Ninguém é perfeito…

6 07 2008

… Os nossos tempos são de melhoramentos contínuos, de infinitos retoques, de aperfeiçoamento compulsivo. Tempos onde as imperfeições não têm vez. São vistas como falhas que nos impedem de alcançar a excelência. Mas elas podem ser vistas de outro jeito? Como diferenças particulares, como expressão de personalidade, como aquilo que nos faz ser o que somos?

… Não é fácil sobreviver à avalanche de histórias de transformação pessoal e receitas de superação que desabam todos os dias sobre nós. Tem sempre alguém, do alto do próprio sucesso, dizendo que: “querer é poder”. Para o sociólogo Zygmunt Bauman, esta é uma das características da pós-modernidade: saem dos líderes e entram em cena os consultores, pessoas que “dão” conselhos para o que a gente quer, no momento em que a gente precisa. Eles alimentam nosso desejo de ter exemplos de vida, de saber como os outros se comportam quando lidam com problemas iguais aos nossos. E impulsionam a indústria do automelhoramento: programas de TV apresentam “gente como a gente” contando como é possível vencer todas as dificuldades; livros e DVD’s ensinam passo a passo como construir um corpo dos sonhos e conquistar o cargo de presidente de uma grande empresa (tipo revista “Você S/A).

Mas é preciso ter cuidado para não criar metas inatingíveis. Se estamos buscando evoluir, melhorar como ser humano, vá em frente. Agora, se através da comparação e da competição você está buscando ter um corpo irretocável e um casamento sem problemas, um emprego de “cinema”, é melhor uma pausa no caminho. Porque isso pode se transformar em lugar nenhum, exatamente o significado da palavra utopia.

Nossa percepção de nossos defeitos e limitações se dá quando nos “focamos” no outro. O exercício da comparação é este: “Vejo-me, estou feliz. Vejo o outro. Vejo-me nos olhos do outro. Ele tem mais que eu. Vendo-me nos olhos do outro eu me sinto humilhado. Tenho sempre menos. Sou menos.” O sentimento de infelicidade nasce da comparação. Não há como escapar dela. Só conseguimos avaliar o que temos e o que somos comparando nossa situação a de um grupo de referência. O sentimento de podermos ser um pouco diferente do que somos é que gera o ressentimento. Então o que fazer?

Cuide para que a competição não tome conta das relações, sejam elas afetivas, familiares ou profissionais. Tente transformar competição em cooperação. Como? Percebendo que não estamos nas relações apenas para dar ou receber, e sim para cooperar, construir um bem comum.

Os conflitos, as idas e vindas, os erros e todas as outras mancadas do caminho fazem parte do processo da vida. Ver imperfeição apenas naquilo que não se tem ou no que os outros têm é um tipo de comportamento que só gera insatisfação. Não subestime o peso dos valores herdados, ensinados desde pequenos.

Vemos o mundo com a lente de consumo, exigindo sempre o melhor em tudo. Os relacionamentos são considerados com coisas a serem consumidas e não produzidas e, desse jeito, ficam subestimados aos mesmos critérios de avaliação de outros objetos de consumo. O parceiro é visto sob a ótica do consumo, não é mais necessário para o casal fazer funcionar o relacionamento, garantir que ele sobreviva os altos e baixos, fazer sacrifícios par que a união dure. Deixamos de ser aquilo que somos para nos transformarmos em um corpo sem marcas, sem história, sem humores. Experimentemos olhar o mundo sem lentes viciadas em cânones ou padrões. Procuremos uma visão mais sistêmica, onde não existe certo nem errado, nem perfeito nem imperfeito. Precisamos aprender que aquilo que parecer ser o nosso pior defeito, em muitos momentos pode ser funcional e que as pessoas mais fascinantes são as que costumam ser sempre naturais…

Texto de Elisa Correa – Síntese da matéria: “Ninguém é perfeito” da revista Vida Simples de Julho/2008.


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