Você deve ter passado a vida inteira ouvindo a expressão: tempo é dinheiro. Como se cada segundo equivalesse a moedas indo para o espaço. Isso: dinheiro é tempo – o tempo que você gasta para ganhá-lo! E materialismo pode ser bom – desde que você entenda como materialista aquela pessoa que valoriza tanto os bens materiais, mas tanto mesmo, que aproveita tudo o que pode deles, e, por isso mesmo, não precisa de muito para satisfazer. Alguém já ouviu falar de “Simplicidade voluntária”? Pois é, pesquisas estimam que, nos EUA, por volta dos anos 70, se propagou um estilo de vida em resposta à sociedade de consumo e ganhou ecos no Canadá, França e chega bem devagar no Brasil.
A expressão “simplicidade voluntária” deixa claro que ter uma vida mais simples é questão de escolha, de estarmos mais conscientes do que queremos, de quais são os propósitos na nossa vida. E esclarece: não se deve confundir simplicidade com pobreza. Simplicidade é escolha, pobreza não. Simplicidade tampouco tem a ver com negar a tecnologia – afinal ela é muito útil (eu adoro!) E muito menos significa mudar-se para uma cabana na floresta (risos). A idéia é simplificar a vida onde se está, com o que se tem – e a maior parte das pessoas que já fazem isso vive nas cidades.
Pense bem, além do tempo e da energia investidos para ganhar o dinheiro necessário para comprar bens, também é preciso mantê-los. Se uma pessoa tem uma casa na cidade, outra na praia e uma terceira no campo, precisa cuidar da manutenção. Se tem dois carros em vez de um, vai ao mecânico o dobro de vezes.. Por isso, vale uma reflexão: o quanto tempo e a energia investidos para a aquisição de coisas podem minguar as oportunidades de conviver com as pessoas, de buscar a espiritualidade, de ter momentos de tranqüilidade, paz, autoconhecimento e o senso de comunidade? Você paga pelo dinheiro com seu tempo! Quando você gasta o dinheiro, não está gastando um papel emitido pelo governo, mas as horas que você investiu no seu trabalho. E porque você se ama e se respeita, é melhor gastar o dinheiro com coisas que realmente tenham valor pra você. Aquilo que possuo ou compro promove a atividade, a autoconfiança e o envolvimento ou induz a passividade e à dependência? Até que ponto meu trabalho e meu estilo de vida atuais estão apenas vinculados ao pagamento de prestações, à manutenção das coisas, às despesas de outras pessoas? Levo em consideração o impacto de meus padrões de consumo sobre outras pessoas e o planeta?
A verdadeira riqueza, segundo Henry David Thoreau, filósofo, não estaria nos bens, mas sim na qualidade das relações consigo mesmo e com os outros. O consumo em excesso poderia, então, ser um sintoma vazio, em outras áreas da vida, uma forma de compensação. Se essas áreas forem preenchidas, naturalmente, o consumismo decresce. E esse seria o primeiro passo para, quem diria, ser um bom materialista. “As pessoas que consomem excessivamente têm baixo materialismo: compram um computador, mal o aproveitam e já querem outro.” O bom materialista é aquele que tira proveito máximo de todos os bens materiais.
Simplicidade significa eliminar distrações triviais, tanto materiais como imateriais e focar no essencial – o que quer que isso signifique para cada um. É aí que está “o pulo do gato”, a chavinha de outro. Mas calma, vamos começar pelas necessidades. Não precisa pedir demissão do emprego, vender a casa e o carro. Do que você precisa para viver com dignidade e certo conforto? Casa, roupa, comida, saúde, educação e acesso à cultura certamente estarão na lista. Se essas necessidades estiverem supridas, do que mais você abriria mão? Não abra mão de nada num ato de austeridade e sacrifício, pois caso contrário, continuará querendo de volta e esse querer insatisfeito lhe trará problemas. Não tente eliminar nada de sua arbitrariamente. Faça uma lista de itens que o levariam ao ponto de suficiência, nem mais nem menos. Antes de eliminar qualquer coisa, teste. Será que preciso mesmo do forninho e do microondas? Fique uma semana sem usá-los e veja o que acontece. Você pode ter muitas surpresas…
As necessidades mudam porque as pessoas mudam e os contextos também. Então, a pergunta a se fazer é: o que é essencial para este ser singular que sou (não para meu vizinho ou chefe) na minha vida atual? Coloque-se esta questão constantemente e faça adaptações necessárias. O ponto de necessidade não é estático, e sim mutante.
Síntese e adaptação da matéria: Dinheiro é tempo. Revista Vida Simples, Edição 66, Maio de 2008.
Comentários