O preço que estamos… ou não estamos dispostas a pagar pelo topo.
Por: Iracy Paulina.
Reportagem de Liliane Simeão, Revista Cláudia, outubro de 2005.
Ótimos salários, cargos de prestígio, benefícios e.. muitas horas extras são os prêmios de algumas executivas. Boa parte das mulheres, porém, tende a repensar suas metas e não apenas por buscar uma rotina mais tranquila.
Um estudo da Catalyst, organização americana que faz pesquisas sobre a participação feminina no mercado de trabalho, mostrou que uma das pedras no caminho das mulheres rumo aos cargos de comando é a dificuldade encontrada para incorporar uma jornada muito extensa. Os pesquisadores chegaram a essa conclusão ao detectar que uma em cada três americanas com título em MBA não estava empregada em período integral, enquanto a proporção masculina era de um para 20. Com a experiência de quem já provou o gostinho do topo quando era presidente de uma indústria de embalagens metálicas, em São Paulo, a administradora de empresas Ana teresa Meireles, 45 anos, corre dessa tendência: sempre aceitou numa boa o trabalho em período integral. Messmo assim, ela resolveu dar uma guinada profissional. “Somos formados por várias facetas e, a cada momento, uma toma dianteira, ganha prioridade. Cumpri uma etapa importante e decidi que já era hora de ter mais liberdade de escolher os projetos que realmente queria tocar. A sabedoria está em não nos tornarmos refém de uma parte de nossas vidas, seja ela a carreira, os filhos, o casamento, o social, o status ou poder”, observa a administradora, que atualmente comanda a própria consultoria, a Focus.
Um executivo competente, segundo Ana teresa, não pode ser obsessivo, precisa ter uma mente aberta e receptiva. Ela cultiva o relacionamento com os amigos, viaja com a família de férias, dedica-se à corrida quase diariamente, curte os filmes que adora, saboreia a leitura de um bom livro, exercita o prazer da escrita. “Essas coisas são como alimentos vitais para mim”, explica Ana, que não se arrepende nem um pouco de ter deixado a presidência de uma grande empresa.
HOMENS SÃO MAIS COMPETITIVOS?
De acordo com uma pesquisa recente feita na Universidade de Pittsburgh, Estados Unidos, o apetite feminino pela competição é menor que o masculino. No experimento, homens e mulheres tinham que fazer o máximo de contas possível no prazo de cinco minutos. Os pesquisadores notaram que, mesmo se saindo bem sozinhas, elas evitaram as rodadas em que os grupos competiam entre si, o que não ocorria com os homens. Há quem defenda essa diferença seria inata e explicaria o fato de eles encararem a hierarquia corporativa como um ringue de luta, enquanto nós pisaríamos mais manso nesse terreno. Para a socióloga Clara Araújo, da Universidade Estadual do RJ, isso é bobagem. “As diferenças de expectativa são fruto da socialização. Com o avanço feminino no mercado de trabalho, mulheres bem sucedidas provavelmente são tão ambiciosas quanto os homens.”
Como gerente de RH da América Latina da unidade de negócios Health-care da General Eletric, a psicóloga Sandra Rodrigues, 39 anos, acredita que já chegou onde desejava. “Poderia ir mais longe, pois tenho talento e a GE investe nos colaboradores”, diz. Não faltaram oportunidades. A última aconteceu meses atrás, quando foi convidada a participar de um processo seletivo dentro da própria GE. “Teria que ficar muito tempo fora do Brasil”, explica. Estava aí um ônus com o qual ela não se dispunha a arcar. Desarranjaria toda a vida doméstica. “Quero acompanhar o desenvolvimento dos meus filhos. Por isso, não aceitaria um cargo que implicasse um volume muito grande de viagens, reuniões e encontros de negócios, restringindo assim os momentos de convivência com as crianças.” No atual posto desde 1999, ela chega a trablhar por volta das 9 horas, porque faz questão de tomar café da manhã todos os dias com os pequenos. Não sai depois das 8 da noite, por acreditar que o excesso de carga horária prejudica o rendimento. Quando é possível, nem vai à empresa, já que montou um home office e resolve os problemas em casa. Mas é sobretudo a sua função que a faz feliz. “Gosto de ajudar as pessoas a crescer, indicando cursos e orientando sobre posturas.”
Claro que existem muitas mulheres que entraram para valer na batalha pela liderança, como demonstra um levantamento feito desde 1994 pelo Grupo Catho, consultoria em RH de São Paulo. No primeiro ano da pesquisa, o porcentual de mulheres ocupando o topo da hierarquia nas empresas era de apenas 8% – número que dobrou em uma década. O mesmo estudo mostra, porém, que elas têm suas preferências: o último levantamento apontou que as áreas com maior número de executivas são as de recursos humanos (62%), relações públicas (57%) e administração (39%). Já aquelas que menos atraem as mulheres são as de processamento de dados (16%) e a industrial/engenharia (12%).
Postos avançados – Pesquisa do GRupo Catho, feita entre 2004/2005, mostra o porcentual de executivas em cargos-chave de 60 mil empresas:
Vice-presidente: 15%
Presidente: 16%
Diretoria: 21%
Gerente: 25%
Chefe: 34%
Supervisora: 37%
Coordenadora: 47%
Empregada: 48%
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