Coragem. Essa é uma das palavras mais ditas de uma mãe para outra. Ainda que a dupla missão seja difícil, enfrentar as mudanças para viver a alegria da maternidade é a opção de muitas. Mas ao contrário das gerações passadas, em que a mulher tinha como papel principal ser mãe e dona-de-casa, hoje em dia, cada vez mais, a gravidez é uma escolha que vem depois do sucesso da carreira, da casa própria e do MBA. O “eu profissional” é anterior ao “eu mãe” e até ao “eu esposa”.
A redistribuição desses papéis, com a chegada da maternidade dá início aos dilema feminino. Iniciar a carreira após o nascimento dos filhos é muito difícil e pouco freqüente. Só 6% das mulheres começaram a trabalhar após a chegada dos filhos. Muitas delas tiveram filhos cedo e cursaram a faculdade durante ou depois da maternidade. A opção de começar a trabalhar com os filhos já crescidos é das mais raras e funciona melhor quando a pessoa é empreendedora, autônoma, abre negócio próprio ou vai trabalhar em empresa de familiares. O mercado corporativo atualmente é muito rigoroso e até preconceituoso, principalmente se considerarmos um currículo de mulher com filhos e sem experiência profissional. Furar a barreira de um avaliador, essa sim, é uma missão quase impossível.
Ter filhos nos dias de hoje é um anseio genuíno ou apenas fruto de pressão social. Ser mãe é um compromisso que exige muito esforço, paciência, persistência e dedicação, entre outros predicados. Quem prioriza a vida pessoal acima de tudo, dificilmente abre espaço para um filho ou acaba adiando a maternidade. Quem valoriza muito a carreira espera cada vez mais por um momento “certo” para ter filhos. Quanto maior a responsabilidade na empresa, mais a pausa pode abalar a vida profissional – ou não. Tudo depende da disposição, da tranqüilidade em relação ao próprio potencial. Mas será possível descobrir a hora apropriada para se ter filhos? Como tudo na vida, até mesmo a escolha do marido me parece muito mais uma aposta, um investimento, uma intuição, do que uma certeza. Depende do que a pessoa está valorizando naquele momento e se tem a preocupação de não deixar passar o período fértil. A fase reprodutiva da mulher é limitada e muito menos extensa do que a masculina. A idade para conceber muitas vezes não coincide com a vontade psicológica. Quantas profissionais com mais de 35 anos estão sofrendo com tratamentos porque deixaram para tomar a decisão nesse prazo último!
O envolvimento profissional define a hora de ser mãe em quase 1/3 dos casos e o adiamento do plano de ter filhos é de 5 anos, em média. A enxurrada de informações em que estamos submersas, a sensação de impermanência, o individualismo e a cultura do descartável, além de nos encontrarmos rodeadas de coisas temporárias, existe uma cobrança para que as pessoas se atualizem constantemente. O fato da mulher precisar se reconfigurar constantemente, gera um enorme stress.
Num especial da revista Cláudia, de 1 de Abril de 2006, chamou a atenção a reportagem: “Acredite: a maternidade pode impulsionar sua carreira”. Nela, consultoras de RH apontaram várias vantagens de mãe profissional. Veja:
Tolerância: mãe tem paciência e tolerância para aceitar que as situações não são exatamente como se espera e sabe que não dá pra ter tudo sob controle. No contato com as próprias limitações e com as das crianças, fica menos rígida nas relações e aceita melhor as limitações de cada um.
Organização: Depois da chegada dos filhos, aumentam tarefas e responsabilidades. É preciso priorizar as tarefas e organizar-se.
Concentração e foco: Como o tempo é precioso, a ordem é concentrar-se e focar as prioridades, ou seja, fazer o dia render.
Flexibilidade: Além da capacidade de lidar com imprevistos, a mãe costuma ter jogo de cintura para encontrar soluções. Adapta-se a novas exigências e novos cenários com facilidade.
Versatilidade: As múltiplas funções do dia-a-dia (mãe, esposa, profissional) geram habilidade para trocar de assunto ou tarefa rapidamente e transitar com desenvoltura por várias áreas e atividades.
Negociação: Convencer as crianças a tomar banho ou ensinar o dever exige habilidade de negociação, ponto valorizado pelas empresas.
Capacidade de delegar: Já que não dá pra resolver tudo sozinha, é inevitável delegar alguém os cuidados com os pequenos em pelo menos parte do dia. Saber delegar se traduz em não sobrecarregar e ainda valorizar os outros da equipe.
Observação: Capacidade de observar e compreender o que significa cada choro do bebê é um talento que se adquire. E a percepção aguçada pode ser trunfo na vida profissional.
Comunicação: Para educar bem os filhos, é preciso lançar mão da comunicação. Dar feedbacks à equipe fica mais fácil depois de exercitar essa habilidade com as crianças.
Perspectivas: A maternidade faz a gente perceber o que realmente importa, dando aos problemas o tamanho que eles têm de fato. O resultado é menos stress e mais chances de levar a vida profissional de maneira equilibrada.
Fragmentos do livro: Vida de Equilibrista: dores e delícias da mãe que trabalha. Cecília Russo Troiano. Ed. Cultrix.
www.vidadeequilibrista.com.br
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