
Associado à frustração, solidão ou transtornos psiquiátricos subjacentes, o consumo compulsivo é fonte de prazer semelhante ao da dependência química; embora afete ambos os sexos, são as mulheres que mais buscam ajuda especializada.
Por: Paola Emília Cicerone
Revista Mente e Cérebro,, pág, 44, Ano XV, número 176.
Prazer, necessidade, paixão ou doença? A relação com as compras, pode assumir diversos aspectos, em muitos casos completamente distintos da mera necessidade de aquisição de bens para o consumo. Há pessoas que conhecem vendedores pelo nome, compram por qualquer motivo – quando se sentem muito bem ou muito mal, para se consolar após uma discussão ou como recompensa por um trabalho realizado. Há consumidores incapazes de passar por uma loja sem adquirir algum produto, parecem hipnotizados diante das vitrines. Muitos deles, para quem comprar não é um mero passatempo, buscam ajuda terapêutica ao perceber a dificuldade de controle.
A psicóloga Roberta Biolcati, constatou nos últimos anos, um aumento de 90% na procura por tratamentos de problemas relacionados a consumo, sobretudo por mulheres. Entre os homens, o impulso atinge especialmente jovens em conflito com a própria imagem. Biolcati observou rapazes que começaram a praticar esporte para justificar a compra do equipamento.
Para o professor de psicologia do consumo, Giovanni Siri, a predominância feminina está associada à função de comprar, tradicionalmente atribuída a mulher. Não, por acaso, a compulsão surgiu com os grandes sintomas de distribuição comercial. As lojas de departamentos foram os primeiros espaços públicos onde as mulheres puderam andar sozinhas. Segundo, ele o período coincide com a explosão do consumo e o surgimento das marcas e da publicidade para apresentar o produto de forma mais eficaz: “Comprar passou a ser considerado um acontecimento social, e foram criadas áreas comerciais para atrair as pessoas.”
Estudos recentes indicam que 90% dos consumidores efetuam aquisições compulsivas. Nos EUA, esse comportamento atinge de 2% a 8% da população. É cada vez maior o número de pessoas que procuram psicólogos ou psiquiatras em busca de ajuda para controlar o impulso de consumo. Pesquisadores observam que a compulsão leva aproximadamente 10 anos para se consolidar e ser percebida como tal pela pessoa. O hábito surge por volta dos 18 anos, quando os jovens, embora nem sempre efetivem compra, passam horas experimentando roupas e outros produtos.
Ao longo do tempo, o impulso de consumo transforma a rotina da pessoa. Ir ao shopping, por exemplo, se torna uma atividade frequente, solitária e, eventualmente, causa vergonha; é como um apetite compulsivo. As compras funcionam como uma espécie de droga leve: o consumidor só se satisfaz quando adquire o produto desejado. Essa experiência é bastante comum, mas ao tornar-se obsessiva pode comprometer o equilíbrio emocional e muitas vezes chega a ter consequências sobre o orçamento familiar. A impossibilidade financeira de satisfazer desejos de consumo aumenta a ansiedade do paciente. Para se livrar dessa angústia, há pessoas que optam por soluções drásticas, como, por exemplo, não entrar em lojas para evitar o impulso. Há relatos de pacientes que, após dois ou três dias, experimentaram náuseas comparáveis às da abstinência de drogas.
Apesar das semelhanças, o comportamento não é reconhecido como dependência porque não envolve uso de substâncias. Além disso, classificar como patológico um fenômeno socialmente aceito é tarefa difícil. A obsessão pelas compras não coloca a vida em risco, como o alcoolismo ou a dependência de drogas, levando a sociedade a uma visão superficial sobre as consequências do transtorno. Consumidores compulsivos sofrem simultaneamente de distúrbios como bulimia, anorexia, descontrole emocional e alcoolismo. O consumo funciona como atalho para sanar carências. Trata-se de uma dependência autorizada, bem vista socialmente.
Para muitos, o impulso de comprar pode parecer um capricho, mas especialistas advertem que o comportamento, de fato, está relacionado a alterações cerebrais. As compulsões causam alterações na liberação de neurotransmissores como dopamina, adrenalina e serotonina. A euforia associada às compras tem origem num mecanismo biológico semelhante ao associado ao abuso de drogas. A dependência surge da busca de uma situação prazerosa à qual nosso cérebro se habitou. A compra compulsiva pode ser uma estratégia para atenuar um estado depressivo subjacente. “Tristeza, solidão, frustração ou raiva incrementam a tendência a consumir, a própria atividade de comprar está associada a emoções prazerosas.
A compulsão pelas compras sinaliza, muitas vezes, a presença de desconfortos existenciais profundos que envolvem dificuldades de relacionamento. Nossa identidade se baseia na relação com os semelhantes. Em momentos de ansiedade, quando se sentem fragéis ou mal-adaptadas, as pessoas podem tentar suprir carências afetivas substituindo relações mais complexas pela aquisição de objetos, que não rejeitam nem as decepcionam. Há pesquisas demonstrando que o consumo é menor quando as relações humanas são satisfatórias. O mercado atual tem interesse específico nas vendas e recorre a “alavancas psicológicas” especializadas, justamente para responder a crises de identidade. Essas ferramentas são capazes de despertar interesses e criar no consumidor uma falsa sensação de escolha autônoma. As pessoas são aparentemente livres e tem acesso a um grande volume de mercadorias. Na realidade, somos bombardeados por uma rajada de produtos apresentados pela publicidade de forma cada vez mais intensa e eficaz. Técnicas de neuroimagem muitas vezes são associadas à alta qualidade para valorizar o próprio produto.
Embora represente a satisfação imediata de um desejo desconfortável, a compra compulsiva termina desenvolvendo à pessoa angústia. “O objeto tem papel simbólico que se esgota no momento em que é adquirido. A casa pode ficar mais cheia de coisas inutéis, jamais usadas, posteriormente descartadas.” O consumo pode operar como regulador de estados emocionais. Embora patológica, a compra compulsiva é tolerada pela sociedade e, se não fuigr ao controle, não há motivo de preocupação.
Pessoas afetadas pela compulsão de comprar são capazes de descrever sensações físicas, no momento da aquisição, comparáveis à degustação de um bom prato ou de uma taça de champanhe. Quando se torna excessiva a compulsão e o consumidor percebe impotente para controlar seu impulso, várias abordagens terapêuticas podem apresentar resultados satisfatórios. Alguns estudos sugerem a eficácia de fármacos inibidores de recapatação de serotonina como o Citaloram e a Fluovoxamina.
A exemplo de qualquer distúrbio, o tratamento da compulsão consumista depende da característica do paciente: “pessoas dispostas ao autoconhecimento e com capacidade de reflexão sobre as próprias atitudes podem se beneficiar com a psicanálise ou a psicologia analítica, enquanto indivíduos menos habituados à introspecção ou interessados em resolver problemas rapidamente podem recorrer à terapia cognitivo-comportamental.” Em alguns casos, a aplicação de técnicas de anotar todos os itens comprados em um determinado período, destacando os efetivamente usados, apresenta resultados favoráveis.

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