socialização. Com o avanço feminino no mercado de trabalho, mulheres bem sucedidas provavelmente são tão ambiciosas quanto os homens.”

Como gerente de RH da América Latina da unidade de negócios Health-care da General Eletric, a psicóloga Sandra Rodrigues, 39 anos, acredita que já chegou onde desejava. “Poderia ir mais longe, pois tenho talento e a GE investe nos colaboradores”, diz. Não faltaram oportunidades. A última aconteceu meses atrás, quando foi convidada a participar de um processo seletivo dentro da própria GE. “Teria que ficar muito tempo fora do Brasil”, explica. Estava aí um ônus com o qual ela não se dispunha a arcar. Desarranjaria toda a vida doméstica. “Quero acompanhar o desenvolvimento dos meus filhos. Por isso, não aceitaria um cargo que implicasse um volume muito grande de viagens, reuniões e encontros de negócios, restringindo assim os momentos de convivência com as crianças.” No atual posto desde 1999, ela chega a trablhar por volta das 9 horas, porque faz questão de tomar café da manhã todos os dias com os pequenos. Não sai depois das 8 da noite, por acreditar que o excesso de carga horária prejudica o rendimento. Quando é possível, nem vai à empresa, já que montou um home office e resolve os problemas em casa. Mas é sobretudo a sua função que a faz feliz. “Gosto de ajudar as pessoas a crescer, indicando cursos e orientando sobre posturas.”

Claro que existem muitas mulheres que entraram para valer na batalha pela liderança, como demonstra um levantamento feito desde 1994 pelo Grupo Catho, consultoria em RH de São Paulo. No primeiro ano da pesquisa, o porcentual de mulheres ocupando o topo da hierarquia nas empresas era de apenas 8% – número que dobrou em uma década. O mesmo estudo mostra, porém, que elas têm suas preferências: o último levantamento apontou que as áreas com maior número de executivas são as de recursos humanos (62%), relações públicas (57%) e administração (39%). Já aquelas que menos atraem as mulheres são as de processamento de dados (16%) e a industrial/engenharia (12%).

Postos avançados – Pesquisa do GRupo Catho, feita entre 2004/2005, mostra o porcentual de executivas em cargos-chave de 60 mil empresas:

Vice-presidente: 15%

Presidente: 16%

Diretoria: 21%

Gerente: 25%

Chefe: 34%

Supervisora: 37%

Coordenadora: 47%

Empregada: 48%





Ficar em casa ou romper a casca?

5 10 2009

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Por Liane Alves. Revista Vida Simples, Março de 2006.

É um fenômeno mundial: cada vez mais os filhos prolongam sua estada na casa dos pais, desfrutando de benesses como carinho e apoio quase inesgotáveis, liberdade, a comidinha predileta e outros confortos. Os pais parecem aceitar essa adolescência quase perpétua numa boa e, em muitos casos, estimulam a permanência dos filhos em casa até como uma estratégia para enfrentar o próprio envelhecimento. Mas há muita gente se perguntando se essa realidade é apenas mais uma faceta de um mundo em que os valores estão mudando rapidamente ou se há efetivamente algo de negativo nisso. Por isso, pais e filhos, leiam com carinho esta matéria. E experimentem, nem que seja por alguns momentos, trocar de papel e imaginar o que sente e pensa cada lado dessa história devidamente apresentada para filhos e pais abaixo.

A história dos filhos
A cosquinha que dá vontade de sair de casa já começou? Pode ser até que ela já tenha dado um pouco antes, ao sair da faculdade, aos 22 anos, ou quem sabe quando seus irmãos se casaram e você ficou para trás, aos 25, ou quando um amigo ou amiga o convidou para morar junto, aos 27. Mas parecia muito cedo ainda. Nesses momentos de dúvida, você olhou para seus pais, viu que ainda era muito ligado a eles, que gostava do conforto do seu quarto, que tinha muita liberdade e, principalmente, que a vida lá fora seria dureza. E não saiu. Não precisa se martirizar por isso: saiba que você está em ótima companhia. Filhos que ficam mais tempo em casa, até os 28, 30 ou 32 anos (se não for mais), transformaram-se num fenômeno recente, observado não só na classe média do Brasil como em vários países do mundo é a chamada geração canguru. Na Itália, por exemplo, filhos como você ficaram conhecidos como mammone (palavra que vem de mamma, a soberana mãe italiana que adora ter seus rebentos na barra da saia). Na França, o pessoal anda ficando mais com os pais porque os empregos também estão difíceis por lá. No Brasil, segundo o levantamento feito pelo geógrafo Arlindo Mello para sua tese de mestrado na Escola Nacional de Estatísticas do Rio de Janeiro, 25% por cento dos filhos que ainda moram na casa dos pais na Cidade Maravilhosa têm mais de 30 anos. É gente pra burro. Embora esse universo ainda não seja quantificado com a devida exatidão (segundo o IBGE, os jovens brasileiros que caem na vida mais cedo ainda são a maioria), a dificuldade para sobreviver e as facilidades dadas pelos pais andam conservando muita gente em casa. Portanto, você não é uma exceção isolada: muitas famílias estão mesmo abraçando seus filhos por mais tempo.

O mercado imobiliário, por exemplo, já detectou a mudança. Os enormes apartamentos com quatro suítes e cinco garagens ou os flats que se intercomunicam muitas vezes são vendidos para casais de alta renda com filhos adultos. Os proprietários mais velhos que têm apartamentos grandes não estão se desfazendo mais deles para ir para um menor. Ou os filhos ficaram com eles ou, se saíram, podem voltar, afirma Ely Whertheim, vice-presidente imobiliário do Sindicato das Construtoras de São Paulo (SindusCon-SP).

Fátima Fachin sabe muito bem disso. Aos 28 anos ela viu, abismada, seu pai comprar um apartamento com três suítes quando ela estava prestes a sair de casa para se casar, dois anos depois de sua irmã mais nova. Fátima questionou a decisão. E o pai respondeu na lata: Dou um prazo de carência de cinco anos para o casamento de vocês duas. Se der errado, estou esperando vocês aqui com sua mãe. Se não der, vendo o apartamento, compro um veleiro e vou para a Martinica. A Martinica, para o pai de Fátima, é a imagem de uma utopia, uma Pasárgada. Ele decidiu adiar seu sonho idílico por desconfiar da durabilidade do casamento de hoje e também por achá-las incapazes de sobreviver sozinhas, a partir mesmo de suas escolhas profissionais (música e artes plásticas). Pode ser pragmático, até generoso, mas, puxa, não dá para controlar a vida assim…, diz Fátima.

Luciana Alves Pereira é outra moça de 28 anos que desfrutava de um ambiente e tanto com a família. Filha de pai arquiteto, morava numa casa belíssima de madeira e vidro, fotografada por várias revistas de arquitetura. Mas, no fim do ano passado, começou a sentir que seu prazo de validade por lá já estava expirando. Por ser muito amiga e próxima dos pais, foi duro convencêlos de que queria deixá-los para experimentar a grande aventura da vida independente. Mas o destino ajudou: De repente, vi que se havia formado uma brecha em que eles não precisavam tanto mais de mim. Minha mãe estava bem, meu pai também e minha irmã já estava casada. Se não aproveitasse aquele momento em que tudo fluía, acho que depois ficaria muito difícil. Na sua decisão, está embutida bastante responsabilidade. Saí porque estava ganhando o suficiente para alugar um apartamento de quarto e sala no centro. Não tem sentido viver sozinha e esperar que pai e mãe ajudem a cobrir o cartão de crédito, diz a ajuizada Luciana. Também se sentiu feliz porque não precisou sair de casa por causa de namorado. A gente é de uma geração acostumada a zapear no controle remoto da televisão. Imagine se saísse por causa de alguém e não desse certo. Teria de voltar para casa com um gosto de fracasso na boca, com a sensação de que não conseguia sobreviver sozinha. Mesmo tendo a certeza de que pai e mãe a receberiam de braços abertos.

A história de Luciana mostra que a casa dos pais certamente estará aberta quando você precisar (ufa!). A psicóloga Lidia Aratangy, por exemplo, viu sua filha voltar com duas crianças pequenas após a moça ficar viúva com apenas 30 anos. Garanti que ela teria nosso apoio para o tempo que fosse necessário. No caso dela, isso durou um ano e meio. Mas minha filha sabia que ficar conosco era uma solução provisória, paliativa, afirma a psicóloga. Um tempo até ela poder se arrumar de novo na vida. Mesmo quando saem com menos idade, muitos jovens ainda conservam uma parte do seu ninho com os pais. É o caso do administrador de empresas Paulo Henrique (que pediu para ter o nome trocado nesta reportagem), 25 anos, que responde por um cargo de chefia numa multinacional da indústria química de São Paulo. Aluno brilhante e responsável, veio de Belo Horizonte aos 18 anos para estudar na capital paulista. Seus parcos recursos para se manter, porém, o fizeram morar em todos os ambientes possíveis.

Mesmo no último ano, já formado, trocou oito vezes de endereço, na maioria das vezes nada recomendáveis. É famoso entre os amigos como Mister Pig (ou Senhor Porco), numa alusão à infinidade de muquifos (também conhecidos como cabeça-de-porco) em que teve de morar em São Paulo. Só agora, num bom emprego e ganhando bem, Paulo decidiu se estabelecer. Mas quem vê seu desembaraço e independência como profissional nem desconfia que quase todo fim de semana ele arruma sua malinha e vai para Belo Horizonte para ver seus pais e ter a roupa lavada. De quebra, ainda volta com um a quentinha com aquela comida que só a mamãe sabe fazer.

Então, como você vê, existem dos acomodados aos que só querem uma força da família para cumprir seu projeto de vida. Aliás, essa é a grande pergunta que você deve fazer a si mesmo quando começar a coceirinha de querer sair de casa. Saber qual é seu projeto de vida esclarece a situação. Querer ficar na casa dos pais para fazer um mestrado ou curso de especialização para ter melhores chances no mercado de trabalho é uma coisa. Ficar porque tem certeza de que seu padrão de vida vai abaixar quando começar a pagar suas próprias contas é outra, diz a psicóloga Lidia Aratangy, que aconselha, inclusive, os pais a sentarem com seus filhos e perguntarem bem claramente o que eles pretendem fazer de suas vidas. Autora de livros sobre a relação de pais e filhos, Lidia, que já é avó, perturba-se com a infantilização exagerada dos jovens adultos de hoje. A infantilização começa cedo. Aos 12 anos, por exemplo, os adolescentes de hoje lêem as Aventuras do Capitão Cueca, um livro quase infantil. No meu tempo, a gente lia Erico Verissimo e boa literatura adulta. Isso faz diferença mais tarde, diz Lidia. Uma das razões para isso ocorrer talvez seja o excesso de mimos dos pais, que infantilizam os adolescentes e os deixam pouco tolerantes às frustrações como as crianças. Acontece que uma boa relação com as próprias frustrações é um dos alicerces da maturidade. Nesse caso, então, o que fazer? Terapia é bom. Mas também vôos rasos, curtos, só para sentir qual é sua autonomia. Que tal passar um tempo na casa de uma irmã? Ou de um amigo? Mesmo que o desempenho não seja muito bom, não desanime. Aprender é o maior capacidade do ser humano. A gente pode ir para a nova casa não sabendo fritar um ovo, sim. Os primeiros podem sair queimadinhos, mas depois a gente aprende, lembra a advogada Sueli Nunes, que saiu de casa aos 30 anos sem saber cozinhar, passar roupa ou limpar banheiro. Em seis meses de tentativas, já rodopiava pelo seu apartamento de lencinho na cabeça como uma borboleta feliz.

Além dos mimos, a sedução e a chantagem emocional dos pais podem gerar um aumento no tempo de estadia dos filhos. Quando eles ameaçam abrir as asas, chega uma passagem de avião para longe. Quando tentam de novo, uma fragilidade súbita de um dos genitores estanca o processo. Mas dá para saber quando é fita ou suborno,garante a dentista paulista Caritas Marcondes, que tentou sair de casa quatro vezes antes de conseguir realizar a proeza. Na verdade, a descoberta da mentira e da manipulação ajuda muito a concretizar a decisão de partir.

E, se você não quiser sair de casa, pergunte-se sinceramente por quê. Pode ser que realmente esse não seja o momento de sair. Por mil motivos que só você tem condições de descobrir. De qualquer forma, o autoconhecimento sempre vai colocar mais luz na situação. Até você conseguir resolvê-la um dia.

Isso posto, boa sorte. Mas antes leia abaixo “A história dos pais” para entender melhor o que passa na cabeça deles.

Demorô!
Planeje sua saída. Sente, faça contas, calcule seus gastos.
Tenha um dinheiro reservado para os primeiros meses.
Visite o apê que possa pagar até encontrar um de que goste.
Converse com quem já saiu e aprenda com suas experiências.
Fale francamente com seus pais e resista às seduções.
Estabeleça um prazo razoável para a saída.
Saiba antes a quem recorrer se precisar de algum dinheiro.
Decidida a questão, alugado o apê, vá em frente.
Tenha um plano B na manga (que não inclua a volta à casa dos pais).

A história dos pais

Lembra aquela vontade de sair de casa, arriscar o pescoço, meter os peitos, enfrentar desafios e cair na estrada com uma calça velha azul e desbotada? Pois é, parece não existir mais. Ou, se existe, não é bem assim. Calça desbotada ainda pode ser, mas hoje a passagem de avião dos filhos tem ida e volta bem definidas, com certeza com o mesmo endereço da hora da partida: a casa dos pais. Passar dificuldades e perrengues, vamos ser sinceros, em nome do quê? Independência? Liberdade? Bens materiais? É o que mais eles têm em casa. Porta do quarto fechada, vale tudo, ou quase tudo, desde que não se acordem os vizinhos ou prejudique a saúde, é claro. Com a vantagem de não ter de pagar pela roupa limpinha, pelo canelone de ricota e, muitas vezes, nem pela conta do celular.

Não há como negar: seus filhos gostam do ninho, da plumagem macia que você deu para eles, que os defende em parte de uma vida mais competitiva, insegura e com um número bem menor de oportunidades do que você próprio teve. Além disso, confesse, é gostoso ver as crianças ainda por perto, mesmo que elas já sejam bem grandinhas. Você se delicia com suas aventuras o namorado, a namorada, aquela viagem maluca nos Andes, as histórias dos amigos, os desafios do início da vida profissional… A presença deles traz vida, frescor, um certo encanto, a juventude que todos nós tanto amamos. Não é para se envergonhar,portanto. Os filhos ficam mais tempo em casa porque a vida mudou. E muito. Em primeiro lugar, ela esticou temos mais tempo para viver e, com isso, as fases da vida também se alongaram. A expectativa de vida hoje no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de quase 72 anos. Casa-se mais tarde também, um ano a mais, em média, do que quando você era jovem, se estiver na casa dos 50. A adolescência tornou-se compridíssima. No seu tempo, dizia-se que ela ia dos 13 até os 18, vá lá,19 anos. Isto é, um adolescente (teenager, em inglês) estava no período de vida que vai dos thirteen (13) aos nineteen (19). Ao se completarem 20 anos, mudava-se de década e status o adolescente passava a ser um jovem adulto.

A própria lei brasileira considera que, aos 18 anos, uma pessoa já é plenamente responsável por seus atos. Mas certamente não pela sua sobrevivência, como se sabe. Com essa idade, um jovem (da classe média, pelo menos) ainda está no primeiro ou segundo ano da faculdade, com pouquíssimas chances de emprego e auto-suficiência. Também não pensa seriamente em se casar, em ter uma casa e filhos, em se tornar responsável por uma família, condição que atestaria sua maturidade psicológica e autonomia na sociedade. Enfim, é adulto mas naquelas, né?

A adolescência tornou-se tão longa que a psicóloga carioca Tânia Zagury dedicou um livro inteiro, Encurtando a Adolescência, a esse assunto. Hoje, considera-se que a adolescência começa bem antes, já com uns 11 anos e alonga-se até um período indeterminado, que pode ir até a casa dos 20: 22, 23, 24 anos, sabe Deus quando. Essa visão, que vem dos próprios jovens com relação a eles mesmos, foi detectada pelo psicólogo paulista Yves de la Taille, autor do livro Labirintos da Moral, que assina junto com o educador Mário Sérgio Cortella. Diante do olhar estupefato do professor, todos os alunos do quarto ano de psicologia da USP, gente dos seus 23, 24 anos, levantaram a mão quando perguntados se consideravam a si próprios como adolescentes. Acreditam nisso porque certamente não têm autonomia. Podem ter independência na casa dos pais, total liberdade de ir e vir, mas não têm auto-suficiência, diz. Esse é, segundo Yves de la Taille, o grande fator que separa sua geração da de seus filhos: a capacidade de ficar em pé nas próprias pernas vinha mais cedo e era muito desejada. Havia um certo brio em sair de casa, manter-se sozinho, enfrentar a vida para ter independência e vida própria. Esse orgulho vinha do clima cultural vigente: ao sair de casa, rompiam-se as amarras com um sistema familiar duramente contestado e abriam-se caminhos para novas formas de viver em sociedade. Para a turbulenta geração dos anos 60 e 70, independência rimava com honra. Inaugurou- se uma outra época: os ídolos dos jovens passaram a ser os próprios jovens, com sua rebeldia e amor pela liberdade. Antes, os ídolos dos jovens eram seus próprios pais, afirma De la Taille.

Mudança brutal. A juventude, com sua beleza e ímpeto de vida, tornou-se o mais desejado dos bens. Por isso, os filhos de hoje querem permanecer adolescentes até a última ponta. E os pais também. Pensem bem: ter os filhos por perto, como se fossem crianças, pode aumentar, e muito, a ilusão de eterna juventude. E adiar o momento de se reestruturar um casamento, de se perguntar o que realmente gosta de fazer na vida, procurar projetos que incluam a realização pessoal. Reencontrar a própria individualidade, depois de tantos anos se dedicando a ajudar a formar a identidade dos filhos, pode ser um processo doloroso. Além de ser uma maneira inconsciente e engenhosa de não enfrentar a própria idade e, com isso, a proximidade da etapa final da existência (que também se alongou e tornou-se mais prazerosa e criativa, ainda bem).

Sábios são os indianos, que, encerrada a vida produtiva, de exercício profissional e criação de filhos, iniciam outra etapa completamente diferente, consagrada ao autoconhecimento e aperfeiçoamento interior. Fazem retiros, peregrinações espirituais, vão atrás de mestres ou se tornam um deles. Mesmo no Ocidente, onde a procura espiritual não parece ser tão visceral e profunda, muitos pais que soltaram seus filhos para o mundo tiveram a oportunidade de experimentar o que sempre gostariam de fazer e nunca haviam conseguido: viajar, ensaiar uma atividade artística ou literária (pintar, esculpir, tocar um instrumento, escrever), fazer cursos livres, entrar numa nova faculdade para depois, quem sabe, dar aulas ou dedicar-se a uma atividade voluntária. Os pais podem, numa imagem bem prosaica, voltar a comer a coxinha do frango, depois de tantos anos tendo deixado essa parte saborosa para os filhos durante as refeições.

Os 50, 60 e 70 anos, então, podem se tornar um rico período de busca de realização. E por que não? de felicidade. Aos 57 anos, Blanca Suarez, por exemplo, que durante mais de dez anos foi relações-públicas da Maison de la France, órgão oficial do turismo francês no Brasil, abandonou a idéia de continuar nesse ramo de atividade para se dedicar à paixão de sua vida: os animais. Inscreveu- se como voluntária numa ONG,a Arca, que acolhe animais enjeitados, e, por enquanto, não pensa em voltar ao circuito de eventos, festas e viagens. Conquistei o direito de fazer só o que meu coração diz. Mãe de um médico veterinário de 25 anos que tem mais quatro anos de mestrado e doutorado pela frente e que ainda mora em sua casa, ela não esperou para conquistar o espaço próprio. Estou me preparando para quando ele for embora.

Por isso, tranqüilize-se, não é errado ter os filhos por perto, se realmente há necessidade disso e se você não se torna dependente da lufada de oxigênio que eles trazem para casa, tentando segurá-los com mimos ou chantagens emocionais. A história só fica meio esquisita quando não há essa precisão e há um certo comodismo por parte deles, uma espécie de pânico de enfrentar a vida e passar pelas eventuais dificuldades que irão se apresentar no caminho. Porque é claro que será diferente. Essa geração ama o conforto tanto quanto a geração passada gostava da liberdade. Mas o ser humano precisa de riscos e desafios para crescer, afirma Yves de la Taille. Enfim, precisa quebrar a cara às vezes. Filhotes são mesmo para sair do ninho, ainda que isso custe um pouquinho mais.

Você mesmo desempenhou o seu papel nessa mudança rumo a uma vida mais protegida. De peito aberto, sua geração ajudou a destruir convenções, balançar a moral estabelecida e dar uma sacudida geral nas ideologias. Foram derrubados os muros que bloqueavam a estrada e agora seus filhos passeiam por ela sobre asfalto macio. Eles têm mais tempo para aprender, mais abertura para viver e, de certa maneira,muito mais facilidades. Têm, em suma, acesso a informações e experiências quase inimagináveis em seu tempo. Por motivos diferentes (e são muitos, não tenha dúvida), sorte sua por ter vivido sua época. Sorte dos seus filhos por viverem a deles.

Agora, com o coração mais pacificado, leia o que acontece com seus filhos. Leia e reflita. E descubra, nele e em você, se há uma necessidade de mudança.

Chegou a hora?
Lembre-se sempre: seu filho já é um adulto.
Mesmo que não precise, faça questão de que ele ajude em casa.
Estabeleça com nitidez as responsabilidades dele.
Deixe claras as conseqüências do não cumprimento dessas regras.
Se ele pensar em sair, procure ajudá-lo no que for possível.
Não use suas dificuldades para mantê-lo em casa.
Se ele deseja ficar para ajudá-lo por alguma razão, reflita bem.
Procure retomar sua própria individualidade.
Inaugure uma fase de realização de sonhos e busca espiritual.

PARA SABER MAIS

LIVROS
Encurtando a Adolescência, Tânia Zagury,  Ed. Record.
Livro dos Avós, Lidia Aratangy e Leonardo Posternak, Ed. Artemeios.
Pais que Educam Filhos que Educam Pais, Lidia Aratangy, Ed. Celebrist. 





Equilíbrio entre tempo e dinheiro

22 09 2009
Equilíbrio entre tempo e dinheiro sustenta o ciclo da prosperidade
Seg, 21 Set, 18h00

SÃO PAULO – De acordo com o especialista em administração de tempo e produtividade, Christian Barbosa, a vida acontece em “ciclos pessoais”, marcados pela forma como as pessoas escolhem e decidem levar suas rotinas, conseguindo acumular riqueza ou não.

“Esses ciclos se equiparam à imagem de uma espiral, como um amortecedor de carro, que pode ser ascendente, descendente ou contínua no mesmo ponto”, explicou Barbosa.

O ciclo da prosperidade (ascendente) é aquele em que as pessoas dão resultados e sabem como usar bem o tempo. “Elas conseguem fazer o dinheiro render e aumentar, usam técnicas de planejamento para tempo e finanças e vivem de forma sustentável em todos os seus papéis”.

Quando a situação piora

Um outro ciclo é o da sobrevivência (contínuo no mesmo ponto), quando a pessoa não perde riqueza, mas também não acumula. Nesta situação, a pessoa se conforma apenas em sobreviver, tendo dinheiro suficiente para pagar suas contas e permanecer no mesmo ponto de sua carreira. O tempo, para elas, também é mal utilizado na maioria das vezes.

Pior do que essas pessoas, por sua vez, estão aquelas no ciclo da frustração (descendente). “Engloba as pessoas que não conseguem ter tempo para o que gostam, vivem cheias de problemas financeiros, pagam juros aos bancos, estão atrasadas em suas atividades e o estresse configura-se como parte integrante da vida”, ressaltou Barbosa.

Para conseguir se manter no ciclo da prosperidade, Barbosa indicou que a pessoa faça uma autoanálise com o intuito de descobrir em que fase da vida se encontra.

Relação tempo e dinheiro

Além disso, é preciso encontrar a sinergia entre tempo e dinheiro, já que dificilmente uma pessoa conseguirá ter um sem o outro de forma equilibrada.

“Ou seja, para aproveitar o seu dinheiro, você precisa de tempo; e para gozar as suas horas livres, você necessita de recursos financeiros. Isso não significa a conquista de um sonho utópico ou ganhar na loteria, mas aprender a usar esses dois pontos fundamentais de maneira que gerem prosperidade, independentemente da quantidade possuída de cada um deles atualmente”.

Fonte: Finanças pessoais – Yahoo.com.br





O novo super-homem

18 09 2009

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O modelo masculino mudou, diversificou-se e ganhou novos papéis…

Por: Roger Schlegel

Foto: Ivan Shupikov

Primeiro encontro. Ela sugere um restaurante. Alguns drinques antes do jantar quebram o gelo. Na mesa, o prato de entrada é delicado, ela adora. O principal está no ponto. O vinho é divino e eles pedem outra garrafa. A sobremesa adoça o encontro. O café os ajuda a se manter atentos um ao outro. E o licor deixa um gosto de promessa no ar. Eles decidem ir a outro lugar mais tranqüilo. Ele pede a conta. A nota chega e ele se esforça para manter o rosto calmo, mas o valor é mais do que ele pode pagar. De repente, lembra-se dos gastos extras que teve com a ex-mulher, o carro e o conserto do banheiro. O que ele faz? a) Decide fazer um empréstimo no dia seguinte e paga a conta; b) Pede ajuda a ela para pagar a despesa; c) Paga metade e entrega a conta a ela; d) Entrega a conta toda para ela pagar; e) Fica paralisado, sem saber o que fazer.

Está difícil ser homem hoje em dia. São cada vez mais comuns situações como a descrita acima, em que os homens já não sabem como agir. O velho modelo dos nossos pais e avós já não serve mais, mas também não está sepultado. Continua por aí, nos assombrando. E, se há alguma certeza entre os estudiosos do assunto, é que o papel masculino está em transição, ou melhor, em multiplicação, pois agora não se pensa mais em um papel masculino, mas em papéis masculinos. Assim, no plural.

Mas, como toda transição, os novos tempos trazem oportunidades para quem encará-los com tranqüilidade. O papel de machão tinha seu lado confortável, porque era bom dominar, mas obrigava o homem a se fingir de Super-Homem, sem fragilidades ou contato com suas emoções. E tem coisa melhor do que chorar quando se está triste, dividir o sustento da casa e compartilhar decisões importantes? Para quem não tem superpoderes, nada mais confortável do que tirar a fantasia e viver feliz como Clark Kent.

Mudança forçada

Foi nas últimas três ou quatro décadas que o papel do homem mudou de maneira radical. O avô da gente sabia que não podia chorar ou mostrar sentimentos. Bonito era ser durão, agressivo, até. E trazer para casa o pão de cada dia, pois não ficava bem mulher trabalhar fora. Quem cuidava dele, da roupa passada ao zelo com a saúde, era a patroa. Natural: homem não prestava atenção nessas coisas. Sujeito muito vaidoso era maricas.

Todo mundo sabe que esses valores mudaram, mas não pense que foi porque o homem quis. Pelo contrário. Muitos quiseram resistir, mas não tiveram escolha, porque a mudança foi social. Os papéis de homem e mulher estão mudando desde a Revolução Industrial, no século 18, quando as máquinas facilitaram ou substituíram o trabalho humano. Não era preciso ser um Hércules para apertar botões, e a força bruta masculina, que por séculos foi o centro de seu papel, perdeu importância até chegarmos ao mundo de hoje, em que o trabalho intelectual é disparado o mais reconhecido. Outras revoluções acompanharam essa mudança. As mulheres saíram para o trabalho, ganharam salário, viraram consumidoras com voz própria e geraram negócios. De repente, elas tinham opinião e podiam até casar com quem quisessem. E ai do homem que ficasse em seu caminho. Mas tudo isso já é história.

A novidade é que o feminismo obrigou o homem a se questionar, e as questões não têm fim. Como se relacionar com essa nova mulher vencedora? Que lugar devem ter na vida do homem o trabalho, a família, o amor? Homem pode trair? Menino também chora? É o marido que tem de levar o carro ao mecânico e trocar lâmpadas? Ele tem de ganhar mais do que a esposa? Pode mostrar insegurança? E o que fazer com a conta do restaurante?

Seu pai tinha lá suas respostas para essas perguntas, mas as explicações dele não servem para você. Na falta de um modelo claro de homem no qual devemos nos espelhar, a geração que tem hoje entre, digamos, 20 e 50 anos está enfrentando o desafio de reinventar a masculinidade. É dose para leão – para usar uma expressão do vovô (aliás, alguém ainda se lembra do leão, esse bicho machista e fora de moda que era o rei dos animais?).

Busca de novos padrões

É difícil definir novos padrões capazes de deixar o homem atual à vontade. Mesmo inconscientemente, somos assombrados por comportamentos machistas. Até no caso daqueles que se julgam bem resolvidos. Não é uma cena incomum: o casal chega à noite do trabalho e o moderninho diz que vai ver o noticiário ou o começo do jogo – deixando para ela o preparo do jantar. Outro diz que dedica um bom tempo aos filhos, mas em geral é no lazer. As obrigações sobram para a mulher. Na separação, ele jamais cogitaria sinceramente ficar com as crianças. Pois é…

“Há muita propaganda enganosa sobre esse tal de novo homem”, avalia o psicólogo Bernardo Jablonski, professor da PUC do Rio. “O homem tem uma opinião liberal em relação às mulheres e aos papéis, mas na prática ainda se comporta mais como seu pai ou seu avô”, diz. Pode até ajudar nas tarefas domésticas, mas a própria expressão “ajudar” já pressupõe que esse trabalho não é sua responsabilidade. “As mulheres reclamam muito, mas compactuam com isso”, diz Jablonski. Natural. A transformação de um hábito é lenta. O homem muda, mas não na velocidade que ele – e, mais ainda, a mulher – gostaria. Além disso, é preciso estar atento à educação que se dá aos filhos. O professor da PUC acredita que mesmo as atuais gerações de homens urbanos são educadas para terem atitudes conservadoras. Os garotos são ensinados a separar sexo de afeto, o que não acontece com as garotas, por exemplo.

A saída para a encruzilhada masculina não é fácil, porque não basta negar tudo o que o homem machista fazia para se chegar a um novo modelo ideal. Isso serve, no máximo, de ponto de partida. Quer ver? Peguemos um consenso sobre o novo homem: ele não deve esconder suas emoções nem se negar a discutir seus sentimentos. Todo mundo de acordo, certo? E se o diretor chorar numa reunião, ao não saber responder a uma questão do presidente? Não pode, né? Nem que fosse mulher. No trabalho, tem que ser profissional. Então, vamos refazer. Fica assim: o homem não deve esconder seus sentimentos das pessoas de que gosta. Aí o sujeito vira para a esposa e diz, com o coração aberto: “Para mim é indiferente a maneira como você corta seu cabelo”. Piorou. Digamos então que “o homem não deve esconder seus sentimentos das pessoas de que gosta, desde que sua exposição não as magoe gratuitamente”. Talvez tenhamos que melhorar isso aí, mas já começa a complicar, né? E isso faz pensar: é razoável esperar que homens e mulheres entendam e respondam a todos os anseios uns dos outros? Homens podem pensar como mulheres e vice-versa? Homens e mulheres são diferentes

Marcianos e venusianas

Mesmo entre estudiosos do assunto, a resposta a essas perguntas depende do interlocutor. Na psicanálise, por exemplo, há quem acredite que as diferenças que enxergamos foram inventadas numa espécie de delírio coletivo, porque ser homem ou mulher não é o mais importante para definir quem somos. Já para a biologia, as diferenças são claras, e as pesquisas científicas trazem mais e mais detalhes sobre elas. Mas, embora as descobertas sejam interessantes, a capacidade dessa ciência para explicar os papéis sociais é limitada.

As pesquisas mais curiosas nessa área tratam do funcionamento do cérebro. O filósofo social e terapeuta familiar Michael Gurian, autor de livros sobre o assunto, acredita que os cérebros masculino e feminino têm características próprias. Ao longo de milhões de anos, o cérebro do homem esteve voltado para a caça e a construção, privilegiando as habilidades espaciais complexas. Por isso é mais fácil para ele medir, distribuir e manipular objetos, por exemplo. Em compensação, essas funções deixaram menos áreas cerebrais para o uso e a produção de palavras – um ponto forte das mulheres. Elas têm áreas dedicadas à linguagem nas duas metades do cérebro, enquanto eles só as têm em um dos hemisférios cerebrais, o esquerdo. Isso, dizem os biólogos, poderia explicar por que os homens tendem a agir primeiro e perguntar depois. O jeito mais meigo das mulheres e mais enérgico dos homens também poderia ser explicado por diferenças biológicas, sustenta Gurian (leia quadro na página 28).

Estuda-se também o comportamento e as atitudes dele e dela. “Homens e mulheres diferem em todas as áreas de suas vidas”, sustenta John Gray, autor de Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus, um best seller dos anos 90. Na sua avaliação, os dois “pensam, sentem, percebem, reagem, respondem, amam, precisam e apreciam diferentemente” – daí a definição de que é como se tivessem vindo de planetas diferentes. Gray acredita que a base de muitos problemas de relacionamento é o fato de homens e mulheres se esquecerem de que são bem diferentes. Eles esperam que as mulheres reajam como homens e elas esperam que os homens reajam como mulheres. Nada mais equivocado, sustenta Gray, depois de analisar questionários de mais de 25 mil pessoas e conversar com outros milhares.

Ele chegou a generalizações que, claro, não servem para encaixar o comportamento de todo mundo. Afinal, muitos homens também têm características femininas e vice-versa. Mas quer ver como as generalizações espelham atitudes de homens e mulheres que você conhece? Eles, os marcianos, não tendem a valorizar o poder, a competência e a eficiência? E as venusianas, elas não valorizam o amor, a comunicação, a beleza e os relacionamentos? Gray também sustenta, veja só, que as mulheres, quando têm um problema, querem falar sobre ele e precisam ser ouvidas com atenção para se sentirem apoiadas. Os homens, imagine, preferem se fechar até chegarem a algo que pareça uma solução. E ai daquela que der um conselho sem ter sido consultada! (Identificou-se? Leia outros exemplos no quadro na pág. 24.)

A masculinidade é tão complicada que merecia uma ciência nova. E não é que ela existe? É o masculismo, cuja principal indagação é “o que é ser homem?”. “O masculismo procura enxergar o homem como um todo, para redefini-lo”, afirma o psiquiatra Luiz Cuschnir, que trouxe para o Brasil o termo masculismo e é autor de sete livros sobre os papéis do homem e sua relação com as mulheres. Cuschnir coordena grupos de gênero no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, nos quais homens falam sobre suas vivências e angústias. Com base em sua experiência de 30 anos, o psiquiatra vê um avanço claro dos homens, que questionaram e ampliaram seus limites e saíram da estagnação para uma posição criativa. “Para chegarmos a novos papéis nos quais nos sintamos confortáveis, é preciso um aprendizado”, avalia Cuschnir, que não arrisca um prazo para que isso aconteça.

Na verdade, pouco importa. A mudança é um fato e, entre os problemas que ela pode trazer, os piores estão reservados a quem tentar parar o bonde da história. “Os homens e as mulheres que não quiserem ser atropelados deverão praticar a arte de seguir em frente sem mapas e modelos que predeterminem suas escolhas. A razão é simples: esses mapas e modelos não existem”, diz George Barcat, filósofo da Associação Palas Athena, de São Paulo. “A personalidade não é um dado, é fruto de um processo de criação de si mesmo.” O conselho é: não resista. Em vez disso, que tal atentar para as oportunidades que esse homem traz?

O direito de sentir

Já há conquistas para comemorar. Antes, os medos e fraquezas do homem eram inconfessáveis. Desde pequeno, ele aprendeu a segurar o choro cada vez que caía no chão. E achava que era o único responsável pelo bem-estar material e pela felicidade da esposa e dos filhos, tudo isso sem pedir ajuda para ninguém. Ele tinha que tomar decisões sozinho, quase sem compartilhar. Em resumo, o homem vivia a ilusão de que ter poder levaria à felicidade, uma fantasia perigosa que o levou a uma vida emocional desértica e a um infarto prematuro (na maioria das sociedades os homens vivem em média menos que a mulher, e isso não é genético).

Mas isso está mudando. Aos poucos, o homem se sente mais à vontade para entrar em contato com seus sentimentos e expressá-los, o que contribui para destrinchar seus problemas emocionais e fazê-lo mais feliz. Mas ainda há um longo caminho a percorrer.

É verdade que confessar medos e fracassos a um amigo, algo impensável há algumas gerações, já é coisa normal. Mas chorar diante do mesmo amigo, por amor ou algo que possa expressar fraqueza pessoal, ainda é um tabu no caminho da felicidade. E muitos homens ainda resistem à idéia de buscar ajuda com psicoterapia ou outras formas de equilíbrio, como yoga. A eles, o conselho dos especialistas: o mundo mudou. Não é vergonha pedir ajuda.

Esse caminho promete ainda mais satisfação. Luiz Cuschnir diz que o homem tem uma vida emocional tão rica quanto a mulher, mas é mais restritivo na comunicação dos sentimentos. “Isso se deve ao aprendizado por que passou na sociedade e na cultura e à própria reação das mulheres”, afirma o psiquiatra. Sim, a reação delas. Hoje, diz Cuschnir, são as mulheres que mostram grande dificuldade em ouvir o que o homem tem para dizer, inclusive porque o homem demanda uma abordagem específica de seus sentimentos, pois não trabalha com eles da mesma forma que sua parceira.

Ajuda nas contas

O homem ainda privilegia a esfera do trabalho em relação à vida sentimental ou familiar, segundo pesquisas de opinião e relatos de terapeutas. Continua sendo fundamental para a felicidade dele conseguir dinheiro e sucesso no trabalho. E não são poucas as esposas que esperam segurança material dos maridos. Mas está ficando para trás o tempo em que os homens literalmente morriam de trabalhar, sem dar atenção a outras formas de se realizar.

A emancipação financeira da mulher aliviou a pressão sobre ele, antes considerado o provedor por excelência, e o homem viu sair de seus ombros a responsabilidade exclusiva pelo sustento da família. Homem de seu tempo, o dono-de-casa Marcelo Saula, 33, não tem emprego remunerado. Cuida da casa e da filha enquanto a mulher, a jornalista Soninha Francine, trabalha. “Em casa, eu lavo a louça e a roupa, cozinho, limpo a casa e faço supermercado. Ela paga as contas – e não me sinto mal por isso.” É claro que causa estranhamento. “Às vezes rolam umas piadas, tipo ‘Ah, queria ser o seu marido, que não faz nada’”, diz Soninha. “As pessoas parecem esquecer que cuidar de filho e da casa é um supertrabalho.”

Dono-de-casa

Se a mulher fez o caminho de casa para a rua, os homens tomam o rumo inverso. Cozinhar e ficar com os filhos, por exemplo, se mostraram atividades prazerosas. Na TV, proliferaram programas de cozinha para homens.

Eles também se preocupam em assumir seu lugar na formação dos filhos. “Antes o pai saía cedo e voltava tarde, nem podia se dedicar aos filhos. Hoje é possível aproveitar o crescimento deles. De madrugada, quando o bebê chora, eu que levanto”, diz o jornalista Paulo Buscato, de São Paulo. E a presença do pai é fundamental, por exemplo, para ajudar um menino a se diferenciar da mãe, a construir sua identidade. Os homens estão hoje mais atentos para isso, não só por obrigação, mas também por prazer. Em terapias, é usual os homens relatarem como se sentem felizes convivendo com as crianças. “Nada paga a emoção de acompanhar o crescimento da filha”, diz o dono-de-casa Marcelo Saula.

O apego à casa aparece também no maior carinho com a decoração, antes uma prerrogativa feminina. “As tarefas da casa a gente divide por afinidade, sem essa coisa de eu fiz isso ou aquilo”, diz o pesquisador Marcelo Faria, 38, de Barretos. “Adoro cozinhar e assumi a cozinha. Quando ela chega do trabalho, a janta está pronta. Também cuido do jardim e planto meus temperos. A cada duas semanas compro flores para a casa.” Sua mulher, a professora de inglês Fabiana De Vito, diz que adora o arranjo, mas sabe que ele é incomum. “As pessoas estranham quando descobrem que ele cozinha e enfeita a casa.”

Também houve ganhos na flexibilidade da estrutura familiar. Homens e mulheres hoje têm liberdade para procurar sua felicidade em arranjos diferentes. A convivência sem casamento é mais aceita, as separações são vistas com maior naturalidade, os filhos deixaram de ser uma conseqüência esperada da união e se tornaram uma escolha. Todos ganharam o direito de procurar com menos restrições sua felicidade no campo sentimental. O homem não é mais escravo de relações de fachada, tão comuns no passado.

Ele se cuida

Livre da fórmula homem-provedor-mulher-prendada, o homem percebeu que cuidar de si dá prazer e não é vergonhoso. Cuidar do corpo, da pele e da roupa passou a ser tão comum quanto lavar o carro no domingo. A nova atitude cunhou até um nome novo, o metrossexual, criado nos anos 90 pelo inglês Mark Simpson para designar a pessoa (não só o homem) vaidosa ao extremo, que usa as facilidades das grandes cidades (metro é de metropolitano) para viabilizar um egocentrismo nada saudável. Nada a ver com o conceito que a indústria de cosméticos anda querendo vender, de um sujeito vaidoso e bem resolvido. Simpson esclarece que o metrossexual nem é necessariamente hétero, nem homem.

Reconhecer as conquistas e aproveitá-las ajuda a encarar a transição. A mudança traz insegurança, mas há muito o que ganhar, hoje e no futuro. “Apesar da crise, vivemos um momento riquíssimo”, diz Cuschnir. “Não se trata apenas de ver homens e mulheres mudando. Estamos presenciando a evolução da humanidade, que caminha para um patamar melhor.”

Eles e elas

Depois de aplicar 2 mil questionários e conversar com outros milhares de pessoas, o pesquisador norte-americano John Gray concluiu que homens e mulheres são tão diferentes que é como se tivessem vindo de planetas distintos. Veja as diferenças entre os marcianos e as venusianas:

O que valorizam

Eles prezam o poder, a competência, a eficiência e a realização;

Elas se importam com o amor, a comunicação, a beleza e os relacionamentos.

A auto-imagem

Eles avaliam seu sucesso por sua habilidade em alcançar resultados;

Elas tomam como base a qualidade dos seus relacionamentos.

O que vestem

Eles gostam de uniformes, como o de policial;

Elas curtem roupas que expressem seu humor no dia.

Diante dos problemas

Eles ficam em silêncio e tentam soluções sozinhos;

Elas querem conversar e compartilhar idéias.

Na comunicação

Eles adoram dar conselhos e detestam recebê-los sem pedir;

Elas se sentem amparadas quanto ouvidas com atenção.

Cabeça de homem

 

engenheiro – Desenvolvida ao longo de milhões de anos caçando e construindo, fez o homem apto para planejamento mecânico, medição, direção e manipulação de objetos.

introspectivo – A mulher tem duas áreas voltadas à comunicação no cérebro. O homem só tem uma. Eles usam metade do volume de palavras que as mulheres usam.

impulsivo – Os homens produzem menos serotonina, um tipo de tranqüilizante natural. Por isso, tendem a agir por impulso.

agressivo – As mulheres possuem em maior quantidade as substâncias que geram o instinto de “cuidar e acudir” e criam os laços afetivos. A deficiência dessas substâncias inclina o cérebro dele à agressividade e dificulta a criação de laços. Os machos humanos ainda têm mais testosterona, hormônio que favorece a competitividade.

memória ruim para emoções – O centro de memória no cérebro delas é maior e possui mais conexões com as áreas onde nascem as emoções. Os cientistas acham que essa diferença se desenvolveu ao longo da evolução para que elas pudessem decifrar os sinais das crianças.

relaxado O cérebro feminino está constantemente trabalhando e exige fluxo de sangue 15% maior do que o dos homens. O masculino diminui sua atividade com mais freqüência, como se cochilasse. É quando, por exemplo, um homem está diante da TV sem prestar atenção.

Fonte: Michael Gurian, autor de Afinal, o que Pensam os Homens?

 

Para saber mais:

• Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus John Gray, Rocco

• Homens sem Máscaras, Luiz Cuschnir, Campus

• Os Bastidores do Amor, Luiz Cuschnir, Elsevier

• Afinal, o que Pensam os Homens?, Michael Gurian, Elsevier

Fonte: Revista Vida Simples, edição de outubro de 2004.





Geografia e Psicologia Ambiental

14 09 2009

O potencial das representações sociais para a compreensão interdisciplinar da realidade: Geografia e Psicologia Ambiental

 Marília L. Peluso

Universidade de Brasília

 RESUMO

O artigo pretende ser uma contribuição para as discussões sobre a interdisciplinaridade em Psicologia Ambiental e Geografia. Espera-se contribuir para o debate dentro do pressuposto de que a afinidade entre as duas áreas se tece quando se entende o espaço e o ambiente como atores sociais, isto é, eles não são neutros, mas atuam sobre as sociedades e os sujeitos que os produziram, construíram e organizaram. Vai-se trabalhar com os pressupostos de que as fronteiras entre as ciências são tênues e que, para ultrapassá-las, deve-se romper com a compartimentação e articular pensamento e práticas sobre a realidade de maneira interdisciplinar. Considera-se que as representações sociais permitem ultrapassar as fronteiras entre as duas ciências e desvendar complexas relações psíquicas e sociais, tendo como objeto empírico as periferias do Distrito Federal.

Palavras-chave: interdisciplinaridade; fronteiras; representações sociais; espaço; ambiente; psicologia ambiental


Introdução – a questão da interdisciplinaridade

As discussões que ocorrem no âmbito da Psicologia Ambiental, nacional e internacionalmente, mostram um campo de conhecimento dinâmico e em expansão, em busca de uma identidade e de um objeto de reflexão que lhe permita individualizar-se como disciplina e abrigar uma produção científica cada vez mais significativa. O tema é complexo e foi um dos aspectos abordados no Grupo de Trabalho que reuniu pesquisadores da área no IX Simpósio Nacional da ANPEPP, em Águas de Lindóia (agosto-setembro de 2002). Na ocasião, José Pinheiro (2002) ressaltou o traço híbrido e um tanto indefinido da Psicologia Ambiental, indagando se o campo da disciplina seria intrapsicológico, multidisciplinar ou ambos.

Essa mesma indagação esteve no centro dos debates em São Paulo, no Simpósio Internacional Psicologia e Ambiente, ocorrido em novembro de 2002, o que demonstra sua importância para que a Psicologia Ambiental encontre, nas palavras de Boaventura de Souza Santos (2000), “seu lugar específico nos saberes”. Argumenta-se que, entre as dificuldades para que a Psicologia Ambiental encontre seu lugar entre os saberes científicos está a grande diferenciação de formação e trajetórias dos que atuam no setor e a ampla diversidade temática, do que resulta uma variada gama de tipos de investigação científica, métodos de pesquisa e enfoques paradigmáticos (Wiesenfeld, 2002; Moyano Diaz, 2002; Sánchez, 2002).

Tendo em vista a discussão que se desenvolve na Psicologia Ambiental e considerando minha trajetória científica, pretendo, nesse artigo, tratar de questões de interdisciplinaridade e de integração de visões científicas sobre a realidade. Vou ater-me a uma temática, o morar e a moradia, e a um conceito, as representações sociais, e mostrar como se foram construindo afinidades teóricas entre Geografia e Psicologia ao buscar-se resolver problemas surgidos no âmbito de pesquisas. Percebi, então, que o contato com os sujeitos entrevistados foi essencial para construírem-se reflexões e perguntas que necessitaram, para serem equacionadas, de enfoques teóricos fora da minha área científica de origem.

Assim, espero contribuir para o debate ao apresentar minha visão dos pontos de contato da Geografia e da Psicologia Ambiental, buscando novos caminhos para a interdisciplinaridade, dentro do pressuposto de que a afinidade entre as duas áreas se tece quando se entende o espaço e o ambiente como atores sociais. Ou seja, eles não são neutros, mas atuam sobre as sociedades e os sujeitos que os produziram, construíram e organizaram, como resposta às ações das sociedades e dos sujeitos sobre eles.

Minha intenção não é “resolver” a ambigüidade ou apresentar um objeto científico para a Psicologia Ambiental, pois sou de opinião que indefinições, teóricas e metodológicas, são necessárias para que teoria e prática científicas avancem. Faço eco à opinião de Boaventura de Souza Santos (2000), quando diz que se deve compreender a ciência “enquanto prática social de conhecimento, uma tarefa que se vai cumprindo em diálogo com o mundo… ” (p. 13), o que, para mim, significa que não se chegará a um desfecho conclusivo, por mais que seja procurado, quanto mais não seja porque o mundo se transforma e, junto com ele, transforma-se o sujeito conhecedor. Por outro lado, como acentua Zizek (1996), como a realidade nunca é diretamente “ela mesma”, mas “só se apresenta através de sua simbolização incompleta/falha” (p. 26), nunca é totalmente objetiva, mas objetivada pelo campo científico (Demo, 1980).

Questionamentos a partir da pesquisa de campo

Os motivos que me levaram, como geógrafa, a buscar novos enfoques teórico-metodológicos colocaram-se em evidência durante a remoção de inquilinos e invasores para a cidade-satélite de Samambaia, iniciada em março de 1989, dentro do Programa de Assentamento das Populações de Baixa Renda do Distrito Federal.

O que ressaltava em Samambaia era a ordem com que a remoção se processava, assim como a cooperação da população. Os caminhões chegavam, uns após outros, levantando nuvens de poeira, e deixavam à beira da estrada os removidos e seus pertences: o barraco desmontado, a mobília, aparelho de televisão, malas, sacos e o desejo de possuir a casa própria.

A infra-estrutura do assentamento se resumia a luz e chafarizes, que forneciam água para as quadras. Somente as ruas estavam abertas no cerrado. Os moradores limpavam a vegetação e erguiam os barracos. Em poucos dias, toda a área do assentamento foi tomada por pequenos lotes. O princípio do quadriculamento, “cada indivíduo em seu lugar e em cada lugar um indivíduo” (Foucault, 1983, p. 131) entrara em vigor. Mas a satisfação de todos era evidente. Seriam, enfim, proprietários.

Frente à possibilidade de se apropriarem de um pedaço de terra, os removidos correspondiam bem ao que Paviani (1989) chamou de “agente-paciente” do processo de periferização: “agente, porque coopera e atua conscientemente a favor e paciente, porque se submete às ações do Estado, dos agentes imobiliários e outros, que atuam na esfera da terra urbana” (p. 30). Esse tipo de comportamento perpassava toda minha experiência de pesquisa com o mercado imobiliário nas periferias urbanas, tanto no Distrito Federal, como nos municípios limítrofes de Brasília ou em pequenas cidades da fronteira agrícola (Peluso, 1983; 1987; 1988; Peluso & Ferreira, 1986). Entrevistando, conversando, procurando conhecer a vida dos mais pobres e como se inseriam no mercado imobiliário, tomei contato com os “territórios de privação”, em que essa população estava imersa e na qual transitava com eficiência, determinação e resignação.

Até onde me foi dado observar, todos aderiam ao sistema abrangente, cujos jogos e processos eram livremente aceitos. Moradores, vendedores de lotes, técnicos do governo ou funcionários de empresas particulares falavam todos a mesma linguagem, apesar de o fazerem de diferentes espaços representacionais. As várias falas se reforçavam, interrompiam-se num momento para serem retomadas mais adiante, tornavam implícito o sistema, funcionavam ideologicamente. O indivíduo, anulado em face dos poderes econômicos (Adorno & Horkheimer, 1991, p. 14), tornara-se seu arauto e porta-voz.

Voltei-me, então, para compreender as diferentes visões de mundo subjacentes às vidas dos entrevistados e às respostas obtidas nas pesquisas. Minha primeira idéia foi de que o respondente enquanto indivíduo era pouco privilegiado e escondia-se sob rótulos coletivos que o tornava anônimo e desconhecido. Ora os entrevistados eram “moradores de loteamentos”, “moradores da periferia” ou mesmo “pioneiros”, mas nunca se individualizavam numa pessoa, cuja vida pregressa leva-a a comportar-se da maneira como o fazia, tomar decisões aparentemente contraditórias e dar as respostas com as quais me deparava. A partir dessa constatação, busquei um enfoque que me levasse a compreender a dinâmica espacial por meio da subjetividade do indivíduo e cheguei à Psicologia Social. O caminho multidisciplinar que haveria de percorrer desde então implicava em conjugar o olhar da Geografia, preocupada com a construção do espaço pela sociedade, e da Psicologia Social, preocupada com o indivíduo e sua consciência social. A articulação das duas áreas se faria no sentido de, por um lado, compreender a dinâmica espacial por meio da subjetividade do indivíduo e, por outro, compreender como a materialidade espacial se transforma em conteúdos da consciência e em visões do mundo.

Minha chegada à Psicologia Ambiental ocorreu em 1999, quando já havia defendido minha tese de doutorado, em São Paulo, durante a 10a Reunião Anual da Abrapso, na qual participei do 1o Encontro Brasileiro de Psicologia Ambiental. Em Paris, em 2000, na reunião da International Association for People-Environment Studies/IAPS, a sessão sobre Environment and Behaviour Research in Brazil selou meu interesse pela Psicologia Ambiental, visto que encontrei como ponto de contato entre as duas áreas o espaço, que Milton Santos (1994) define como:

(…) um conjunto indissociável de que participam, de um lado, certo arranjo de objetos geográficos, objetos naturais e objetos sociais e, de outro, a vida que os preenche e anima, ou seja, a sociedade em movimento. O conteúdo da sociedade não é independente da forma (os objetos geográficos) e cada forma encerra uma fração de conteúdo. O espaço, por conseguinte, é isto: um conjunto de formas, contendo cada qual frações da sociedade em movimento. (p. 26-27).

Não seria o caso de discutir nesse momento se ambiente e espaço são a mesma coisa, mas em ter uma definição dinâmica que me permitia trabalhar as pessoas e o meio no qual estavam envolvidas como uma totalidade dialética.

Entretanto, os temas psicológicos em si não são estranhos à Geografia. Por isso, no tópico seguinte desenvolverei a maneira como a Geografia abordou o indivíduo em seu percurso como ciência humana e social, quais os problemas que encontrei no enfoque geográfico e como a noção de representações sociais me levou a superar impasses.

O potencial das representações sociais para os estudos interdisciplinares

A relação entre a Geografia e Psicologia vem de longa data e vou fazer referência apenas a poucos geógrafos e escolas para contextualizar o psicológico na área geográfica. Desde a fundação da ciência, no século XIX, os processos psicológicos eram abordados dentro do grande paradigma da relação entre a natureza e a sociedade. Para Carl Ritter (apud Morais, 1989, p. 188), o meio natural condicionava o desenvolvimento da personalidade dos povos. Friedrich Ratzel (apud Morais, 1989), no mesmo século XIX, menciona diretamente as questões psicológicas. Para Ratzel, a natureza exerce influência sobre a psicologia individual e, depois, sobre a coletiva. Ou, segundo as palavras de Morais (1989):

Uma influência que se exerce sobre os indivíduos e produz nestes uma modificação profunda e duradoura; primeiramente, ela age sobre o corpo e sobre o espírito do indivíduo e é por sua natureza fisiológica e psicológica; e só mais tarde passa assim ao âmbito da história e da geografia, isto é, quando se estende a povos inteiros. (p. 59)

O coletivo se sobrepõe ao individual pelo peso da quantidade, pois se a natureza exerce influência sobre os povos e os indivíduos, “ela afeta mais os povos que os indivíduos”, visto que “são massas que estão em cena e cuja personalidade é mais marcada” (Morais, 1989, p. 190).

Em meados do século passado ou, mais precisamente, em 1954, Max Sorre utiliza a expressão Geografia Psicológica no artigo em que examinava “as correlações entre o meio e as funções mentais do indivíduo” (apud Megale, 1984, p. 31).

No momento atual da ciência geográfica, a área da Geografia da Percepção e da Geografia Cultural abordam percepção, identidade, representações, imagens, dimensão simbólica, ou seja, os processos psíquicos de instauração de sentido da realidade. Trabalha-se com estruturas psicológicas complexas, suas durações e transformações, tanto no espaço quanto no tempo.

Milton Santos (1997), um dos geógrafos mais conhecidos do país, em seu livro intitulado A natureza do espaço. Técnica e tempo. Razão e emoção, por exemplo, elabora o conceito de espaço com teorizações de psicólogos ambientais, como Abraham Moles e Elizabeth Rohmer. Santos apresenta dois conceitos muito interessantes e importantes para trabalhar com processos psicológicos/sociais/espaciais, o par tecnosfera/psicosfera. Tecnosfera é “o meio técnico-científico-informacional, que requalifica os espaços para atender aos interesses hegemônicos” (p.191) e a psicosfera, “o reino das idéias, crenças, paixões e lugar da produção de sentido” (p. 204), que sustenta a tecnosfera. Têm-se aqui, a idéia de pares dialéticos: a tecnosfera produz os insumos materiais para que a psicosfera os transforme em conteúdos da mente e a sustente.

Dessa maneira, verifica-se que, para a Geografia, ambiente, processos psicológicos e sujeito são temas conhecidos. Entretanto, nas palavras de Bailly (1979), geógrafo que busca o “individualismo humano”, a Geografia “passou diretamente à análise das organizações e das causalidades” e preocupou-se mais com os fenômenos coletivos do que com a “explicação das percepções, das atitudes e dos comportamentos dos indivíduos” (p. 19). Ou seja, firmou-se a preeminência do coletivo sobre o individual, como se vinha gestando desde Ratzel.

Na Geografia, o espaço, então, é teorizado como produto de processos econômicos, sociais e culturais, nos quais os atores dos processos psíquicos são as coletividades e não os indivíduos. Disse, numa palestra em que tratei do tema, que o sujeito, em Geografia, está aprisionado nos grandes números e nas diversas escalas espaciais.

Não se trata de preeminência do objeto sobre o sujeito, mas de uma forma de socialização científica, na qual se priorizam os processos coletivos e não os processos individuais e a ênfase está no geral e não no particular. Nesse sentido, há grande dificuldade em compreender o papel do outro enquanto outro sujeito no estabelecimento das diferenças, pois são as formas espaciais e seus conteúdos – grupos e/ou classes sociais, que funcionam como o outro, em vez de indivíduos.

Entretanto, o que estava procurando era o sujeito, era reconhecer o respondente em meio aos grandes números e vê-lo em sua individualidade, sem, entretanto, perder de vista os processos sociais mais amplos.

Dessa maneira, encontrei na noção de representações sociais a interdisciplinaridade que buscava, o link com a Psicologia e com a Psicologia Ambiental. No momento em que, como escreve Moscovici (1978), as representações sociais se encontram na encruzilhada entre o indivíduo e a sociedade e Jodelet (1985) desenvolve a idéia de que a sociedade fala, mas o indivíduo emite o discurso, permite-se pensar o subjetivo/ individual e voltar ao campo do geral e do objetivo, num movimento dialético muito produtivo.

No entanto, além da teoria, as representações sociais proporcionam também um método de trabalho e de pesquisa, que pode ser implementado em temas diversificados de ambas as áreas. A ancoragem permite trabalhar a historicidade do espaço, suas formas e seus conteúdos, e a objetivação, classificar, recortar e compreender a descontextualização dos discursos e ideologias.

No tópico seguinte, mostrarei como tema e conceito, reunidos nas representações sociais da casa própria, permitem um trabalho interdisciplinar, formando um conjunto explicativo dos processos psíquicos e espaciais urbanos, no qual se articulam teoricamente a Geografia e a Psicologia Ambiental.

Representações sociais, indivíduos e espaço/ambiente

A pesquisa na cidade-satélite do Distrito Federal realizou-se em 1995, uns seis anos depois de iniciado o processo de remoção. Nesse período, Samambaia havia se estruturado como espaço urbano, apesar da descontinuidade na ocupação da terra. Se na maior parte da cidade permanecia a mesma miséria, ruas esburacadas e esgoto a céu aberto, em outras notava-se alguma prosperidade. A água jorrava das torneiras, as casas estavam ligadas à energia elétrica, o asfalto cobria as avenidas principais rasgadas em meio ao barro, o esgoto era anunciado para logo. Grandes sobrados se intercalavam às modestas casas de alvenaria ou de madeira, muitas, inclusive, bastante precárias, os tão conhecidos “barracos”. A renovação dos moradores se fazia rapidamente com a venda ou aluguel das propriedades. Na vida cotidiana que se organizava, as pessoas organizavam suas vidas e racionalizavam as condições de sua existência e moradia no espaço da cidade, criando um ambiente particularmente propício à pesquisa da relação objetividade/subjetividade.

Os seis anos que decorreram desde a remoção até a pesquisa, entretanto, não haviam ainda apagado da memória o período das invasões ou das casas alugadas que consumiam mais da metade dos parcos salários. Moradores novos e antigos, com diversos níveis de renda, intercalavam-se nas quadras de Samambaia. Alguns já se encontravam na cidade-satélite antes da remoção e residiam em casas de cooperativas e conjuntos habitacionais de renda média baixa; outros chegaram depois, comprando casas no assentamento e nos conjuntos habitacionais; outros, enfim, eram inquilinos, ou mesmo invasores. Em resumo, tratava-se de uma cidade complexa, com moradores de várias origens e níveis sociais, cuja característica comum consistia na existência de um histórico de falta de habitação em algum momento de suas vidas ou da de seus pais.

Para estudar as representações sociais, partiu-se do princípio de que o pensamento dos moradores a respeito de sua casa não deixa de ser, como as representações sociais, uma realidade mental. Ao mesmo tempo, a casa é uma realidade concreta, material e social, localizada, monetarizada e fetichizada. É nessa encruzilhada em que um objeto tanto é uma realidade mental como uma realidade social e espacial que se forma o ambiente propício para que os moradores elaborem suas representações sociais (Peluso, 1998).

A hipótese que norteou o trabalho ressalta que as relações indivíduo-ambiente urbano podem ser compreendidas pelas representações sociais da casa própria, objeto histórico construído pelo modo de produção capitalista e sua maneira de pensar, que transformaram a terra urbana em mercadoria e instituíram um sujeito sem acesso a ela, na tensão entre o valor de uso e o valor de troca.

Para desvendar as representações sociais, entrevistaram-se 45 sujeitos, na cidade-satélite periférica e pobre de Samambaia, Distrito Federal. No questionário que norteou as entrevistas, procurou-se captar o olhar do morador sobre sua casa, entrando nos códigos de possessão do objeto, do fácil/difícil, do conseguido, do doado e do comprado. Uma análise de discurso permitiu identificar os vários códigos com os quais os sujeitos construíram suas representações sociais.

O primeiro código das representações sociais e o mais importante, pois dele derivam a relação dos sujeitos entre si e com o espaço urbano, mostra que os moradores, ao adotarem o modo capitalista de pensar sobre a forma e o conteúdo da “casa” e os processos que a atravessam, reconhecem a si mesmos e aos outros sujeitos segundo as várias categorias do habitar: proprietário, inquilino ou invasor. Valorizam as condições de proprietário, ao mesmo tempo que estigmatizam e atribuem baixo status às outras condições.

Em outro núcleo, a residência transcendia sua materialidade de objeto e impunha toda uma série de concepções sobre o morar e a cidade. Os discursos remetiam a uma realidade psíquica construída sobre vivências geradas a partir da casa própria e da grande metamorfose de não-proprietários em proprietários. O mito da casa própria, que transforma objetiva e subjetivamente o indivíduo, acoplado à propriedade privada, esse elemento crucial das relações sociais capitalistas, mostrava-se como fetiche, reificado nas falas dos moradores de Samambaia.

As falas sugeriam que os devaneios e a construção do Eu derivavam da casa, objeto que adquiria a condição do Outro. Os moradores percebiam o espaço da cidade por meio de sua situação na casa, sentiam a constante necessidade de reafirmar a propriedade da moradia. Em resumo, a casa própria era “a realização de um sonho”, a possibilidade de “futuro”, de “segurança”, de ter “planos”. A casa própria era o sujeito e falava o morador.

Essas objetivações eram comuns a todos, não importava sua condição monetária ou social. Em alguns grupos, porém, as representações sociais da moradia ancoravam-se em condições de vida anteriores e presentes muito adversas e empobrecidas (trabalhadores braçais, biscateiros e desempregados), enquanto em outros se ancoravam na ascensão de grupos que já estavam emergindo para uma pequena classe média (funcionários públicos e privados, pequenos empresários). Para eles, a casa criava as relações de diversidade, similaridade e assimetrias que permitiam construir um diálogo entre o sujeito e o mundo, que Bachelard (1988, p. 139), denomina de dialética do interno e do externo e dialética da casa e do mundo. Na dialética casa-Eu/casa-mundo, estabelece-se a identidade do morador segundo a casa que habita e ela se torna um “símbolo do Eu” e um território valorizado emocionalmente. Configura-se, então toda uma problemática que não está centrada nas quatro paredes do objeto “habitação”, mas na subjetividade do morar e suas relações com a sociedade, materializadas no espaço urbano. Cria-se a tensão entre dois espaços, articulados e contraditórios: os pequenos espaços individualmente significativos e os macro-espaços socialmente construídos. É aí que sujeito e mundo se constituem num espaço simbólico de relações de oposição, afirmação e negação, que se projeta sobre relações sociais mais amplas, em que o sujeito se posiciona frente a si mesmo, ao mundo e aos outros que o habitam.

Representações sociais e os questionamentos de pesquisa

As questões que havia colocado em minhas pesquisas com populações de baixa renda foram sendo transformadas em prática científica interdisciplinar. Pode-se dizer que reconheci o indivíduo nos processos sociais mais amplos, interpelei-o e obtive respostas, que delinearam um campo de pesquisa, inclusive para ser utilizado em outros temas.

A análise da polissemia dos discursos, de suas ambigüidades e de suas rupturas apontaram em muitas direções, das quais, vou me deter em duas neste trabalho. A primeira diz respeito a uma das questões que me havia surpreendido nas pesquisas anteriores – a sujeição do indivíduo ao sistema. A outra, que foi surgindo à medida que analisava os discursos, apontava para o desafio à ordem instituída que essa mesma sujeição ao sistema camuflava. Ambas dizem respeito à propriedade privada, da qual a moradia é o símbolo.

Numa sociedade fundada sobre a propriedade privada, esta se encontra no cerne de uma identidade positiva. Canevacci (1981, p. 9) com muita argúcia, escreve que, somente a partir da Renascença, com o desenvolvimento urbano, o indivíduo toma consciência de si em relação a outro indivíduo pela mediação da propriedade privada.

É uma dialética da exclusão. Os que possuem propriedade instituem-se como indivíduos, sujeitos da enunciação, como aqueles que falam, enquanto os outros, são instituídos como “não sujeitos”. Dessa maneira, a propriedade ou a falta dela torna-se elemento estruturador de identidades positivas e negativas, que leva a discriminações e estigmatizações pelo acesso à terra.

Ser um “não-sujeito”, fazer parte de um grupo inferior e o sentimento de ser inferiorizado mostra-se nas falas dos inquilinos, mas ser um não-sujeito e morar num não-lugar é o que perpassa, com mais intensidade, a visão do morador da invasão. A invasão é o “não-lugar” (Augé, 1992) fugidio e não-identitário, contraponto empobrecido das “grandes superfícies de circulação, das máquinas automáticas e dos cartões de crédito” (p. 73-74. Ser, ou ter sido, invasor é coisa que adere ao indivíduo e uma condição de existência que o acompanha, mesmo depois de ter sua própria casa. Somente o proprietário não maculado pela invasão ou pelas más condições de vida anteriores é valorizado, somente ele vive uma condição superior que lhe permite uma relação Eu-mundo positiva.

As relações assim construídas fazem refletir, inicialmente, sobre o papel mistificador das representações sociais na permanência das desigualdades e injustiças sociais. Considerei que as funções normativas e prescritivas das representações sociais modelam as pessoas, os objetos e os acontecimentos de tal maneira que as contradições econômicas e sociais que produziram a falta de moradia, o proprietário, o inquilino, o favelado, o problema habitacional e suas soluções são tornadas concretas por intermédio de relações interpessoais que têm o poder de esconder as mesmas contradições. As ideologias dominantes, que alimentam as representações sociais, internalizadas pelo sujeito, fazem com que corporifiquem as contradições na esfera do indivíduo, sem que ocorra sua projeção para a esfera social. Assim, cada um é responsável pelo que lhe acontece e recriam-se os sujeitos de identidade deteriorada entre os moradores da periferia, com a mesma culpabilização e segregação das imagens hegemônicas.

As ideologias e as imagens não são criticadas ou superadas e o equilíbrio emocional do sujeito que procura escapar da estigmatização só é conseguida por meio de racionalizações que escondem sua origem social ou pela aceitação da impotência frente aos fatos e poderosos, gerando novos conflitos pessoais e sócio-espaciais. Dessa maneira, as relações sociais são coisificadas e o sujeito apreende a ordem estabelecida como governada por leis impessoais nas quais ele se insere voluntariamente e a naturalização ocorre por meio de afetos, estigmatizações e depreciações. O indivíduo aceita as condições de sua existência porque se sente redimido pela casa própria e porque sempre pode estigmatizar outro sujeito ou penalizar-se dele, mantendo-se a salvo de sanções sociais. Essa é a face perversa da dialética casa-Eu e casa/Eu-Outro.

Na esfera individual, o poder internalizado junto com o desamparo encontra continuação no domínio sob a jurisdição do sujeito. Os pequenos poderes que o indivíduo exerce em sua casa mostram o quanto ele sedimentou subjetivamente o universo de significações construído socialmente e que reforçam o poder social. O sujeito sente-se desamparado frente ao mundo, mas em sua casa é poderoso. Sente-se com poder de decidir, de planejar, de construir, de desejar ou de sonhar e isso torna-o cúmplice das instâncias superiores que permitiram a instauração dos pequenos poderes, dos pequenos sonhos e das pequenas superações do desamparo. O sujeito não percebe as relações sociais que se encontram por detrás do poder pela própria dinâmica da internalização dos conteúdos sociais com que categoriza e classifica os indivíduos e a cidade. Esse é o jogo invisível da reprodução das relações sociais do poder por meio das representações sociais. Nesse sentido, o indivíduo é assujeitado pelo sistema.

Mas há um outro aspecto em que as representações sociais têm um papel desafiador da ordem instituída. Internalizadas as ideologias sobre a casa própria, o indivíduo sente o mesmo desejo de possuí-la e pelos motivos de prestígio, auto-estima e status de toda a sociedade, segundo a qual cada um só pode ver e ser visto por meio da propriedade privada. No coletivo das respostas ouvidas em Samamabaia, percebe-se como funciona esse processo e as possibilidades das representações sociais como um desafio à ordem espacial instituída.

Os pobres querem a moradia como forma de se tornarem sujeitos e se inserirem no mundo urbano, como forma de superarem a exclusão a que sempre foram submetidos. Diria mesmo que é na apropriação dos valores hegemônicos que reside o poder das representações sociais de desafiar a ordem dominante. A insurgência mostra-se na submissão ao sistema capitalista internalizado. O sujeito age tendo em vista sua auto-conservação e, assim, não é mero reprodutor de discursos e práticas dominantes, mas um produtor de discursos e práticas, racional e capaz de uma razão pragmática, como a de reivindicar aquilo que lhe é negado.

Assim, o indivíduo excluído retoma o controle sobre seu destino urbano e se torna sujeito de sua história, por meio da propriedade privada que, em princípio, nega-o e ao seu carecimento e cujo jogo ele aprendeu a jogar. Fecha-se, assim, a dialética entre as condições objetivas e as subjetivas e as cidades se modificam para aceitar aqueles que deviam estar fora. Essa é gênese dos vários tipos de habitats irregulares, como favelas, invasões, loteamentos clandestinos, que se recusam a ser erradicados e que passam a ser, aos poucos, urbanizados e aceitos.

Após haver mostrado como fui respondendo a meus questionamentos de pesquisa de maneira interdisciplinar, levantarei, no tópico seguinte, perspectivas de trabalhos interdisciplinares, e quais as possibilidades de formar um conjunto explicativo dos processos psíquicos e espaciais urbanos, no qual se articulam teoricamente a Geografia e a Psicologia Ambiental.

Conclusão: uma agenda de trabalho multidisciplinar.

Quando as várias disciplinas se emanciparam da filosofia, mais precisamente no século XIX, procuraram marcar seu campo científico com discursos diferenciados e estanques sobre a realidade. A importância do objeto de conhecimento e do método de pesquisa foi discutido acirradamente e paradigmas, muitas vezes dogmáticos ou quase isso, nortearam o pensamento acadêmico e não acadêmico, com a idéia de estabelecer fronteiras de competências e de saberes.

As discussões, entretanto, continuam até hoje, sem que se tenham estabelecidos consensos definitivos ou limites precisos. Se unanimidades são obtidas durante certo tempo ou em alguns momentos, logo novas discussões se iniciam, pois a pesquisa vai mostrando novos problemas, porque, como já foi mencionado, o mundo não se mantém o mesmo e a prática acadêmica e científica deve dar respostas para a sociedade. Assim, objetos e paradigmas científicos não são pontos pacíficos, mas são reconstruídos teórica e metodologicamente com surpreendente regularidade.

Dessa maneira, possível agenda interdisciplinar talvez se encontre em dois pressupostos. O primeiro é de que as fronteiras entre as ciência são tênues, pois são construções sociais e não fenômenos naturais; o segundo é que para ultrapassar as fronteiras deve-se romper com a compartimentação entre os saberes e articular pensamento e práticas sobre a realidade do mundo em que vivemos e das pessoas que os habitam, pois são eles, com sua complexidade e dinamismo, os verdadeiros objetos científicos. Reconhecendo as especificidades de cada área, pode-se estabelecer um núcleo comum de produção de conhecimento, no qual a preocupação maior serão os problemas socialmente relevantes a serem levantados e as respostas dadas coletivamente.

 

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Recebido em 21.jan.03
Revisado em 28.abr.03
Aceito em 19.mai.03

 

 

Marília Luiza Peluso, doutora em Psicologia Social, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é professora adjunta no Departamento de Geografia, Instituto de Ciências Humanas, Universidade de Brasília. Endereço para correspondência: SQN 206, Bloco F, Apto. 502; CEP 70844-060; Brasília, DF. Telefax: (61) 274-7607. E-mail: marilialp@cabonet.com.br

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-294X2003000200014&lng=en&nrm=iso





Antes tarde do que nunca…

13 09 2009

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  Sempre é tempo para transformar a vida e continuar a criar…

  Só é preciso uma mente disposta e determinada…

 Fonte: Revista Vida Simples – Maio de 2004.

Por: Eugênio Mussak.

Costumamos ouvir a expressão “antes tarde do que nunca” em duas circunstâncias diferentes. A primeira, mais freqüente, ocorre quando alguém se atrasa com um compromisso e finalmente cumpre com o esperado. Nesse caso, pronunciamos a frase com uma conotação que mistura uma sensação de alívio com uma censura irônica. Algo como: “Ufa! Antes tarde do que nunca. Mas, da próxima vez, vê se não demora tanto”. A ênfase vai para a palavra “tarde”, e os olhos de quem a pronuncia abrem-se em uma reprovação esbugalhada.

 Quando isso acontece, o que está em discussão é o comportamento reprovável de não ter respeito pelo tempo dos outros, ou ainda o de cultivar o hábito de deixar tudo para a última hora e acabar se atrasando. É claro que todo mundo já se atrasou ou demorou para concluir um trabalho, mas para algumas pessoas isso já virou rotina. Dessa forma, dificilmente alguém construirá uma imagem de cidadão responsável.

A segunda maneira de usarmos a famosa frase é melhor, mais alegre e até edificante. Ocorre quando uma pessoa faz algo para o qual estaria muito velha para fazer, pelos padrões convencionais. Nesse caso pronunciamos a frase com ênfase no “nunca”. O tom é outro. A expressão facial também. Há um meio sorriso desenhado nos lábios, ao mesmo tempo em que os olhos se fecham ligeiramente, como se a pessoa quisesse olhar para dentro de si mesma.

 Eu mesmo já falei várias vezes essa frase, ainda que por meio de variações do tipo: “Puxa, que bom, sempre é melhor fazer tarde do que não fazer nunca!”. Lembro-me, por exemplo, de meu velho amigo Sady. Ele era formado em farmácia e, até os anos 60, os farmacêuticos eram autorizados a conduzir a anestesia dos pacientes durante as cirurgias, pois não havia número suficiente de médicos anestesistas.

Só que, de um dia para o outro, os farmacêuticos foram proibidos de aplicar anestésicos durante cirurgias e o Sady perdeu sua profissão. O que poderia ele fazer, considerando que já tinha passado dos 60 anos, o que, na época, dava-lhe status de “idoso”? Que tal uma aposentadoriazinha? Para muitos seria a saída lógica. Mas não para o Sady. Sua opção: estudar medicina.

 O tempo, a gente faz…

Tive a sorte de ser colega do Sady. Ele não tinha a mesma facilidade para acompanhar as aulas, principalmente porque vinha todos os dias de ônibus desde sua cidade no Paraná, Ponta Grossa, para estudar em Curitiba, viajando cerca de 200 quilômetros diariamente. Mas, durante todos os anos de convivência, nunca o escutamos queixar-se das dificuldades, da viagem, do governo, da sorte. Nada disso. Ele não era homem dado a queixas e sim a superações.

Quando cursamos a disciplina de técnica operatória, que incluía muitas cirurgias realizadas em animais, principalmente em cães, quem era o anestesista? O Sady, é claro. Ele anestesiava com arte e com um indisfarçável orgulho. E quer saber? Ele era muito bom no que fazia. Enquanto outros animais muitas vezes morriam, não por causa da cirurgia, mas por causa dos erros anestésicos, aqueles atendidos pelo experiente anestesista nunca tiveram nenhum problema.

 Penso em meu colega toda vez que ouço alguém se queixar de que já está muito velho para um novo empreendimento, para voltar a estudar, para uma viagem longa, para mais um casamento, para ter um filho, ou para qualquer tipo de iniciativa que exija a tal “juventude”, como se isso fosse uma espécie de qualificação profissional e não o que realmente é: um estado de espírito. Conheço maravilhosos “jovens” de 70 anos que continuam a produzir e amarrotados “velhos” de 30, sem disposição para nada.

 Pois é, mas o “antes tarde do que nunca” não se aplica apenas a pessoas mais velhas, mas também àquelas que fazem coisas que são consideradas pela sociedade “fora do seu tempo”: uma mulher que tem filhos depois dos 40 anos não é velha, mas ter filho nessa idade é considerado “fora do tempo ideal”. Da mesma forma que fazer escola de circo aos 40 anos, ou um curso de dança com 50, ou resolver mudar de profissão quando se está no auge da carreira, ou fazer vestibular junto com seu filho mais novo.

Somos o que pensamos…

Na realidade, tudo depende do modo como cada pessoa encara a vida. Ou seja, depende de uma postura, uma atitude. E a atitude começa na cabeça. Há gente que se considera velha, e há gente que parece estar sempre recomeçando, o que absolutamente não significa negar o que já foi feito. Portanto, depende da percepção que a pessoa tem de si mesma.

Perceber significa “apoderar-se de uma imagem”, “aprender pelos sentidos”. E os sentidos variam muito entre os indivíduos. Duas pessoas olham para uma dificuldade. Uma vê um problema; a outra, uma oportunidade. Duas pessoas de mesma idade olham para si mesmas. Uma vê um jovem, a outra vê um velho. E, na maioria das vezes, a diferença está apenas na maneira de ver a si mesmo.

Há um capítulo do estudo da mente humana chamado “psicologia da consciência”. Quem lhe deu início foi o médico americano William James (1842-1910), que, antes de estudar medicina, tentou ser um explorador da natureza, tendo estado inclusive na Amazônia. Depois dessa viagem, declarou que se sentia mais estimulado pelos mistérios do espírito humano do que pelas florestas tropicais.

 De acordo com James, “todo pensamento tende a ser parte de uma consciência pessoal”, o que significa que o raciocínio deriva das experiências e das percepções próprias de cada indivíduo. Inclusive as experiências e percepções sobre si mesmo, o que coloca o indivíduo fora de si, como se fosse um agente externo. E esse agente pode estar “envelhecido” e “derrotado” pelas experiências e pelos estímulos recebidos durante a vida. Ou o contrário disso.

Mas ele também afirmou que, “dentro de cada consciência pessoal, o pensamento está sempre se transformando”. Boa notícia. Isso quer dizer que podemos ver o mesmo objeto, ouvir o mesmo som, saborear a mesma comida, e nossa consciência dessas percepções pode mudar a cada vez. Ou seja, cada um de nós pode aprimorar a maneira como se percebe, e isso está na dependência de sua própria vontade. E, claro, das atitudes que decorram dessa vontade. Assim, você estará “fora do tempo” apenas quando decidir.

Disposição para recriar…

Tem gente que organiza seus pensamentos a partir de uma consciência construída sobre bases saudáveis e sempre positivas. Meu amigo Carlos Júlio, bem-sucedido executivo que consegue associar uma grande competência nos negócios com uma contagiante alegria de viver, relata uma experiência que diz muito sobre isso. Esteve recentemente visitando o escritor Peter Drucker, autor de obras clássicas sobre a dinâmica corporativa das empresas, em sua casa, na Califórnia, Estados Unidos.

Ele conta que, no meio da conversa, o velho mestre disse que havia parado de dar aulas há 16 anos. No entanto, logo depois comunicou que teria que se retirar, pois precisava preparar uma aula que daria no dia seguinte pela manhã. Ao ser indagado sobre a contradição, Drucker explicou: ele tinha parado de dar aulas de administração de empresas, mas agora estava lecionando arte oriental.

Havia se apaixonado pelo tema há apenas cinco anos, mas, para ele, tempo suficiente para se transformar em uma autoridade, a ponto de virar professor. E o melhor: relatou ao atônito brasileiro que, quando ele tinha 20 anos (hoje está com 95), tomou a decisão de dedicar-se a estudar em profundidade um tema a cada cinco anos. Passados 70 anos, ele domina muito bem pelo menos 15 assuntos, além daqueles ligados à sua profissão de administrador. O último tema, arte oriental, começou a estudar com afinco aos quase 90 anos. Tarde? Pois se não fosse agora, seria nunca! O que é melhor?

 Ser inteiro em cada ação…

A História está repleta de figuras que realizaram grandes feitos em idades avançadas, pois tiveram a capacidade de perceber que não há limites para a determinação. Para elas, nunca é tarde, pois quem acha que é tarde acaba não fazendo nunca.

O compositor italiano Giuseppe Verdi escreveu sua obra-prima, a ópera Falstaff, aos 80 anos, e ainda continuou escrevendo depois. O artista italiano Michelangelo aceitou a encomenda de pintar o interior da Capela Sistina aos 63 anos de idade. O filósofo grego Platão deu aulas em sua academia já octogenário. O ator e diretor inglês Charles Chaplin dirigiu o filme A Condessa de Hong Kong aos 78. E o arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer já está com 96 anos e continua debruçado na sua prancheta em Copacabana, produzindo maravilhas em concreto e vidro.

 Há esses heróis que são eternos por suas obras e por suas atitudes perante a vida. E há também os heróis do cotidiano. Todos conhecemos alguém, uma pessoa comum, ou aparentemente comum, que não passará à posteridade pela literatura, mas que cumpre a missão maior de dar o exemplo de uma vida digna. Que tiveram coragem de buscar a felicidade em uma nova atividade, que não deixaram de arriscar novos rumos, independentemente da idade e do tempo.

O poeta português Fernando Pessoa, assinando em seu nome, ou no nome de um de seus inúmeros heterônimos, escreveu sobre as várias facetas da alma humana. Produziu muito sobre aqueles que cruzam a vida sem sonhos e que, por medo de errar, simplesmente deixam de fazer e de viver. Neste trecho de um poema, ele parece dar um conselho àqueles que se acham pequenos e pensam que já é tarde:

 Para ser grande, sê inteiro

 Nada teu exagera ou exclui

 Sê todo em cada coisa

 Põe quanto és no mínimo que fazes

 Em cada lago a lua toda brilha

 Porque alta vive…

 Afinal, em qual dos dois sentidos você quer ouvir a frase “antes tarde do que nunca”? No sentido de viver correndo atrás do tempo e fazendo as coisas tarde demais, desrespeitando as pessoas ao redor? Ou com o outro significado, de continuar fazendo coisas, desprezando o conceito do tarde e colocando energia para mostrar que o nunca é um tempo que não existe de verdade? A escolha é só sua.

 

Eugênio Mussak é biólogo e educador, consultor na área de desenvolvimento humano, autor e conferencista. www.eugeniomussak.com.br





O que está nos deixando doentes é uma epidemia de diagnósticos

4 09 2009

 

j0178789

CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DE SÃO PAULO
http://www.cremesp. org.br/?siteAcao =Jornal&id= 954

* Gilbert Welch é autor da obra Should I Be Tested for Cancer? Maybe Not and Here’s Why (University of California Press). Lisa Schwartz e Steven Woloshinsão pesquisadores sêniores do VA Outcome Group em White River Junction.

Este artigo foi publicado no jornal The New York Times, em 02/01/2007.
Tradução: Daniel de Menezes Pereira.

Para a maioria dos americanos, a principal ameaça à saúde não é a gripe aviária, a febre do Nilo ou o mal da vaca louca. Mas sim o próprio sistema de saúde. Você pode pensar que isso é porque os médicos cometem erros (sim, nós erramos). Mas você jamais será vítima de um erro médico se você não está no sistema. A maior ameaça apresentada pela medicina americana é o fato de cada vez mais estarmos nos afundando nesse sistema, não por uma epidemia de doenças, e sim por uma epidemia de diagnósticos. Apesar de os americanos viverem mais do que nunca, cada vez mais nos falam que estamos doentes. Como isso é possível? Um dos motivos é que nós (americanos) empregamos mais recursos aos cuidados médicos que qualquer outro país. Parte deste investimento é produtivo, cura doenças e alivia sofrimentos. Mas isso também nos conduz a cada vez mais diagnósticos, uma tendência que se transformou em epidemia.

Essa epidemia é uma ameaça à saúde e tem duas fontes distintas. Uma delas é a ‘medicalização’ da vida cotidiana. A maioria de nós passa por sensações físicas ou psicológicas desagradáveis que, no passado, eram consideradas
como parte da vida. No entanto, hoje tais sensações são consideradas, cada vez mais, como sintomas de doenças. Eventos como insônia, tristeza, inquietação de pernas e diminuição do apetite sexual, hoje, se transformam
em diagnósticos: distúrbio do sono, depressão, síndrome de pernas inquietas e disfunção sexual. Talvez ainda mais preocupante seja a medicalização da infância. Se uma criança tossir depois de fazer exercícios, ela tem asma. Se tiver problemas com leitura, é disléxica. Se estiver infeliz, tem depressão. Se alternar entre euforia e tristeza, tem distúrbio bipolar. Se por um lado esses diagnósticos podem beneficiar algumas pessoas com sintomas graves, por outro é necessário ponderar o real efeito de tais sintomas, que em muitos casos são brandos, intermitentes ou transitórios.

Outra fonte é o empenho por descobrir doenças o quanto antes. Diagnósticos eram usualmente restritos a moléstias graves. Hoje, no entanto, nós diagnosticamos doenças em pessoas que absolutamente não apresentam sintomas,
os famosos ‘grupos de risco’ e as pessoas com ‘predisposição’ . Dois progressos aceleram esse processo. Em primeiro lugar, a avançada tecnologia permite que os médicos olhem profundamente para as coisas que estão erradas. Nós podemos detectar marcadores no sangue. Nós podemos direcionar aparelhos de fibra ótica dentro de qualquer orifício. Além disso, tomografias computadorizadas, ultrassonografia, ressonâncias magnéticas e tomografias por emissão de pósitrons permitem que os médicos exponham, com precisão, tênues defeitos estruturais do organismo.

Essas tecnologias tornam possíveis quaisquer diagnósticos em qualquer pessoa: artrite em pessoas sem dores nas juntas, úlcera em pessoas sem dores no estômago e câncer de próstata em milhões de pessoas que, não fosse pelos
exames, viveriam da mesma forma e sem serem consideradas pacientes com câncer. Em segundo lugar, as regras estão mudando. Conselhos de especialistas, constantemente, expandem os conceitos de doenças: todos os valores de
referência para o diagnóstico de diabete, hipertensão, osteoporose e obesidade caíram nos últimos anos. O critério utilizado para considerar o nível de colesterol normal despencou múltiplas vezes. Com estas mudanças, doenças agora são diagnosticadas em mais da metade da população. A maioria de nós acredita que estes diagnósticos adicionais sempre beneficiam os pacientes. E alguns, de fato, são benéficos. Mas, por fim, a lógica das detecções antecipadas é absurda. Se mais da metade de nós está doente, o que significa estar ‘normal’? Muitos de nós estamos predispostos – e em algum dia podemos ficar doentes – e todos nós somos dos ‘grupos de risco’. A medicalização na vida cotidiana é muito problemática. O que, exatamente, estamos fazendo com nossas crianças, uma vez que 40% das que vão acampar estão sujeitas a uma ou mais prescrições crônicas de medicamentos?

Ninguém deveria adotar a conduta de transformar pessoas em pacientes, ainda que sem gravidade. Isto gera grandes prejuízos. O fato de rotular pessoas como doentes pode deixá-las ansiosas e vulneráveis, em especial as crianças.

Mas o principal problema é que a epidemia de diagnósticos conduz a uma epidemia de tratamentos. Nem todos os tratamentos têm reais benefícios, mas quase todos podem ter prejuízos. Algumas vezes os prejuízos são conhecidos,
no entanto, freqüentemente os prejuízos de algumas terapias levam anos para serem descobertos, após muitas pessoas já terem sido expostas aosmalefícios.

Para pacientes com doenças severas, estes malefícios, geralmente, perdem a importância diante dos potenciais benefícios. Mas para pacientes com sintomas mais brandos os malefícios são muito mais relevantes. Além disso,
para pacientes rotulados como ‘predispostos’ ou de ‘grupos de risco’ que estão destinados a permanecer saudáveis, o tratamento só pode causar prejuízos.

A epidemia de diagnósticos tem muitas causas. Mais diagnósticos significa mais dinheiro para a indústria farmacêutica, hospitais, médicos e advogados. Pesquisadores e até mesmo organizações federais de medicina asseguram suas posições (e financiamentos) promovendo a descoberta de ’suas’ doenças. Preocupações médico-legais também conduzem à epidemia. Se por um lado uma falha no diagnóstico pode ser objeto de uma ação judicial, por outro não existe qualquer punição para diagnósticos exacerbados. Além disso, o que os clínicos menos têm dificuldade de fazer é diagnosticar desenfreadamente, mesmo quando existem dúvidas de se diagnosticar, ou não, realmente vai ajudar nossos pacientes.

Desta forma, quanto mais nos falam que estamos doentes, menos nos dizem que estamos bem. As pessoas precisam ponderar sobre os riscos e benefícios da ampliação de diagnósticos. A questão principal a ser enfrentada é sobre ser
ou não um paciente. E os médicos precisam relembrar do valor que tem ou não um paciente. E os médicos precisam relembrar do valor que tem assegurar a uma pessoa que ela não está doente. Talvez se devesse começar a estudar uma
nova medida de saúde: a proporção da população que não precisa de cuidados médicos. E as instituições nacionais de saúde poderiam propor uma nova meta para os pesquisadores: reduzir a demanda de serviços médicos, ao invés de
aumentá-la.