
Foto: Gonçalo Afonso Dias
Por Denise Deschamps e Eduardo J. S. Honorato
Revista Psique, número 40 – Ano IV.
O que é a crise que tantos falam atualmente? Este vocabulário adentrou a vida dos brasileiros nos últimos meses e, consequentemente, os nossos consultórios e locais de atuação profissional. Teria a psicologia algo a dizer sobre o que pensa atualmente em relação à crise do capital? Há inúmeras perspectivas sob as quais a Psicologia teria como abordá-la.
O mundo se agita preparando-se para o caos econômico, fatores estatísticos que aos olhos da prática da psicologia ganharam contornos de angústia individual ou dos grupos. Os números caem sobre cabeças que na relação com eles produzem felicidade ou angústia. Como Freud já havia dito, enfatizam-se as tarefas humanas que serão sempre uma das nossas maiores fontes de gratificação ou sofrimento: o amor e o trabalho.
… Como sobreviver à angústia de aniquilamento ante ao mundo real que impõe hoje restrições ao projeto de vida de uma grande maioria? E como pensar isso em um país como o Brasil, onde a distribuição de renda é uma das mais injustas?
Parece que o “tubarão” chamado “acumulação de bens” nos ameaça de várias frentes. Seria a tal crise cíclica do capital já descrita por Karl Marx e Engels? Estariam os mais aptos devoradores incorporando os menores investidores financeiros do planeta? O quanto disso nos tem sido propagado em concepções que adentram nosso imaginário, em nosso cotidiano? Fazer perguntas simples como essas poderão nos dar a dimensão do que tem a Psicologia a dizer sobre tudo isso.
Se você sente angústia ou depressão, quem sabe procurar medicamento antidepressivo não seja o melhor caminho?
Pensar no mundo em que se vive, trabalha e ama, pode ser o começo de mudanças possíveis…
Muitas foram as escolas de Psicologia que tentaram entender o homem atralado ao modo de produção, ligado ao que permeia ao seu mundo econômico, atravessado e sustentado por questões de ideologia. Pensamos nesse homem como ser social desde o momento de sua concepção.
… Quantos brasileiros não se sentiram ameaçados, amedrontados ou receosos ante a “crise” tão propagada pela imprensa nacional e mundial? Quantas vezes o tema “crise” adentrou em nossos consultórios desde setembro de 2008? Em um país com memória recente de inflação, períodos longos de recessão e planos econômicos mirabolantes, a “crise” atual traz em seu bojo, questões não só atuais, mas fantasmas deixados por episódios anteriores ainda mais “elaborados”. (digeridos)
Em que a Psicologia poderá se apresentar como um vetor dentro dessa conjuntura? Como a Psicologia fará uma proposta de trabalho com essa angústia crescente no individual e no coletivo? Como trabalhará diante da angústia, da exclusão e do crescimento da massa de miseráveis? O que em seu discurso irá se aliar ao que se rebela a opressão da exploração? O que justificará isso com conceitos de normatização do psíquico? Toda prática de campo psi é atravessada por questões ideológicas, levadas ou não em consideração, por um profissional que atua.
Se levarmos em conta análise da conjuntura econômica aqui apresentada, veremos que o campo psi cabe, se pensar como ferramenta ou dispositivo de controle ou como caminho organizador da justa pressão social. Pensar em sua prática como alheia a essa questão torna-se algo, a nosso ver, alienado e alienante da possibilidade de ser, na concepção integral que esse conceito traz e que é tão intrinsecamente relacionado à própria existência da Psicologia.
… Propomos pensar em um possível exemplo: supomos saber que, hoje, uma parte significativa de jovens, que tem acesso à graduação universitária, traz em seus projetos de futuro uma vida no exterior, fora do Brasil, tanto para continuidade de seus estudos quanto para a busca de mercado de trabalho mais promissor. Será que podemos entender isso a partir de uma análise individual? Ou esse desejo nasce e se apoia em uma leitura – mesmo que inconsciente – de todo um campo político, econômico e do idea’rio que os sustentam?
Indo a outro ponto mais extremo de angústia, poderemos questionar, em outro exemplo possível, um homem que se perdeu no alcoolismo, entendido apenas por uma explicação individual patologizada e “naturalizada” em diagnósticos de um sujeito doente. Ele poderia ser entendido por meio de uma análise dos assustadores índices sobre alcoolismos de desempregados.
Incluir esses “dados de realidade” naquilo que temos a oferecer como possibilidade de fortalecê-lo para lidar com seu mundo, até mesmo aquilo que o prepara para entender os números e índices bombardeados pela mídia em seu cotidiano que, normalmente, mais o assusta do que informa ou prepara-no em sua capacidade de elaboração e enfrentamento da questão.
Esse sujeito que sofre e se vê como “culpado”, “despreparado”, “incompetente” ou simplesmente doente, assustado procura um profissional do campo psi, e tudo isso comporá o quadro em que esse profissional atuará.
Veremos na clínica o aparecimento de sintomas de ansiedade, pânico e depressão correlacionados à perda de emprego, de poder aquisitivo, de possibilidade de manter os filhos em determinado padrão educacional, social, dentre outros fatores. Quadros psicossomáticos afastando a possibilidade de recuperação e represetação desse sofrer. Remeter isso a apenas padrões infantis e individuais, ou ler como incapacidade de adaptação, são leituras possíveis, mas com certeza não darão conta de integrar esse ser de uma maneira completa e saudável com o mundo em que vive, mudo esse, no momento, com dminuta capacidade de contemplar sua necessidade de trabalho.
Em uma última instância podemos supor uma Psicologia que não seja social? Pensar que refletir sobre isso não tenha importância na prática clínica, organizacional (recursos humanos), educacional, trânsito, dentre outras, é supor um homem capaz de um isolamento indispensável em relação ao meio em que ama e trabalha.
Convidamos então para a permanente reflexão sobre o que se tem nomeado como “campo psi” em que tanto a Psicologia quanto o fazer psicológico se inscrevem.
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