Mãe realizada, filho feliz!

25 10 2009

Você morre de culpa quando tem de sair para trabalhar e deixar o filho em casa? Não se preocupe tanto: o seu trabalho traz uma série de benefícios para a criança Jeanne Callegari.

Fonte:http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI3774-10513,00-CARREIRA+MAE+REALIZADA+FILHO+FELIZ.html

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É só você se levantar para ir ao trabalho, de manhã, que seu filho faz uma carinha de tristeza. Desde que as mulheres começaram a sair em massa para o mercado de trabalho, há 40 anos, precisam enfrentar esse tipo de dilema. Pensam que estão abandonando os filhos e que eles vão sofrer muito com sua ausência. E pensam nas conseqüências que isso trará para o futuro deles. Se isso passa por sua cabeça com freqüência, não se preocupe. Seu trabalho traz mais benefícios para seu filho do que você pode imaginar.

A primeira vantagem é óbvia: o dinheiro. A maioria das mulheres trabalha, hoje, por necessidade. As famílias precisam do salário de homens e mulheres. É uma tranqüilidade não depender apenas de uma fonte de renda. Se o marido ou a mulher perdem o emprego, situação não incomum, existe uma rede de segurança, algo que protegerá a todos, principalmente os filhos, durante a crise. Mesmo quando não há nenhum problema, o dinheiro permite que as crianças tenham acesso a coisas que não poderiam de outra forma. Uma escola de qualidade, aulas de natação, dança ou inglês. Essas atividades podem fazer a diferença no futuro, quando ela entrar no mercado de trabalho, e mesmo para se tornarem adultos mais equilibrados e saudáveis. Claro que não é preciso, nem recomendável, colocar a criança em milhares de atividades, deixando-a sem tempo livre para brincar e aprender livremente. Mas uma boa escola e uma ou duas atividades extras são bem-vindas. E isso custa caro.

Se o marido ganha o suficiente para os dois, a mulher se sente culpada em trabalhar, afinal, teoricamente, a família não precisa. Mas a situação não é tão simples. A jornalista americana Leslie Bennetts, autora do livro The Feminine Mistake (O Erro Feminino, inédito no Brasil), que fala das razões para as mulheres não pararem de trabalhar, argumenta que, nesse caso, as mulheres ficam dependentes do marido. E se ele pedir o divórcio? E se você quiser o divórcio? E se ele perder o emprego? E se acontecer um acidente? Nesses casos, toda a família fica vulnerável. Principalmente a criança, que vai se encontrar em uma situação difícil de repente.

Para o homem, é um alívio quando a mulher trabalha. “A responsabilidade de ser o único provedor é muito grande”, diz a psicóloga Ceres Alves de Araújo. A pressão diminui sobre ambos, o que melhora o astral em casa. Mais uma vantagem para os filhos, que podem contar com pais menos estressados e um clima leve.

Com as mulheres trabalhando, abre-se um espaço importante para que o homem participe mais da vida em família. A situação ainda não é a de uma divisão meio a meio, o que sobrecarrega muitas mães, mas aos poucos os homens começam a cozinhar, trocar fralda, levar ao médico. A criança ganha um pai participativo, mais presente que em qualquer geração anterior, que brinca e cuida dela. O dinheiro e a segurança não são os únicos motivos pelos quais as mulheres trabalham. A realização pessoal também conta. E aí acontece um paradoxo. “Quanto mais gostam do trabalho, mais as mulheres se sentem culpadas”, diz Ceres. Elas encaram como se abandonassem os filhos não por uma necessidade simples, mas por um motivo muito mais egoísta, que é se sentir bem com projetos pessoais.

Gostar do trabalho, porém, não deve ser motivo de culpa. “Uma mãe realizada e satisfeita com o trabalho transmite confiança para o filho”, diz a psicóloga Simone Savaya. O contrário também é verdadeiro: se a mãe decide ficar em casa e se sente frustrada por não trabalhar, isso vai refletir na relação com os filhos. Ela pode até, inconscientemente, culpar a criança por afastá-la da atividade de que gosta. Para o filho, então, vale muito mais ter uma mãe que trabalha, realizada e feliz, que uma mãe que fica com ela o tempo todo mas é frustrada, infeliz e dependente.

O trabalho dos pais, hoje, é motivo de orgulho para os filhos. Antigamente, ocorria o contrário. Dois estigmas pendiam sobre as crianças: o da mãe que trabalhava, pois significava que a família era pobre e precisava de duas rendas, e o dos pais separados. As crianças que viviam essas situações sofriam preconceitos e se sentiam diferentes do grupo. Hoje, o divórcio é uma situação normal, assim como o trabalho das mães. “É mais comum o contrário: se a mulher não trabalha, o filho vai querer saber o que há de errado com ela”, diz Ceres. As crianças se orgulham do trabalho dos pais, gostam de saber o que ocorre no escritório, perguntam, têm curiosidade.

Esse orgulho é um dos maiores presentes que os pais podem dar aos filhos. Sem perceber isso, muitos pais dizem a eles que vão trabalhar porque precisam. Melhor seria dizer, também, que vão trabalhar porque gostam, porque é legal. E que, um dia, ele também vai crescer e ter um trabalho bacana. O orgulho dos pais acaba se transformando em referência para as crianças. Como em todas as outras coisas, eles são seu modelo. Um pai que dá banho, troca fralda e faz o jantar mostra para os filhos que é normal para um homem realizar essas tarefas. Da mesma forma, a mãe que trabalha mostra para a filha que as mulheres também são responsáveis pelo sustento da casa; o mesmo vale para os meninos. “A gente observa que os filhos de mães que trabalham se tornam companheiros muito mais colaborativos quando crescem”, diz Ceres. Os pais dão o exemplo; as crianças ganham modelos que vão orientá-las para o resto da vida.

 Existe ainda outra vantagem. Se você trabalha fora, a tendência é que se preocupe com o que realmente importa. Quando as mulheres começaram a ter empregos, a culpa era muito, muito grande, ainda maior que hoje. Isso resultou em mães permissivas, que não conseguiam dizer “não” aos filhos ao fim do dia. De lá pra cá, a situação melhorou muito. A culpa existe, mas não impede que os pais imponham limites às crianças. Por outro lado, se você passa menos tempo com os filhos, a tendência é que se preocupe apenas com os hábitos mais relevantes. Você entende a importância da flexibilidade e sabe que de vez em quando não tem problema ele ficar acordado até mais tarde ou tomar um sorvete.

Desde que não sejam hábitos diários, tudo bem. Para seu filho, o resultado é uma mãe menos focada em detalhes, que se preocupa com o que é importante e não vai brigar por coisas à toa. A criança não precisa ficar do seu lado o tempo todo para ser feliz. Ao longo da história, mesmo com as mulheres trabalhando em casa, os filhos não passavam o dia grudados em suas saias. Eles corriam e brincavam ao ar livre, sendo cuidados por toda a comunidade. “Criança precisa de criança”, diz Ceres. Precisa brincar, correr, fazer amigos, desenvolver suas próprias habilidades e interesses. Ela tem mais chances de fazer isso se não passa o dia inteiro grudada na barra da saia da mãe.

Isso não significa que dá para ser uma mãe virtual, que mal está presente. “Se a mulher sai antes da criança acordar e volta depois que ela dormiu, não vejo benefício”, diz a terapeuta de família Magdalena Ramos. Claro que é legal conversar com o filho por telefone, matar a saudade durante o dia, mas isso não pode ser tudo. É importante tocar, abraçar, brincar. “Quando está com a criança, a mãe deve estar inteira. Corra, ria, se jogue no chão”, diz a terapeuta de família Magdalena Ramos. De nada adianta ficar assistindo à novela enquanto ele brinca sozinho no quarto.

A vida é feita de fases. Nos primeiros anos, seu filho vai exigir mais a sua presença, precisar de cuidados constantes. Talvez essa não seja a melhor hora para iniciar uma pós-graduação, um MBA ou aceitar um emprego que exija muitas viagens. E isso vale também para o marido, que, afinal, está mais presente na família. Depois de alguns anos, as crianças vão entrar na escola e ficar mais independentes. Aí é hora de voltar a investir pesado na carreira.

Mesmo sabendo de tudo isso, as mulheres podem balançar. Isso porque as crianças mostram, de todas as maneiras, que preferiam que os pais estivessem em casa. Elas reclamam. E são espertas, vão reclamar daquilo que sabem que vai magoar. Se ela percebe que você se sente culpada por deixá-la, é exatamente nessa tecla que ela vai bater. Portanto, se você se sentir mais segura ao sair, vai passar esse sentimento para o filho, que ficará mais tranqüilo. Claro que um emprego flexível, que permitisse a você controlar seus horários, ajudaria bastante.

A correria seria menos intensa. Essa questão, e as mudanças que já estão ocorrendo, são discutidas na próxima reportagem. Mesmo sem elas, porém, você pode se sentir segura. Pense em todas as coisas para as quais arruma tempo. A lista é extensa, não? Isso porque a mãe que trabalha tem muitos interesses.

Nenhum papel a limita ou define. Para a criança, essa mãe poderosa, capaz de dar conta de tantas coisas, é uma heroína. Um modelo que vale a pena ser seguido. Por isso, não se preocupe em dar conta de conciliar trabalho e filhos: você já faz isso.





Complicada e perfeitinha: como lidar com as dificuldades do dia-a-dia das mulheres

25 10 2009

Você vive se cobrando e, vira e mexe, acha que não é uma boa mãe, que deveria dar mais atenção às crianças, à casa, ao marido? Saiba que não é a única.

Fonte: http://revistacrescer.globo.com - outubro de 2009, edição 191.

Por Tamara Foresti

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Eu sou a pior mãe do mundo.” Quantas vezes você já se martirizou com esse pensamento? Você faz o melhor para os seus filhos, mas se culpa por ter demorado para trocar a fralda do bebê ou porque não colocou um casaco na mochila da filha. Enquanto observa as outras mães, sempre organizadas e sorridentes, se pergunta se vai dar conta da maternidade. Será que é só você que não tem tudo sob controle?

Definitivamente, você não está sozinha nesse barco. Muitas mulheres amam os filhos, mas não se sentem completamente felizes com a maternidade. Nesse quadro se encaixam as americanas Trisha Ashworth e Amy Nobile, que fizeram mais de 100 entrevistas para escrever Eu Era Uma Ótima Mãe Até Ter Filhos (Ed. Sextante). O livro conta a história de mães possíveis, dando conselhos bem-humorados de como superar as dificuldades do dia-a-dia. Veja trechos da nossa conversa com as autoras, que analisam o que é ser mãe hoje:

 ESCOLHAS

Um dos maiores desafios da mãe moderna é ter muitas opções, todas acompanhadas de uma pressão imensa em fazer a escolha certa. Se decidimos e nos arrependemos, vem a culpa. Crescemos achando que queremos e podemos fazer tudo. Por causa disso, nossas expectativas são altas demais. Pessoalmente, fizemos escolhas duras (Amy continuou trabalhando depois de ter filhos e Trisha optou por ser mãe em tempo integral), muito mais difíceis do que imaginávamos.

A CULPA


Culpa é o resultado das expectativas inatingíveis. Ela aparece quando não fazemos perfeitamente tudo o que planejamos. Precisamos alinhar nossas expectativas com a realidade. Uma vez feito isso, aprendemos a fazer escolhas conscientes e convivemos em paz com elas. Assim, deixamos a culpa de lado e paramos de nos comparar com outras mães. A primeira coisa para exorcizar esse fantasma é lembrar que não existe uma mãe perfeita. Em nossa cabeça, criamos um modelo materno cheio de atividades que achamos que deveríamos fazer e, para a maioria das mulheres, ele é irreal. Deveríamos sentar e pensar nas nossas expectativas, procurando priorizar algumas e deletar outras. Só assim começamos a fazer as melhores escolhas para a família.

 

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Quem são as autoras Trisha  fazia propagandas para a TV até o nascimento dos filhos. É casada há 15 anos e mãe de Alexandra, de 8, Pierce, de 6, e Julia, de 4. Amy, casada há 10 anos, é relações públicas. Além de brincar com os filhos, Sam, de 5, e Emily, de 4, adora sair com as amigas

 

 

HUMOR E HUMILDADE

O primeiro passo para aprender a amar a maternidade o tanto quanto amamos nossos filhos é sermos honestas, conversando abertamente sobre nossos problemas com outras mães. Acreditamos que manter o senso de humor e humildade é importante – estamos todas juntas nesse barco e, se pudermos rir dos nossos escorregões e triunfos, o caminho vai ser mais gostoso. Muitas vezes ficamos obcecadas em planejar o futuro ou lamentar o que poderíamos ter feito de diferente no passado. Aprender a viver o aqui e o agora é melhor para a família toda. Uma mãe nos disse que 10 minutos dançando com seus filhos de manhã aumentava o astral do dia inteiro. Esse é um exemplo de como uma atividade simples pode transformar a rotina.

O CASAMENTO

Após o nascimento, as crianças passam a ser a prioridade da vida. Queremos que os maridos leiam nossas mentes e saibam, por intuição, quando precisamos de ajuda e quando devem ser proativos. Entrevistamos vários homens que disseram que fariam qualquer coisa pelas esposas, mas precisavam de um manual para saber como se portar.

CRIANDO FILHAS

Para criar as mães do futuro livres de culpa, precisamos ficar de olho no nosso comportamento. As meninas observam o jeito como nos tratamos. Se colocarmos sempre os outros na nossa frente, a ponto de nunca termos tempo para nós mesmas, é assim que elas serão quando crescerem. Mas se conviverem com uma mulher que se ama, se cuida e aproveita a vida, é isso que aprenderão. Nem todas as mulheres nascem sabendo ser mães. Esse é um dos maiores preconceitos (e expectativas) que criamos. Nem sempre temos instinto materno ou sabemos o que fazer. Na verdade, muitas das habilidades que tínhamos antes dos filhos não valem para a maternidade! Precisamos aprender a ser mães, o que é surpreendente e frustrante. Saber que muitas mulheres também sofrem com isso é um alívio.

SER MULHER

Não somos a mesma pessoa que éramos antes dos filhos. A chave para descobrir o nosso novo “eu” é lembrar que, além de mães, somos mulheres. Para sermos felizes com a maternidade, não podemos esquecer de nós mesmas, nos priorizando de vez em quando. Não se culpe por isso, pois é saudável para a família toda. Queremos que nossos filhos sejam felizes e, um dia, bons pais. Por isso, precisamos dar o exemplo.





Sucesso na carreira é sinônimo de solidão?

25 10 2009

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Cada uma na sua área, estas mulheres chegaram ao topo. São respeitadas pelas empresas, lideram equipes e, quase sempre, ganham mais que o marido. Descobriram, porém, que tantas conquistas podem custar caro. Numa conversa franca, elas discutem as ciladas da ascensão profissional e os truques para não cair nelas

Por Sibelle Pedral | fotos Fabio Heizenreder

Fonte: http://claudia.abril.com.br/materias/1779/?pagina1&sh=28&cnl=24&sc=

Agosto de 2004.

 

 

Depois de semanas negociando agendas carregadas, conseguimos reunir um timaço para discutir um tema que ainda é tabu: o quociente de solidão de executivas poderosas.

Cristiane Almeida, 43 anos, divorciada, é mãe de um garoto de 9. Formou-se médica fisiatra e coordena o Centro de Reabilitação do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Eneida Bini, 45 anos, casada, um filho de 17 anos, ex-presidente da Avon no Brasil, dirige hoje a Herbalife, multinacional de suplementos alimentares.

Vânia Curiati, 35, casada, tem gêmeos de 7 anos e uma menina de 4. É diretora de softwares da IBM no Brasil.

Beth Meger, 44, separada, tem dois filhos, um de 22 anos e outro de 5 meses. Ela criou e comanda a NS&A, agência que cuida da intermediação de negócios em publicidade.

Rosi de Castro, 38, casada, um garoto de 8 anos, é diretora administrativa da Bamberg, consultoria de imóveis de alto padrão em São Paulo.

Atuando como mediadora ao lado de CLAUDIA, a psicóloga Valéria Meirelles, que organiza workshops sobre mulher, carreira e vida pessoal.

CLÁUDIA: Foi preciso fazer renúncias para chegar aonde vocês chegaram?

 Eneida: Minha maior renúncia foi o tempo que não pude dedicar ao meu filho. Até ele completar 8 anos, cumpri muito bem o meu papel de mãe. Ainda era supervisora, executava as minhas tarefas e ia cedo para casa. Tirava férias de 30 dias! Quando assumi mais responsabilidades como diretora, acabaram-se as férias longas e passei a trabalhar após o expediente. Aí mudou a forma de me relacionar com a família. Felizmente, não houve ruptura: o César já tinha os amigos da escola, se preocupava com outras coisas. 

Rosi: Praticamente não tive licença-maternidade. Vinte dias depois da cesárea, estava na empresa com o bebê no moisés. Antes de completar 3 meses, ele já ficava dez horas por dia num berçário. Hoje me arrependo: perdi um momento importante da história do meu filho. 

Beth: Por causa da carreira, adiei muito a maternidade. Além de trabalhar sem parar, viajava demais. O resultado é que me tornei mãe só agora, aos 44 anos, depois de encerrar o segundo casamento, que durou mais de 20 anos – apesar de ter adotado o Ricardo, um garoto de 9 anos que certa manhã encontrei dormindo na porta da minha empresa. O fim daquela relação me fez repensar meus valores e quis ser mãe. Cheguei a procurar um banco de esperma, mas desisti quando o geneticista alertou que não podia dar nenhuma garantia sobre o caráter do bebê. Nessa época, numa viagem de trabalho, uma pessoa que eu conhecia havia muito tempo disse que gostaria de me dar um filho. Eu já conhecia bem o caráter dele. Fizemos uma viagem e voltei grávida.

 Valéria: Em nenhum momento você pensou em conciliar as duas coisas, o filho e a carreira?

 Beth: Em todos os momentos pensei nisso, mas meu marido não queria. Então, como na época a carreira supria as minhas necessidades de felicidade, eu me alimentava dela.

CLAUDIA:Tantas renúncias na vida pessoal não deixaram um gosto amargo? Sucesso pode ser sinônimo de solidão?

Rosi: Acho que sim. Na verdade, tem menos a ver com as renúncias e mais com o fato de não encontrar ninguém com quem dividir decisões. Já contei histórias da empresa para meu marido e ouvi críticas à minha atitude. No setor empresarial, você vai subindo e fazendo inimigos naturalmente. A tendência é ficar só e limitar a convivência às pessoas em quem realmente confia, ou seja, a família. Se nem na família existe apoio, tenho um problema.

 Beth: Nossa convivência fica restrita, o que pode causar solidão. Até dois anos atrás, por exemplo, não comemorava meu aniversário com festa. Minha grande dúvida era: as pessoas virão porque gostam de mim ou simplesmente porque sou a chefe? Outro momento de solidão vinculado à ascensão profissional é o final de semana. Você não tem para quem ligar, porque não sobrou espaço para amigos fora do trabalho.

 Vânia: Isso para mim é prioridade – e uma questão de disciplina. Pelo menos uma vez por mês, saio para jantar com os amigos da faculdade. Faço três horas de almoço para encontrar uma pessoa querida. Em contrapartida, se um dia for preciso trabalhar 15 horas seguidas, a empresa sabe que pode contar comigo.

 Eneida: Para mim a solidão aparece no momento das grandes decisões. Não posso compartilhar meus pontos de vista com muitas pessoas nem buscar opiniões diferentes. Por outro lado, amadurecemos à medida que a carreira progride. Procurei não me isolar nesse processo: fui aprendendo com as pessoas, me aproximando delas. Quando eu estava em plena ascensão, tinha que me empenhar tanto que aí, sim, me distanciava dos outros. Para mim, a solidão foi muito maior no começo.

 Valéria: É possível sair da solidão e administrar bem o estar sozinha. São coisas muito diferentes…

 Cristiane: Outro dia, li isso num livro budista. A solidão é a ausência do outro. Já a solitude é sentir-se feliz simplesmente por estar consigo mesma. A maturidade traz essa capacidade de ver a vida com outros olhos.

 CLAUDIA: Qual o papel dos maridos no sucesso profissional de vocês?

 Eneida: O meu é um “maridaço”. Se não fosse ele, acho que não teria feito nem metade do que consegui fazer. O Paulo já estava no nível gerencial quando entrei na Avon. Aí vieram as promoções e meu salário se aproximou do dele. Há um momento em que o homem começa a ficar um pouco inseguro, como se tivesse que ganhar mais sempre. Mas meu marido me apoiou o tempo todo, eventualmente cuidando do filho, ajudando no supermercado…

 Cristiane: Meu ex é uma das melhores pessoas que conheci na vida. O problema é que ele é um grande sonhador e eu sempre fui uma pessoa prática. A situação degringolou depois que fiz especialização em trauma de crânio nos Estados Unidos. Como é uma área que pouca gente estuda, na volta comecei a me projetar na profissão. Ele passou a implicar com o fato de eu trabalhar demais, e as coisas ficaram difíceis.

 Beth: Minha primeira separação tem uma história parecida: um marido sonhador, e eu numa situação de ascensão, inclusive salarial. Quando eu tinha uma reunião ou viagem, ele fazia um escândalo. A certa altura, precisei optar entre a relação amorosa e o trabalho. Escolhi o trabalho.

Rosi: Todas nós temos o sonho de encontrar uma pessoa que queira crescer com a gente, criar filhos. Mas isso é difícil. Muitos homens acham que a carreira deles vem em primeiro lugar. Se a mulher é forte e bem-sucedida, pensam: “Já não sou o primeiro na vida dela, tem a carreira”.

 Vânia: Sempre tive muito apoio. Este ano, pela primeira vez, não pude ir à festa de Dia das Mães da escola dos meus filhos. Meu marido me disse: “Não tem problema. Deixa que eu vou, mesmo que tenha que me vestir de mulher”. Era o único homem.

 CLAUDIA: Os filhos são os maiores afetados pela dedicação à carreira?

 Vânia: Os meus levam numa boa. Sabem que eu gosto do meu trabalho. Mas é claro que eu faço lição pelo telefone e o fim de semana é deles.

 Eneida: Uma vez disse para o meu filho: “Você gostaria que a mamãe parasse de trabalhar e ficasse com você em casa?” Ele tinha uns 12 anos e me respondeu: “Ficou louca? Imagine, o que você iria fazer aqui dentro?” É um menino ótimo, de cabeça boa, ajustado. Agora que está na Austrália, estudando, me preocupo com a solidão do meu marido. Trabalho até tarde e não estou em casa quando ele chega.

 Cristiane: Se meu filho me liga a qualquer momento e diz que precisa de mim, largo tudo na hora para atendê-lo. Ele sabe que é a coisa mais importante da minha vida.

 CLAUDIA: Se fosse preciso deixar cair um dos pratinhos que a gente equilibra – os filhos, o trabalho, o relacionamento amoroso e outros mais -, qual vocês escolheriam?

 Cristiane: Deixei cair o da relação. E hoje acho que foi uma coisa boa. Meu marido está melhor, encontrou seu espaço. E eu me vi inteira para cuidar do meu filho.

 Eneida: Para mim, é o do trabalho. Se acontecer alguma coisa com o atual emprego, arrumo outro. Com a família, é bem mais complicado. As pessoas acham que, quando atingimos um determinado patamar profissional, a carreira se torna tudo na vida. Não é verdade. Meu trabalho pode ou não durar muito tempo e, no final, quero olhar para trás e encontrar a família, os amigos, a saúde em dia.

 Beth: A família é importante, mas não posso dizer simplesmente que deixo cair o pratinho do trabalho. A empresa é minha. Vários empregos dependem de mim. Se eu fechar a porta, prejudico muita gente.

 Valéria: A escritora e feminista Rosiska Darcy de Oliveira afirmou certa vez que a mulher, ao entrar no mercado de trabalho, fez um acordo secreto: ao empregador, prometeu que ele não perceberia que ela tem família; à família, que nem sequer notariam que ela tem um emprego. Pelo visto, não é bem verdade…

 Vânia: Se for verdade, devemos virar esse jogo. As empresas precisam aceitar que a mulher tenha uma família e criar condições flexíveis para que ela cresça na carreira. A culpa também é das mulheres, que insistem em tentar se adaptar mesmo que a empresa não mostre nenhum jogo de cintura. Na minha, procuramos conciliar as coisas. Um dia, cheguei tarde para uma reunião com o presidente porque tinha ido à festa de final de ano dos meus filhos na escola. Todos estavam me esperando. Como sabiam o porquê do meu atraso, alguns tentaram fazer gracinhas. Cortei na hora: “Estou vindo da festinha das crianças”. Nos sentamos e a reunião começou.

 CLAUDIA: Vocês têm truques para afastar a solidão?

 Eneida: Mesmo que você não tenha tempo para sair, o que custa pegar o telefone e ligar para alguém? Ontem, fiquei uma hora e meia parada no trânsito. Liguei para minha mãe, falei com duas amigas… Não perco o contato com as pessoas.

 Beth: Não sou de sair com amigos, mas não esqueço aniversário de ninguém. Não deixo passar batido. Outra estratégia é sempre encontrar um tempo quando alguém me procura para conversar. Minha agenda pode estar cheia, mas paro e ouço.

 CLAUDIA: Que conselho vocês dariam às mulheres que estão batalhando para subir na carreira talvez sem imaginar que triunfo não é necessariamente sinônimo de bem-estar?

 Rosi: Acho que elas devem se valorizar e repetir sempre: “Eu mereço”.

 Vânia: Elas precisam acreditar em sua força interior.

 Beth: Tudo na vida tem seu ônus. Todas terão que fazer escolhas. Então, é pesar os prós e os contras e seguir em frente. Quando a gente muda de emprego para ganhar mais, não sabe se os novos colegas vão nos respeitar tanto quanto os do trabalho anterior. O importante é ter foco e saber o que se quer conquistar.

 Eneida: É isso. E não se sujeitar a situações que as façam infelizes só em nome da carreira ou do dinheiro.

 Cristiane: Só quero lembrar que sucesso na carreira não é sinônimo de felicidade. Você pode ter a admiração dos colegas e não ser feliz.





Afinal, até onde as mulheres querem chegar na carreira?

15 10 2009

O preço que estamos… ou não estamos dispostas a pagar pelo topo.

Por: Iracy Paulina.

Reportagem de Liliane Simeão, Revista Cláudia, outubro de 2005.

DBU011  Ótimos salários, cargos de prestígio, benefícios e.. muitas horas extras são os prêmios de algumas executivas. Boa parte das mulheres, porém, tende a repensar suas metas e não apenas por buscar uma rotina mais tranquila.

Um estudo da Catalyst, organização americana que faz pesquisas sobre a participação feminina no mercado de trabalho, mostrou que uma das pedras no caminho das mulheres rumo aos cargos de comando é a dificuldade encontrada para incorporar uma jornada muito extensa. Os pesquisadores chegaram a essa conclusão ao detectar que uma em cada três americanas com título em MBA não estava empregada em período integral, enquanto a proporção masculina era de um para 20. Com a experiência de quem já provou o gostinho do topo quando era presidente de uma indústria de embalagens metálicas, em São Paulo, a administradora de empresas Ana teresa Meireles, 45 anos, corre dessa tendência: sempre aceitou numa boa o trabalho em período integral. Messmo assim, ela resolveu dar uma guinada profissional. “Somos formados por várias facetas e, a cada momento, uma toma dianteira, ganha prioridade. Cumpri uma etapa importante e decidi que já era hora de ter mais liberdade de escolher os projetos que realmente queria tocar. A sabedoria está em não nos tornarmos refém de uma parte de nossas vidas, seja ela a carreira, os filhos, o casamento, o social, o status ou poder”, observa a administradora, que atualmente comanda a própria consultoria, a Focus.

Um executivo competente, segundo Ana teresa, não pode ser obsessivo, precisa ter uma mente aberta e receptiva. Ela cultiva o relacionamento com os amigos, viaja com a família de férias, dedica-se à corrida quase diariamente, curte os filmes que adora, saboreia a leitura de um bom livro, exercita o prazer da escrita. “Essas coisas são como alimentos vitais para mim”, explica Ana, que não se arrepende nem um pouco de ter deixado a presidência de uma grande empresa.

HOMENS SÃO MAIS COMPETITIVOS?

De acordo com uma pesquisa recente feita na Universidade de Pittsburgh, Estados Unidos, o apetite feminino pela competição é menor que o masculino. No experimento, homens e mulheres tinham que fazer o máximo de contas possível no prazo de cinco minutos. Os pesquisadores notaram que, mesmo se saindo bem sozinhas, elas evitaram as rodadas em que os grupos competiam entre si, o que não ocorria com os homens. Há quem defenda essa diferença seria inata e explicaria o fato de eles encararem a hierarquia corporativa como um ringue de luta, enquanto nós pisaríamos mais manso nesse terreno. Para a socióloga Clara Araújo, da Universidade Estadual do RJ, isso é bobagem. “As diferenças de expectativa são fruto da socialização. Com o avanço feminino no mercado de trabalho, mulheres bem sucedidas provavelmente são tão ambiciosas quanto os homens.”

Como gerente de RH da América Latina da unidade de negócios Health-care da General Eletric, a psicóloga Sandra Rodrigues, 39 anos, acredita que já chegou onde desejava. “Poderia ir mais longe, pois tenho talento e a GE investe nos colaboradores”, diz. Não faltaram oportunidades. A última aconteceu meses atrás, quando foi convidada a participar de um processo seletivo dentro da própria GE. “Teria que ficar muito tempo fora do Brasil”, explica. Estava aí um ônus com o qual ela não se dispunha a arcar. Desarranjaria toda a vida doméstica. “Quero acompanhar o desenvolvimento dos meus filhos. Por isso, não aceitaria um cargo que implicasse um volume muito grande de viagens, reuniões e encontros de negócios, restringindo assim os momentos de convivência com as crianças.” No atual posto desde 1999, ela chega a trablhar por volta das 9 horas, porque faz questão de tomar café da manhã todos os dias com os pequenos. Não sai depois das 8 da noite, por acreditar que o excesso de carga horária prejudica o rendimento. Quando é possível, nem vai à empresa, já que montou um home office e resolve os problemas em casa. Mas é sobretudo a sua função que a faz feliz. “Gosto de ajudar as pessoas a crescer, indicando cursos e orientando sobre posturas.”

Claro que existem muitas mulheres que entraram para valer na batalha pela liderança, como demonstra um levantamento feito desde 1994 pelo Grupo Catho, consultoria em RH de São Paulo. No primeiro ano da pesquisa, o porcentual de mulheres ocupando o topo da hierarquia nas empresas era de apenas 8% – número que dobrou em uma década. O mesmo estudo mostra, porém, que elas têm suas preferências: o último levantamento apontou que as áreas com maior número de executivas são as de recursos humanos (62%), relações públicas (57%) e administração (39%). Já aquelas que menos atraem as mulheres são as de processamento de dados (16%) e a industrial/engenharia (12%).

Postos avançados – Pesquisa do GRupo Catho, feita entre 2004/2005, mostra o porcentual de executivas em cargos-chave de 60 mil empresas:

Vice-presidente: 15%

Presidente: 16%

Diretoria: 21%

Gerente: 25%

Chefe: 34%

Supervisora: 37%

Coordenadora: 47%

Empregada: 48%





Ficar em casa ou romper a casca?

5 10 2009

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Por Liane Alves. Revista Vida Simples, Março de 2006.

É um fenômeno mundial: cada vez mais os filhos prolongam sua estada na casa dos pais, desfrutando de benesses como carinho e apoio quase inesgotáveis, liberdade, a comidinha predileta e outros confortos. Os pais parecem aceitar essa adolescência quase perpétua numa boa e, em muitos casos, estimulam a permanência dos filhos em casa até como uma estratégia para enfrentar o próprio envelhecimento. Mas há muita gente se perguntando se essa realidade é apenas mais uma faceta de um mundo em que os valores estão mudando rapidamente ou se há efetivamente algo de negativo nisso. Por isso, pais e filhos, leiam com carinho esta matéria. E experimentem, nem que seja por alguns momentos, trocar de papel e imaginar o que sente e pensa cada lado dessa história devidamente apresentada para filhos e pais abaixo.

A história dos filhos
A cosquinha que dá vontade de sair de casa já começou? Pode ser até que ela já tenha dado um pouco antes, ao sair da faculdade, aos 22 anos, ou quem sabe quando seus irmãos se casaram e você ficou para trás, aos 25, ou quando um amigo ou amiga o convidou para morar junto, aos 27. Mas parecia muito cedo ainda. Nesses momentos de dúvida, você olhou para seus pais, viu que ainda era muito ligado a eles, que gostava do conforto do seu quarto, que tinha muita liberdade e, principalmente, que a vida lá fora seria dureza. E não saiu. Não precisa se martirizar por isso: saiba que você está em ótima companhia. Filhos que ficam mais tempo em casa, até os 28, 30 ou 32 anos (se não for mais), transformaram-se num fenômeno recente, observado não só na classe média do Brasil como em vários países do mundo é a chamada geração canguru. Na Itália, por exemplo, filhos como você ficaram conhecidos como mammone (palavra que vem de mamma, a soberana mãe italiana que adora ter seus rebentos na barra da saia). Na França, o pessoal anda ficando mais com os pais porque os empregos também estão difíceis por lá. No Brasil, segundo o levantamento feito pelo geógrafo Arlindo Mello para sua tese de mestrado na Escola Nacional de Estatísticas do Rio de Janeiro, 25% por cento dos filhos que ainda moram na casa dos pais na Cidade Maravilhosa têm mais de 30 anos. É gente pra burro. Embora esse universo ainda não seja quantificado com a devida exatidão (segundo o IBGE, os jovens brasileiros que caem na vida mais cedo ainda são a maioria), a dificuldade para sobreviver e as facilidades dadas pelos pais andam conservando muita gente em casa. Portanto, você não é uma exceção isolada: muitas famílias estão mesmo abraçando seus filhos por mais tempo.

O mercado imobiliário, por exemplo, já detectou a mudança. Os enormes apartamentos com quatro suítes e cinco garagens ou os flats que se intercomunicam muitas vezes são vendidos para casais de alta renda com filhos adultos. Os proprietários mais velhos que têm apartamentos grandes não estão se desfazendo mais deles para ir para um menor. Ou os filhos ficaram com eles ou, se saíram, podem voltar, afirma Ely Whertheim, vice-presidente imobiliário do Sindicato das Construtoras de São Paulo (SindusCon-SP).

Fátima Fachin sabe muito bem disso. Aos 28 anos ela viu, abismada, seu pai comprar um apartamento com três suítes quando ela estava prestes a sair de casa para se casar, dois anos depois de sua irmã mais nova. Fátima questionou a decisão. E o pai respondeu na lata: Dou um prazo de carência de cinco anos para o casamento de vocês duas. Se der errado, estou esperando vocês aqui com sua mãe. Se não der, vendo o apartamento, compro um veleiro e vou para a Martinica. A Martinica, para o pai de Fátima, é a imagem de uma utopia, uma Pasárgada. Ele decidiu adiar seu sonho idílico por desconfiar da durabilidade do casamento de hoje e também por achá-las incapazes de sobreviver sozinhas, a partir mesmo de suas escolhas profissionais (música e artes plásticas). Pode ser pragmático, até generoso, mas, puxa, não dá para controlar a vida assim…, diz Fátima.

Luciana Alves Pereira é outra moça de 28 anos que desfrutava de um ambiente e tanto com a família. Filha de pai arquiteto, morava numa casa belíssima de madeira e vidro, fotografada por várias revistas de arquitetura. Mas, no fim do ano passado, começou a sentir que seu prazo de validade por lá já estava expirando. Por ser muito amiga e próxima dos pais, foi duro convencêlos de que queria deixá-los para experimentar a grande aventura da vida independente. Mas o destino ajudou: De repente, vi que se havia formado uma brecha em que eles não precisavam tanto mais de mim. Minha mãe estava bem, meu pai também e minha irmã já estava casada. Se não aproveitasse aquele momento em que tudo fluía, acho que depois ficaria muito difícil. Na sua decisão, está embutida bastante responsabilidade. Saí porque estava ganhando o suficiente para alugar um apartamento de quarto e sala no centro. Não tem sentido viver sozinha e esperar que pai e mãe ajudem a cobrir o cartão de crédito, diz a ajuizada Luciana. Também se sentiu feliz porque não precisou sair de casa por causa de namorado. A gente é de uma geração acostumada a zapear no controle remoto da televisão. Imagine se saísse por causa de alguém e não desse certo. Teria de voltar para casa com um gosto de fracasso na boca, com a sensação de que não conseguia sobreviver sozinha. Mesmo tendo a certeza de que pai e mãe a receberiam de braços abertos.

A história de Luciana mostra que a casa dos pais certamente estará aberta quando você precisar (ufa!). A psicóloga Lidia Aratangy, por exemplo, viu sua filha voltar com duas crianças pequenas após a moça ficar viúva com apenas 30 anos. Garanti que ela teria nosso apoio para o tempo que fosse necessário. No caso dela, isso durou um ano e meio. Mas minha filha sabia que ficar conosco era uma solução provisória, paliativa, afirma a psicóloga. Um tempo até ela poder se arrumar de novo na vida. Mesmo quando saem com menos idade, muitos jovens ainda conservam uma parte do seu ninho com os pais. É o caso do administrador de empresas Paulo Henrique (que pediu para ter o nome trocado nesta reportagem), 25 anos, que responde por um cargo de chefia numa multinacional da indústria química de São Paulo. Aluno brilhante e responsável, veio de Belo Horizonte aos 18 anos para estudar na capital paulista. Seus parcos recursos para se manter, porém, o fizeram morar em todos os ambientes possíveis.

Mesmo no último ano, já formado, trocou oito vezes de endereço, na maioria das vezes nada recomendáveis. É famoso entre os amigos como Mister Pig (ou Senhor Porco), numa alusão à infinidade de muquifos (também conhecidos como cabeça-de-porco) em que teve de morar em São Paulo. Só agora, num bom emprego e ganhando bem, Paulo decidiu se estabelecer. Mas quem vê seu desembaraço e independência como profissional nem desconfia que quase todo fim de semana ele arruma sua malinha e vai para Belo Horizonte para ver seus pais e ter a roupa lavada. De quebra, ainda volta com um a quentinha com aquela comida que só a mamãe sabe fazer.

Então, como você vê, existem dos acomodados aos que só querem uma força da família para cumprir seu projeto de vida. Aliás, essa é a grande pergunta que você deve fazer a si mesmo quando começar a coceirinha de querer sair de casa. Saber qual é seu projeto de vida esclarece a situação. Querer ficar na casa dos pais para fazer um mestrado ou curso de especialização para ter melhores chances no mercado de trabalho é uma coisa. Ficar porque tem certeza de que seu padrão de vida vai abaixar quando começar a pagar suas próprias contas é outra, diz a psicóloga Lidia Aratangy, que aconselha, inclusive, os pais a sentarem com seus filhos e perguntarem bem claramente o que eles pretendem fazer de suas vidas. Autora de livros sobre a relação de pais e filhos, Lidia, que já é avó, perturba-se com a infantilização exagerada dos jovens adultos de hoje. A infantilização começa cedo. Aos 12 anos, por exemplo, os adolescentes de hoje lêem as Aventuras do Capitão Cueca, um livro quase infantil. No meu tempo, a gente lia Erico Verissimo e boa literatura adulta. Isso faz diferença mais tarde, diz Lidia. Uma das razões para isso ocorrer talvez seja o excesso de mimos dos pais, que infantilizam os adolescentes e os deixam pouco tolerantes às frustrações como as crianças. Acontece que uma boa relação com as próprias frustrações é um dos alicerces da maturidade. Nesse caso, então, o que fazer? Terapia é bom. Mas também vôos rasos, curtos, só para sentir qual é sua autonomia. Que tal passar um tempo na casa de uma irmã? Ou de um amigo? Mesmo que o desempenho não seja muito bom, não desanime. Aprender é o maior capacidade do ser humano. A gente pode ir para a nova casa não sabendo fritar um ovo, sim. Os primeiros podem sair queimadinhos, mas depois a gente aprende, lembra a advogada Sueli Nunes, que saiu de casa aos 30 anos sem saber cozinhar, passar roupa ou limpar banheiro. Em seis meses de tentativas, já rodopiava pelo seu apartamento de lencinho na cabeça como uma borboleta feliz.

Além dos mimos, a sedução e a chantagem emocional dos pais podem gerar um aumento no tempo de estadia dos filhos. Quando eles ameaçam abrir as asas, chega uma passagem de avião para longe. Quando tentam de novo, uma fragilidade súbita de um dos genitores estanca o processo. Mas dá para saber quando é fita ou suborno,garante a dentista paulista Caritas Marcondes, que tentou sair de casa quatro vezes antes de conseguir realizar a proeza. Na verdade, a descoberta da mentira e da manipulação ajuda muito a concretizar a decisão de partir.

E, se você não quiser sair de casa, pergunte-se sinceramente por quê. Pode ser que realmente esse não seja o momento de sair. Por mil motivos que só você tem condições de descobrir. De qualquer forma, o autoconhecimento sempre vai colocar mais luz na situação. Até você conseguir resolvê-la um dia.

Isso posto, boa sorte. Mas antes leia abaixo “A história dos pais” para entender melhor o que passa na cabeça deles.

Demorô!
Planeje sua saída. Sente, faça contas, calcule seus gastos.
Tenha um dinheiro reservado para os primeiros meses.
Visite o apê que possa pagar até encontrar um de que goste.
Converse com quem já saiu e aprenda com suas experiências.
Fale francamente com seus pais e resista às seduções.
Estabeleça um prazo razoável para a saída.
Saiba antes a quem recorrer se precisar de algum dinheiro.
Decidida a questão, alugado o apê, vá em frente.
Tenha um plano B na manga (que não inclua a volta à casa dos pais).

A história dos pais

Lembra aquela vontade de sair de casa, arriscar o pescoço, meter os peitos, enfrentar desafios e cair na estrada com uma calça velha azul e desbotada? Pois é, parece não existir mais. Ou, se existe, não é bem assim. Calça desbotada ainda pode ser, mas hoje a passagem de avião dos filhos tem ida e volta bem definidas, com certeza com o mesmo endereço da hora da partida: a casa dos pais. Passar dificuldades e perrengues, vamos ser sinceros, em nome do quê? Independência? Liberdade? Bens materiais? É o que mais eles têm em casa. Porta do quarto fechada, vale tudo, ou quase tudo, desde que não se acordem os vizinhos ou prejudique a saúde, é claro. Com a vantagem de não ter de pagar pela roupa limpinha, pelo canelone de ricota e, muitas vezes, nem pela conta do celular.

Não há como negar: seus filhos gostam do ninho, da plumagem macia que você deu para eles, que os defende em parte de uma vida mais competitiva, insegura e com um número bem menor de oportunidades do que você próprio teve. Além disso, confesse, é gostoso ver as crianças ainda por perto, mesmo que elas já sejam bem grandinhas. Você se delicia com suas aventuras o namorado, a namorada, aquela viagem maluca nos Andes, as histórias dos amigos, os desafios do início da vida profissional… A presença deles traz vida, frescor, um certo encanto, a juventude que todos nós tanto amamos. Não é para se envergonhar,portanto. Os filhos ficam mais tempo em casa porque a vida mudou. E muito. Em primeiro lugar, ela esticou temos mais tempo para viver e, com isso, as fases da vida também se alongaram. A expectativa de vida hoje no Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de quase 72 anos. Casa-se mais tarde também, um ano a mais, em média, do que quando você era jovem, se estiver na casa dos 50. A adolescência tornou-se compridíssima. No seu tempo, dizia-se que ela ia dos 13 até os 18, vá lá,19 anos. Isto é, um adolescente (teenager, em inglês) estava no período de vida que vai dos thirteen (13) aos nineteen (19). Ao se completarem 20 anos, mudava-se de década e status o adolescente passava a ser um jovem adulto.

A própria lei brasileira considera que, aos 18 anos, uma pessoa já é plenamente responsável por seus atos. Mas certamente não pela sua sobrevivência, como se sabe. Com essa idade, um jovem (da classe média, pelo menos) ainda está no primeiro ou segundo ano da faculdade, com pouquíssimas chances de emprego e auto-suficiência. Também não pensa seriamente em se casar, em ter uma casa e filhos, em se tornar responsável por uma família, condição que atestaria sua maturidade psicológica e autonomia na sociedade. Enfim, é adulto mas naquelas, né?

A adolescência tornou-se tão longa que a psicóloga carioca Tânia Zagury dedicou um livro inteiro, Encurtando a Adolescência, a esse assunto. Hoje, considera-se que a adolescência começa bem antes, já com uns 11 anos e alonga-se até um período indeterminado, que pode ir até a casa dos 20: 22, 23, 24 anos, sabe Deus quando. Essa visão, que vem dos próprios jovens com relação a eles mesmos, foi detectada pelo psicólogo paulista Yves de la Taille, autor do livro Labirintos da Moral, que assina junto com o educador Mário Sérgio Cortella. Diante do olhar estupefato do professor, todos os alunos do quarto ano de psicologia da USP, gente dos seus 23, 24 anos, levantaram a mão quando perguntados se consideravam a si próprios como adolescentes. Acreditam nisso porque certamente não têm autonomia. Podem ter independência na casa dos pais, total liberdade de ir e vir, mas não têm auto-suficiência, diz. Esse é, segundo Yves de la Taille, o grande fator que separa sua geração da de seus filhos: a capacidade de ficar em pé nas próprias pernas vinha mais cedo e era muito desejada. Havia um certo brio em sair de casa, manter-se sozinho, enfrentar a vida para ter independência e vida própria. Esse orgulho vinha do clima cultural vigente: ao sair de casa, rompiam-se as amarras com um sistema familiar duramente contestado e abriam-se caminhos para novas formas de viver em sociedade. Para a turbulenta geração dos anos 60 e 70, independência rimava com honra. Inaugurou- se uma outra época: os ídolos dos jovens passaram a ser os próprios jovens, com sua rebeldia e amor pela liberdade. Antes, os ídolos dos jovens eram seus próprios pais, afirma De la Taille.

Mudança brutal. A juventude, com sua beleza e ímpeto de vida, tornou-se o mais desejado dos bens. Por isso, os filhos de hoje querem permanecer adolescentes até a última ponta. E os pais também. Pensem bem: ter os filhos por perto, como se fossem crianças, pode aumentar, e muito, a ilusão de eterna juventude. E adiar o momento de se reestruturar um casamento, de se perguntar o que realmente gosta de fazer na vida, procurar projetos que incluam a realização pessoal. Reencontrar a própria individualidade, depois de tantos anos se dedicando a ajudar a formar a identidade dos filhos, pode ser um processo doloroso. Além de ser uma maneira inconsciente e engenhosa de não enfrentar a própria idade e, com isso, a proximidade da etapa final da existência (que também se alongou e tornou-se mais prazerosa e criativa, ainda bem).

Sábios são os indianos, que, encerrada a vida produtiva, de exercício profissional e criação de filhos, iniciam outra etapa completamente diferente, consagrada ao autoconhecimento e aperfeiçoamento interior. Fazem retiros, peregrinações espirituais, vão atrás de mestres ou se tornam um deles. Mesmo no Ocidente, onde a procura espiritual não parece ser tão visceral e profunda, muitos pais que soltaram seus filhos para o mundo tiveram a oportunidade de experimentar o que sempre gostariam de fazer e nunca haviam conseguido: viajar, ensaiar uma atividade artística ou literária (pintar, esculpir, tocar um instrumento, escrever), fazer cursos livres, entrar numa nova faculdade para depois, quem sabe, dar aulas ou dedicar-se a uma atividade voluntária. Os pais podem, numa imagem bem prosaica, voltar a comer a coxinha do frango, depois de tantos anos tendo deixado essa parte saborosa para os filhos durante as refeições.

Os 50, 60 e 70 anos, então, podem se tornar um rico período de busca de realização. E por que não? de felicidade. Aos 57 anos, Blanca Suarez, por exemplo, que durante mais de dez anos foi relações-públicas da Maison de la France, órgão oficial do turismo francês no Brasil, abandonou a idéia de continuar nesse ramo de atividade para se dedicar à paixão de sua vida: os animais. Inscreveu- se como voluntária numa ONG,a Arca, que acolhe animais enjeitados, e, por enquanto, não pensa em voltar ao circuito de eventos, festas e viagens. Conquistei o direito de fazer só o que meu coração diz. Mãe de um médico veterinário de 25 anos que tem mais quatro anos de mestrado e doutorado pela frente e que ainda mora em sua casa, ela não esperou para conquistar o espaço próprio. Estou me preparando para quando ele for embora.

Por isso, tranqüilize-se, não é errado ter os filhos por perto, se realmente há necessidade disso e se você não se torna dependente da lufada de oxigênio que eles trazem para casa, tentando segurá-los com mimos ou chantagens emocionais. A história só fica meio esquisita quando não há essa precisão e há um certo comodismo por parte deles, uma espécie de pânico de enfrentar a vida e passar pelas eventuais dificuldades que irão se apresentar no caminho. Porque é claro que será diferente. Essa geração ama o conforto tanto quanto a geração passada gostava da liberdade. Mas o ser humano precisa de riscos e desafios para crescer, afirma Yves de la Taille. Enfim, precisa quebrar a cara às vezes. Filhotes são mesmo para sair do ninho, ainda que isso custe um pouquinho mais.

Você mesmo desempenhou o seu papel nessa mudança rumo a uma vida mais protegida. De peito aberto, sua geração ajudou a destruir convenções, balançar a moral estabelecida e dar uma sacudida geral nas ideologias. Foram derrubados os muros que bloqueavam a estrada e agora seus filhos passeiam por ela sobre asfalto macio. Eles têm mais tempo para aprender, mais abertura para viver e, de certa maneira,muito mais facilidades. Têm, em suma, acesso a informações e experiências quase inimagináveis em seu tempo. Por motivos diferentes (e são muitos, não tenha dúvida), sorte sua por ter vivido sua época. Sorte dos seus filhos por viverem a deles.

Agora, com o coração mais pacificado, leia o que acontece com seus filhos. Leia e reflita. E descubra, nele e em você, se há uma necessidade de mudança.

Chegou a hora?
Lembre-se sempre: seu filho já é um adulto.
Mesmo que não precise, faça questão de que ele ajude em casa.
Estabeleça com nitidez as responsabilidades dele.
Deixe claras as conseqüências do não cumprimento dessas regras.
Se ele pensar em sair, procure ajudá-lo no que for possível.
Não use suas dificuldades para mantê-lo em casa.
Se ele deseja ficar para ajudá-lo por alguma razão, reflita bem.
Procure retomar sua própria individualidade.
Inaugure uma fase de realização de sonhos e busca espiritual.

PARA SABER MAIS

LIVROS
Encurtando a Adolescência, Tânia Zagury,  Ed. Record.
Livro dos Avós, Lidia Aratangy e Leonardo Posternak, Ed. Artemeios.
Pais que Educam Filhos que Educam Pais, Lidia Aratangy, Ed. Celebrist. 





Equilíbrio entre tempo e dinheiro

22 09 2009
Equilíbrio entre tempo e dinheiro sustenta o ciclo da prosperidade
Seg, 21 Set, 18h00

SÃO PAULO – De acordo com o especialista em administração de tempo e produtividade, Christian Barbosa, a vida acontece em “ciclos pessoais”, marcados pela forma como as pessoas escolhem e decidem levar suas rotinas, conseguindo acumular riqueza ou não.

“Esses ciclos se equiparam à imagem de uma espiral, como um amortecedor de carro, que pode ser ascendente, descendente ou contínua no mesmo ponto”, explicou Barbosa.

O ciclo da prosperidade (ascendente) é aquele em que as pessoas dão resultados e sabem como usar bem o tempo. “Elas conseguem fazer o dinheiro render e aumentar, usam técnicas de planejamento para tempo e finanças e vivem de forma sustentável em todos os seus papéis”.

Quando a situação piora

Um outro ciclo é o da sobrevivência (contínuo no mesmo ponto), quando a pessoa não perde riqueza, mas também não acumula. Nesta situação, a pessoa se conforma apenas em sobreviver, tendo dinheiro suficiente para pagar suas contas e permanecer no mesmo ponto de sua carreira. O tempo, para elas, também é mal utilizado na maioria das vezes.

Pior do que essas pessoas, por sua vez, estão aquelas no ciclo da frustração (descendente). “Engloba as pessoas que não conseguem ter tempo para o que gostam, vivem cheias de problemas financeiros, pagam juros aos bancos, estão atrasadas em suas atividades e o estresse configura-se como parte integrante da vida”, ressaltou Barbosa.

Para conseguir se manter no ciclo da prosperidade, Barbosa indicou que a pessoa faça uma autoanálise com o intuito de descobrir em que fase da vida se encontra.

Relação tempo e dinheiro

Além disso, é preciso encontrar a sinergia entre tempo e dinheiro, já que dificilmente uma pessoa conseguirá ter um sem o outro de forma equilibrada.

“Ou seja, para aproveitar o seu dinheiro, você precisa de tempo; e para gozar as suas horas livres, você necessita de recursos financeiros. Isso não significa a conquista de um sonho utópico ou ganhar na loteria, mas aprender a usar esses dois pontos fundamentais de maneira que gerem prosperidade, independentemente da quantidade possuída de cada um deles atualmente”.

Fonte: Finanças pessoais – Yahoo.com.br





O novo super-homem

18 09 2009

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O modelo masculino mudou, diversificou-se e ganhou novos papéis…

Por: Roger Schlegel

Foto: Ivan Shupikov

Primeiro encontro. Ela sugere um restaurante. Alguns drinques antes do jantar quebram o gelo. Na mesa, o prato de entrada é delicado, ela adora. O principal está no ponto. O vinho é divino e eles pedem outra garrafa. A sobremesa adoça o encontro. O café os ajuda a se manter atentos um ao outro. E o licor deixa um gosto de promessa no ar. Eles decidem ir a outro lugar mais tranqüilo. Ele pede a conta. A nota chega e ele se esforça para manter o rosto calmo, mas o valor é mais do que ele pode pagar. De repente, lembra-se dos gastos extras que teve com a ex-mulher, o carro e o conserto do banheiro. O que ele faz? a) Decide fazer um empréstimo no dia seguinte e paga a conta; b) Pede ajuda a ela para pagar a despesa; c) Paga metade e entrega a conta a ela; d) Entrega a conta toda para ela pagar; e) Fica paralisado, sem saber o que fazer.

Está difícil ser homem hoje em dia. São cada vez mais comuns situações como a descrita acima, em que os homens já não sabem como agir. O velho modelo dos nossos pais e avós já não serve mais, mas também não está sepultado. Continua por aí, nos assombrando. E, se há alguma certeza entre os estudiosos do assunto, é que o papel masculino está em transição, ou melhor, em multiplicação, pois agora não se pensa mais em um papel masculino, mas em papéis masculinos. Assim, no plural.

Mas, como toda transição, os novos tempos trazem oportunidades para quem encará-los com tranqüilidade. O papel de machão tinha seu lado confortável, porque era bom dominar, mas obrigava o homem a se fingir de Super-Homem, sem fragilidades ou contato com suas emoções. E tem coisa melhor do que chorar quando se está triste, dividir o sustento da casa e compartilhar decisões importantes? Para quem não tem superpoderes, nada mais confortável do que tirar a fantasia e viver feliz como Clark Kent.

Mudança forçada

Foi nas últimas três ou quatro décadas que o papel do homem mudou de maneira radical. O avô da gente sabia que não podia chorar ou mostrar sentimentos. Bonito era ser durão, agressivo, até. E trazer para casa o pão de cada dia, pois não ficava bem mulher trabalhar fora. Quem cuidava dele, da roupa passada ao zelo com a saúde, era a patroa. Natural: homem não prestava atenção nessas coisas. Sujeito muito vaidoso era maricas.

Todo mundo sabe que esses valores mudaram, mas não pense que foi porque o homem quis. Pelo contrário. Muitos quiseram resistir, mas não tiveram escolha, porque a mudança foi social. Os papéis de homem e mulher estão mudando desde a Revolução Industrial, no século 18, quando as máquinas facilitaram ou substituíram o trabalho humano. Não era preciso ser um Hércules para apertar botões, e a força bruta masculina, que por séculos foi o centro de seu papel, perdeu importância até chegarmos ao mundo de hoje, em que o trabalho intelectual é disparado o mais reconhecido. Outras revoluções acompanharam essa mudança. As mulheres saíram para o trabalho, ganharam salário, viraram consumidoras com voz própria e geraram negócios. De repente, elas tinham opinião e podiam até casar com quem quisessem. E ai do homem que ficasse em seu caminho. Mas tudo isso já é história.

A novidade é que o feminismo obrigou o homem a se questionar, e as questões não têm fim. Como se relacionar com essa nova mulher vencedora? Que lugar devem ter na vida do homem o trabalho, a família, o amor? Homem pode trair? Menino também chora? É o marido que tem de levar o carro ao mecânico e trocar lâmpadas? Ele tem de ganhar mais do que a esposa? Pode mostrar insegurança? E o que fazer com a conta do restaurante?

Seu pai tinha lá suas respostas para essas perguntas, mas as explicações dele não servem para você. Na falta de um modelo claro de homem no qual devemos nos espelhar, a geração que tem hoje entre, digamos, 20 e 50 anos está enfrentando o desafio de reinventar a masculinidade. É dose para leão – para usar uma expressão do vovô (aliás, alguém ainda se lembra do leão, esse bicho machista e fora de moda que era o rei dos animais?).

Busca de novos padrões

É difícil definir novos padrões capazes de deixar o homem atual à vontade. Mesmo inconscientemente, somos assombrados por comportamentos machistas. Até no caso daqueles que se julgam bem resolvidos. Não é uma cena incomum: o casal chega à noite do trabalho e o moderninho diz que vai ver o noticiário ou o começo do jogo – deixando para ela o preparo do jantar. Outro diz que dedica um bom tempo aos filhos, mas em geral é no lazer. As obrigações sobram para a mulher. Na separação, ele jamais cogitaria sinceramente ficar com as crianças. Pois é…

“Há muita propaganda enganosa sobre esse tal de novo homem”, avalia o psicólogo Bernardo Jablonski, professor da PUC do Rio. “O homem tem uma opinião liberal em relação às mulheres e aos papéis, mas na prática ainda se comporta mais como seu pai ou seu avô”, diz. Pode até ajudar nas tarefas domésticas, mas a própria expressão “ajudar” já pressupõe que esse trabalho não é sua responsabilidade. “As mulheres reclamam muito, mas compactuam com isso”, diz Jablonski. Natural. A transformação de um hábito é lenta. O homem muda, mas não na velocidade que ele – e, mais ainda, a mulher – gostaria. Além disso, é preciso estar atento à educação que se dá aos filhos. O professor da PUC acredita que mesmo as atuais gerações de homens urbanos são educadas para terem atitudes conservadoras. Os garotos são ensinados a separar sexo de afeto, o que não acontece com as garotas, por exemplo.

A saída para a encruzilhada masculina não é fácil, porque não basta negar tudo o que o homem machista fazia para se chegar a um novo modelo ideal. Isso serve, no máximo, de ponto de partida. Quer ver? Peguemos um consenso sobre o novo homem: ele não deve esconder suas emoções nem se negar a discutir seus sentimentos. Todo mundo de acordo, certo? E se o diretor chorar numa reunião, ao não saber responder a uma questão do presidente? Não pode, né? Nem que fosse mulher. No trabalho, tem que ser profissional. Então, vamos refazer. Fica assim: o homem não deve esconder seus sentimentos das pessoas de que gosta. Aí o sujeito vira para a esposa e diz, com o coração aberto: “Para mim é indiferente a maneira como você corta seu cabelo”. Piorou. Digamos então que “o homem não deve esconder seus sentimentos das pessoas de que gosta, desde que sua exposição não as magoe gratuitamente”. Talvez tenhamos que melhorar isso aí, mas já começa a complicar, né? E isso faz pensar: é razoável esperar que homens e mulheres entendam e respondam a todos os anseios uns dos outros? Homens podem pensar como mulheres e vice-versa? Homens e mulheres são diferentes

Marcianos e venusianas

Mesmo entre estudiosos do assunto, a resposta a essas perguntas depende do interlocutor. Na psicanálise, por exemplo, há quem acredite que as diferenças que enxergamos foram inventadas numa espécie de delírio coletivo, porque ser homem ou mulher não é o mais importante para definir quem somos. Já para a biologia, as diferenças são claras, e as pesquisas científicas trazem mais e mais detalhes sobre elas. Mas, embora as descobertas sejam interessantes, a capacidade dessa ciência para explicar os papéis sociais é limitada.

As pesquisas mais curiosas nessa área tratam do funcionamento do cérebro. O filósofo social e terapeuta familiar Michael Gurian, autor de livros sobre o assunto, acredita que os cérebros masculino e feminino têm características próprias. Ao longo de milhões de anos, o cérebro do homem esteve voltado para a caça e a construção, privilegiando as habilidades espaciais complexas. Por isso é mais fácil para ele medir, distribuir e manipular objetos, por exemplo. Em compensação, essas funções deixaram menos áreas cerebrais para o uso e a produção de palavras – um ponto forte das mulheres. Elas têm áreas dedicadas à linguagem nas duas metades do cérebro, enquanto eles só as têm em um dos hemisférios cerebrais, o esquerdo. Isso, dizem os biólogos, poderia explicar por que os homens tendem a agir primeiro e perguntar depois. O jeito mais meigo das mulheres e mais enérgico dos homens também poderia ser explicado por diferenças biológicas, sustenta Gurian (leia quadro na página 28).

Estuda-se também o comportamento e as atitudes dele e dela. “Homens e mulheres diferem em todas as áreas de suas vidas”, sustenta John Gray, autor de Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus, um best seller dos anos 90. Na sua avaliação, os dois “pensam, sentem, percebem, reagem, respondem, amam, precisam e apreciam diferentemente” – daí a definição de que é como se tivessem vindo de planetas diferentes. Gray acredita que a base de muitos problemas de relacionamento é o fato de homens e mulheres se esquecerem de que são bem diferentes. Eles esperam que as mulheres reajam como homens e elas esperam que os homens reajam como mulheres. Nada mais equivocado, sustenta Gray, depois de analisar questionários de mais de 25 mil pessoas e conversar com outros milhares.

Ele chegou a generalizações que, claro, não servem para encaixar o comportamento de todo mundo. Afinal, muitos homens também têm características femininas e vice-versa. Mas quer ver como as generalizações espelham atitudes de homens e mulheres que você conhece? Eles, os marcianos, não tendem a valorizar o poder, a competência e a eficiência? E as venusianas, elas não valorizam o amor, a comunicação, a beleza e os relacionamentos? Gray também sustenta, veja só, que as mulheres, quando têm um problema, querem falar sobre ele e precisam ser ouvidas com atenção para se sentirem apoiadas. Os homens, imagine, preferem se fechar até chegarem a algo que pareça uma solução. E ai daquela que der um conselho sem ter sido consultada! (Identificou-se? Leia outros exemplos no quadro na pág. 24.)

A masculinidade é tão complicada que merecia uma ciência nova. E não é que ela existe? É o masculismo, cuja principal indagação é “o que é ser homem?”. “O masculismo procura enxergar o homem como um todo, para redefini-lo”, afirma o psiquiatra Luiz Cuschnir, que trouxe para o Brasil o termo masculismo e é autor de sete livros sobre os papéis do homem e sua relação com as mulheres. Cuschnir coordena grupos de gênero no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, nos quais homens falam sobre suas vivências e angústias. Com base em sua experiência de 30 anos, o psiquiatra vê um avanço claro dos homens, que questionaram e ampliaram seus limites e saíram da estagnação para uma posição criativa. “Para chegarmos a novos papéis nos quais nos sintamos confortáveis, é preciso um aprendizado”, avalia Cuschnir, que não arrisca um prazo para que isso aconteça.

Na verdade, pouco importa. A mudança é um fato e, entre os problemas que ela pode trazer, os piores estão reservados a quem tentar parar o bonde da história. “Os homens e as mulheres que não quiserem ser atropelados deverão praticar a arte de seguir em frente sem mapas e modelos que predeterminem suas escolhas. A razão é simples: esses mapas e modelos não existem”, diz George Barcat, filósofo da Associação Palas Athena, de São Paulo. “A personalidade não é um dado, é fruto de um processo de criação de si mesmo.” O conselho é: não resista. Em vez disso, que tal atentar para as oportunidades que esse homem traz?

O direito de sentir

Já há conquistas para comemorar. Antes, os medos e fraquezas do homem eram inconfessáveis. Desde pequeno, ele aprendeu a segurar o choro cada vez que caía no chão. E achava que era o único responsável pelo bem-estar material e pela felicidade da esposa e dos filhos, tudo isso sem pedir ajuda para ninguém. Ele tinha que tomar decisões sozinho, quase sem compartilhar. Em resumo, o homem vivia a ilusão de que ter poder levaria à felicidade, uma fantasia perigosa que o levou a uma vida emocional desértica e a um infarto prematuro (na maioria das sociedades os homens vivem em média menos que a mulher, e isso não é genético).

Mas isso está mudando. Aos poucos, o homem se sente mais à vontade para entrar em contato com seus sentimentos e expressá-los, o que contribui para destrinchar seus problemas emocionais e fazê-lo mais feliz. Mas ainda há um longo caminho a percorrer.

É verdade que confessar medos e fracassos a um amigo, algo impensável há algumas gerações, já é coisa normal. Mas chorar diante do mesmo amigo, por amor ou algo que possa expressar fraqueza pessoal, ainda é um tabu no caminho da felicidade. E muitos homens ainda resistem à idéia de buscar ajuda com psicoterapia ou outras formas de equilíbrio, como yoga. A eles, o conselho dos especialistas: o mundo mudou. Não é vergonha pedir ajuda.

Esse caminho promete ainda mais satisfação. Luiz Cuschnir diz que o homem tem uma vida emocional tão rica quanto a mulher, mas é mais restritivo na comunicação dos sentimentos. “Isso se deve ao aprendizado por que passou na sociedade e na cultura e à própria reação das mulheres”, afirma o psiquiatra. Sim, a reação delas. Hoje, diz Cuschnir, são as mulheres que mostram grande dificuldade em ouvir o que o homem tem para dizer, inclusive porque o homem demanda uma abordagem específica de seus sentimentos, pois não trabalha com eles da mesma forma que sua parceira.

Ajuda nas contas

O homem ainda privilegia a esfera do trabalho em relação à vida sentimental ou familiar, segundo pesquisas de opinião e relatos de terapeutas. Continua sendo fundamental para a felicidade dele conseguir dinheiro e sucesso no trabalho. E não são poucas as esposas que esperam segurança material dos maridos. Mas está ficando para trás o tempo em que os homens literalmente morriam de trabalhar, sem dar atenção a outras formas de se realizar.

A emancipação financeira da mulher aliviou a pressão sobre ele, antes considerado o provedor por excelência, e o homem viu sair de seus ombros a responsabilidade exclusiva pelo sustento da família. Homem de seu tempo, o dono-de-casa Marcelo Saula, 33, não tem emprego remunerado. Cuida da casa e da filha enquanto a mulher, a jornalista Soninha Francine, trabalha. “Em casa, eu lavo a louça e a roupa, cozinho, limpo a casa e faço supermercado. Ela paga as contas – e não me sinto mal por isso.” É claro que causa estranhamento. “Às vezes rolam umas piadas, tipo ‘Ah, queria ser o seu marido, que não faz nada’”, diz Soninha. “As pessoas parecem esquecer que cuidar de filho e da casa é um supertrabalho.”

Dono-de-casa

Se a mulher fez o caminho de casa para a rua, os homens tomam o rumo inverso. Cozinhar e ficar com os filhos, por exemplo, se mostraram atividades prazerosas. Na TV, proliferaram programas de cozinha para homens.

Eles também se preocupam em assumir seu lugar na formação dos filhos. “Antes o pai saía cedo e voltava tarde, nem podia se dedicar aos filhos. Hoje é possível aproveitar o crescimento deles. De madrugada, quando o bebê chora, eu que levanto”, diz o jornalista Paulo Buscato, de São Paulo. E a presença do pai é fundamental, por exemplo, para ajudar um menino a se diferenciar da mãe, a construir sua identidade. Os homens estão hoje mais atentos para isso, não só por obrigação, mas também por prazer. Em terapias, é usual os homens relatarem como se sentem felizes convivendo com as crianças. “Nada paga a emoção de acompanhar o crescimento da filha”, diz o dono-de-casa Marcelo Saula.

O apego à casa aparece também no maior carinho com a decoração, antes uma prerrogativa feminina. “As tarefas da casa a gente divide por afinidade, sem essa coisa de eu fiz isso ou aquilo”, diz o pesquisador Marcelo Faria, 38, de Barretos. “Adoro cozinhar e assumi a cozinha. Quando ela chega do trabalho, a janta está pronta. Também cuido do jardim e planto meus temperos. A cada duas semanas compro flores para a casa.” Sua mulher, a professora de inglês Fabiana De Vito, diz que adora o arranjo, mas sabe que ele é incomum. “As pessoas estranham quando descobrem que ele cozinha e enfeita a casa.”

Também houve ganhos na flexibilidade da estrutura familiar. Homens e mulheres hoje têm liberdade para procurar sua felicidade em arranjos diferentes. A convivência sem casamento é mais aceita, as separações são vistas com maior naturalidade, os filhos deixaram de ser uma conseqüência esperada da união e se tornaram uma escolha. Todos ganharam o direito de procurar com menos restrições sua felicidade no campo sentimental. O homem não é mais escravo de relações de fachada, tão comuns no passado.

Ele se cuida

Livre da fórmula homem-provedor-mulher-prendada, o homem percebeu que cuidar de si dá prazer e não é vergonhoso. Cuidar do corpo, da pele e da roupa passou a ser tão comum quanto lavar o carro no domingo. A nova atitude cunhou até um nome novo, o metrossexual, criado nos anos 90 pelo inglês Mark Simpson para designar a pessoa (não só o homem) vaidosa ao extremo, que usa as facilidades das grandes cidades (metro é de metropolitano) para viabilizar um egocentrismo nada saudável. Nada a ver com o conceito que a indústria de cosméticos anda querendo vender, de um sujeito vaidoso e bem resolvido. Simpson esclarece que o metrossexual nem é necessariamente hétero, nem homem.

Reconhecer as conquistas e aproveitá-las ajuda a encarar a transição. A mudança traz insegurança, mas há muito o que ganhar, hoje e no futuro. “Apesar da crise, vivemos um momento riquíssimo”, diz Cuschnir. “Não se trata apenas de ver homens e mulheres mudando. Estamos presenciando a evolução da humanidade, que caminha para um patamar melhor.”

Eles e elas

Depois de aplicar 2 mil questionários e conversar com outros milhares de pessoas, o pesquisador norte-americano John Gray concluiu que homens e mulheres são tão diferentes que é como se tivessem vindo de planetas distintos. Veja as diferenças entre os marcianos e as venusianas:

O que valorizam

Eles prezam o poder, a competência, a eficiência e a realização;

Elas se importam com o amor, a comunicação, a beleza e os relacionamentos.

A auto-imagem

Eles avaliam seu sucesso por sua habilidade em alcançar resultados;

Elas tomam como base a qualidade dos seus relacionamentos.

O que vestem

Eles gostam de uniformes, como o de policial;

Elas curtem roupas que expressem seu humor no dia.

Diante dos problemas

Eles ficam em silêncio e tentam soluções sozinhos;

Elas querem conversar e compartilhar idéias.

Na comunicação

Eles adoram dar conselhos e detestam recebê-los sem pedir;

Elas se sentem amparadas quanto ouvidas com atenção.

Cabeça de homem

 

engenheiro – Desenvolvida ao longo de milhões de anos caçando e construindo, fez o homem apto para planejamento mecânico, medição, direção e manipulação de objetos.

introspectivo – A mulher tem duas áreas voltadas à comunicação no cérebro. O homem só tem uma. Eles usam metade do volume de palavras que as mulheres usam.

impulsivo – Os homens produzem menos serotonina, um tipo de tranqüilizante natural. Por isso, tendem a agir por impulso.

agressivo – As mulheres possuem em maior quantidade as substâncias que geram o instinto de “cuidar e acudir” e criam os laços afetivos. A deficiência dessas substâncias inclina o cérebro dele à agressividade e dificulta a criação de laços. Os machos humanos ainda têm mais testosterona, hormônio que favorece a competitividade.

memória ruim para emoções – O centro de memória no cérebro delas é maior e possui mais conexões com as áreas onde nascem as emoções. Os cientistas acham que essa diferença se desenvolveu ao longo da evolução para que elas pudessem decifrar os sinais das crianças.

relaxado O cérebro feminino está constantemente trabalhando e exige fluxo de sangue 15% maior do que o dos homens. O masculino diminui sua atividade com mais freqüência, como se cochilasse. É quando, por exemplo, um homem está diante da TV sem prestar atenção.

Fonte: Michael Gurian, autor de Afinal, o que Pensam os Homens?

 

Para saber mais:

• Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus John Gray, Rocco

• Homens sem Máscaras, Luiz Cuschnir, Campus

• Os Bastidores do Amor, Luiz Cuschnir, Elsevier

• Afinal, o que Pensam os Homens?, Michael Gurian, Elsevier

Fonte: Revista Vida Simples, edição de outubro de 2004.





O que está nos deixando doentes é uma epidemia de diagnósticos

4 09 2009

 

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CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA DE SÃO PAULO
http://www.cremesp. org.br/?siteAcao =Jornal&id= 954

* Gilbert Welch é autor da obra Should I Be Tested for Cancer? Maybe Not and Here’s Why (University of California Press). Lisa Schwartz e Steven Woloshinsão pesquisadores sêniores do VA Outcome Group em White River Junction.

Este artigo foi publicado no jornal The New York Times, em 02/01/2007.
Tradução: Daniel de Menezes Pereira.

Para a maioria dos americanos, a principal ameaça à saúde não é a gripe aviária, a febre do Nilo ou o mal da vaca louca. Mas sim o próprio sistema de saúde. Você pode pensar que isso é porque os médicos cometem erros (sim, nós erramos). Mas você jamais será vítima de um erro médico se você não está no sistema. A maior ameaça apresentada pela medicina americana é o fato de cada vez mais estarmos nos afundando nesse sistema, não por uma epidemia de doenças, e sim por uma epidemia de diagnósticos. Apesar de os americanos viverem mais do que nunca, cada vez mais nos falam que estamos doentes. Como isso é possível? Um dos motivos é que nós (americanos) empregamos mais recursos aos cuidados médicos que qualquer outro país. Parte deste investimento é produtivo, cura doenças e alivia sofrimentos. Mas isso também nos conduz a cada vez mais diagnósticos, uma tendência que se transformou em epidemia.

Essa epidemia é uma ameaça à saúde e tem duas fontes distintas. Uma delas é a ‘medicalização’ da vida cotidiana. A maioria de nós passa por sensações físicas ou psicológicas desagradáveis que, no passado, eram consideradas
como parte da vida. No entanto, hoje tais sensações são consideradas, cada vez mais, como sintomas de doenças. Eventos como insônia, tristeza, inquietação de pernas e diminuição do apetite sexual, hoje, se transformam
em diagnósticos: distúrbio do sono, depressão, síndrome de pernas inquietas e disfunção sexual. Talvez ainda mais preocupante seja a medicalização da infância. Se uma criança tossir depois de fazer exercícios, ela tem asma. Se tiver problemas com leitura, é disléxica. Se estiver infeliz, tem depressão. Se alternar entre euforia e tristeza, tem distúrbio bipolar. Se por um lado esses diagnósticos podem beneficiar algumas pessoas com sintomas graves, por outro é necessário ponderar o real efeito de tais sintomas, que em muitos casos são brandos, intermitentes ou transitórios.

Outra fonte é o empenho por descobrir doenças o quanto antes. Diagnósticos eram usualmente restritos a moléstias graves. Hoje, no entanto, nós diagnosticamos doenças em pessoas que absolutamente não apresentam sintomas,
os famosos ‘grupos de risco’ e as pessoas com ‘predisposição’ . Dois progressos aceleram esse processo. Em primeiro lugar, a avançada tecnologia permite que os médicos olhem profundamente para as coisas que estão erradas. Nós podemos detectar marcadores no sangue. Nós podemos direcionar aparelhos de fibra ótica dentro de qualquer orifício. Além disso, tomografias computadorizadas, ultrassonografia, ressonâncias magnéticas e tomografias por emissão de pósitrons permitem que os médicos exponham, com precisão, tênues defeitos estruturais do organismo.

Essas tecnologias tornam possíveis quaisquer diagnósticos em qualquer pessoa: artrite em pessoas sem dores nas juntas, úlcera em pessoas sem dores no estômago e câncer de próstata em milhões de pessoas que, não fosse pelos
exames, viveriam da mesma forma e sem serem consideradas pacientes com câncer. Em segundo lugar, as regras estão mudando. Conselhos de especialistas, constantemente, expandem os conceitos de doenças: todos os valores de
referência para o diagnóstico de diabete, hipertensão, osteoporose e obesidade caíram nos últimos anos. O critério utilizado para considerar o nível de colesterol normal despencou múltiplas vezes. Com estas mudanças, doenças agora são diagnosticadas em mais da metade da população. A maioria de nós acredita que estes diagnósticos adicionais sempre beneficiam os pacientes. E alguns, de fato, são benéficos. Mas, por fim, a lógica das detecções antecipadas é absurda. Se mais da metade de nós está doente, o que significa estar ‘normal’? Muitos de nós estamos predispostos – e em algum dia podemos ficar doentes – e todos nós somos dos ‘grupos de risco’. A medicalização na vida cotidiana é muito problemática. O que, exatamente, estamos fazendo com nossas crianças, uma vez que 40% das que vão acampar estão sujeitas a uma ou mais prescrições crônicas de medicamentos?

Ninguém deveria adotar a conduta de transformar pessoas em pacientes, ainda que sem gravidade. Isto gera grandes prejuízos. O fato de rotular pessoas como doentes pode deixá-las ansiosas e vulneráveis, em especial as crianças.

Mas o principal problema é que a epidemia de diagnósticos conduz a uma epidemia de tratamentos. Nem todos os tratamentos têm reais benefícios, mas quase todos podem ter prejuízos. Algumas vezes os prejuízos são conhecidos,
no entanto, freqüentemente os prejuízos de algumas terapias levam anos para serem descobertos, após muitas pessoas já terem sido expostas aosmalefícios.

Para pacientes com doenças severas, estes malefícios, geralmente, perdem a importância diante dos potenciais benefícios. Mas para pacientes com sintomas mais brandos os malefícios são muito mais relevantes. Além disso,
para pacientes rotulados como ‘predispostos’ ou de ‘grupos de risco’ que estão destinados a permanecer saudáveis, o tratamento só pode causar prejuízos.

A epidemia de diagnósticos tem muitas causas. Mais diagnósticos significa mais dinheiro para a indústria farmacêutica, hospitais, médicos e advogados. Pesquisadores e até mesmo organizações federais de medicina asseguram suas posições (e financiamentos) promovendo a descoberta de ’suas’ doenças. Preocupações médico-legais também conduzem à epidemia. Se por um lado uma falha no diagnóstico pode ser objeto de uma ação judicial, por outro não existe qualquer punição para diagnósticos exacerbados. Além disso, o que os clínicos menos têm dificuldade de fazer é diagnosticar desenfreadamente, mesmo quando existem dúvidas de se diagnosticar, ou não, realmente vai ajudar nossos pacientes.

Desta forma, quanto mais nos falam que estamos doentes, menos nos dizem que estamos bem. As pessoas precisam ponderar sobre os riscos e benefícios da ampliação de diagnósticos. A questão principal a ser enfrentada é sobre ser
ou não um paciente. E os médicos precisam relembrar do valor que tem ou não um paciente. E os médicos precisam relembrar do valor que tem assegurar a uma pessoa que ela não está doente. Talvez se devesse começar a estudar uma
nova medida de saúde: a proporção da população que não precisa de cuidados médicos. E as instituições nacionais de saúde poderiam propor uma nova meta para os pesquisadores: reduzir a demanda de serviços médicos, ao invés de
aumentá-la.





Hábitos de consumo: por que é tão difícil mudar?

27 08 2009

 

Neuza Árbocz, da Envolverde

A situação ambiental atual pede novas formas de realizar negócios, buscando construir um mundo em equilíbrio com o ritmo de renovação da Natureza. A grande questão para as indústrias e empresas é, contudo, como fazer frente ao crescimento, constante, do consumo. O primeiro “R” do “Reduzir, Re-utilizar e Reciclar” está sendo ignorado solenemente, segundo dados de mercado.

A crise que deu ao planeta um tempo de descanso, já dá sinais de enfraquecimento, tendo sido, inclusive, amenizada por medidas imediatistas, como a redução de IPI justamente para carros, um dos elementos centrais da poluição atmosférica e de stress e conflito nos grandes centros urbanos. Mercado se aquecendo, as indústrias precisam encontrar uma forma de ampliar a produção, para manter preços estáveis e evitar antigos fantasmas como o da inflação.

O vício nas datas comemorativas impulsiona ainda mais a roda do consumo, sempre em movimento. E a mais temível de todas as datas, o Natal, logo baterá a nossas portas novamente, provocando ondas de compras de todo tipo de produtos; mesmo os supérfluos, que ficam jogados em gavetas ou aqueles nada duráveis, que estragam mal começamos a usar. Mas afinal, quem quer arriscar novas formas de demonstrar afeto e carinho, sem os tradicionais presentes?

Será que alguém acredita ser possível mantermos estes costumes e diminuir, ao mesmo tempo, o impacto provocado nos ciclos naturais que sustentam nossas vidas? Provavelmente, muitos já diriam que consumir num ritmo tão constante e acelerado não faz mesmo sentido. Contudo, parar de comprar de fato é, ainda, uma atitude de poucos.

Consumo x realização pessoal

Desejamos muitas coisas das quais não precisamos. Comprar coisas chiques, exclusivas e desnecessárias seria uma forma de atender nossa vontade de nos diferenciarmos, de nos sentirmos únicos, segundo o professor e teólogo Jung Mo Sung. Sung explicou, durante uma mesa redonda no Simpósio de Sustentabilidade Planetária organizado pela Fundação Mokiti Okada, nos dias 18 e 19 de agosto em São Paulo, que há 250 anos estamos sendo condicionados a ligar nossa realização pessoal ao consumo.

Para o estudioso, todos nós temos um desejo infinito de Ser e de Ser infinitamente e isto não se preenche com objetos e compras. Mas, como não sabemos exatamente o que queremos ser, temos esta compulsão de tentar completarmos-nos com que há no exterior. Contudo, isto não nos preenche. “Não é possível possuir o infinito”, ressalta. “Resolver a Sustentabilidade Planetária é definir como diminuir o sofrimento e aumentar a dignidade e a alegria de viver. Só se atinge a almejada infinitude através do amor mútuo”. Para Sung, só este amor tem força bastante para inspirar que se abra mão dos desejos pessoais pelo bem do coletivo. E este amor tem que ser expresso no presente, aqui e agora.

Contudo, ele adverte que é preciso uma visão prática e não romanceada da realidade. “Amar a Natureza e mantê-la intocada é um discurso lindo, mas se torna difícil na prática. Podemos amar as plantas e os animais. Mas, precisamos comer. Aí como faz?”, comenta o professor. “É natural defendermos que todos merecem uma vida com conforto. Mas se cada ser humano dos 6,5 bilhões que somos recebesse um rolo de papel higiênico branquinho por semana, que fosse; de onde tiraríamos tantas árvores para produzi-los?”, questionou.

Além disto, a complexidade do dia-a-dia nos impede de abandonar certas atitudes, como por exemplo, abrir mão de transportes poluentes. Como dar conta de uma agenda cheia sem usar um carro, numa grande metrópole? Aqueles que tentam se deparam com transporte público insuficiente e, não raro, precário; falta de ciclovias e, muitas vezes, falta até de calçadas seguras para caminhar. “Outro fator que dificulta mudanças é que nos últimos 10 mil anos, grande parcela da população vive acreditando que Deus resolve a história e tudo acabará bem no final. Então, como se motivar a fazer sacrifícios agora, pensando num futuro que já se crê definido?”, continuou Sung.

Somos a Vida da Terra

Uma resposta a esta contradição foi sugerida pela Monja Coen, presente na mesma mesa. A religiosa da tradição Zen Budista esclareceu que somos a vida na terra. “Por ignorância, nos percebemos separados, o que nos deixa com “cor rupto” – coração partido, em latim. Neste estado, confundimos nossas necessidades verdadeiras. Se nos víssemos como parte do todo, como realmente somos, agiríamos com gratidão por tudo que existe e nos mantém vivos. Esta gratidão construiria o equilíbrio que está faltando no uso do que a Natureza nos oferece”.

Quanto à alimentação, ela relembrou o caso de um monge da mesma tradição que ao ser indagado como aceitava provocar a morte de um peixe – seu prato predileto – para comê-lo, respondeu: “Peixe está se tornando monge”, referindo-se ao ciclo contínuo de transformação em que tudo está mergulhado. “O universo está em constante mudança”, ressaltou a monja.

Ela destacou a importância de se cuidar de nosso efeito sobre o todo. “O primeiro ambiente de que temos que cuidar, é o nosso próprio corpo. Se partirmos dele, perceberemos que gostamos de ar puro, de água pura e de viver sem violência…”. Ao despertar para nosso interior e sua conexão com o todo, podemos dar o melhor de nós, a todo o momento. “Não se trata de fazer o possível. Mas fazer o melhor, pensando em todas as formas de vida ao nosso redor. Eu acredito que somos capazes de dar uma virada e formar uma vida na Terra maravilhosa. Isto tem que começar com seres humanos bons e éticos. Aquilo que pensamos, falamos e fazemos influi e transforma o que existe. O ser humano precisa mudar no seu coração, na sua essência”, defendeu Coen. “Eu acredito que somos capazes de fazer a transformação que queremos na Terra. Nosso destino depende de nosso pensamento coletivo”, falou a mestra.

Depois dela, o ministro Fernando Augusto de Souza, da Igreja Messiânica, ressaltou que pesquisas já mostraram que aumentar o consumo e a renda não traz mais felicidade. Ele concorda que tudo que expressamos, seja em pensamento, fala ou ação, reflete naquilo que está acontecendo e nos faz um convite para adotarmos o “regime do relógio do sol”.

“O que faz o relógio do sol? Ele só marca os momentos iluminados. Assim, se formos falar, escrever, produzir arte ou que quer que seja, podemos escolher nos expressar sobre momentos iluminados, momentos que nos inspiram; onde o bem, o bom e o belo se manifestam” falou Augusto, alinhado com o saber antigo que diz: aquilo em que colocamos nossa atenção é o que cresce. “Nosso desafio maior é expressar a Verdade do plano divino, neste mundo de aparência”, concluiu o religioso.

* Neuza Árbocz é jornalista.

(Envolverde)

http://mercadoetico.terra.com.br/arquivo/habitos-de-consumo-por-que-e-tao-dificil-mudar/





Doença Social

23 08 2009

epidemia

Por: Fernando Savaglia – Revista Sociologia, número 24, 2009.

Nos últimos dias do mês de abril, a Cidade do México viveu um cenário digno de um filme de terror. Enquanto grande parte do comércio e inúmeras instituições públicas foram fechadas, as crianças foram proibidas de comparecer às escolas. Já os habitantes que se aventuravam a sair às ruas usavam máscaras “tapabocas” distribuídas pelo exército. A realidade da maior metrópole latino-americana apresentou contornos dramáticos. Além de ser uma das maiores cidades do mundo no que se refere à densidade demográfica, a população da capital mexicana ao longo de sua história sempre esteve frente a frente com grandes tragédias.

O anúncio em rede nacional, feito no dia 23 de abril pelo presidente Felipe Calderón, de que uma epidemia se alastrava com alto poder de disseminação entre seres humanos estarreceu a população. O agente causador, o vírus conhecido como A/H1N1 tem como hospedeiros porcos e, após sofrer mutações, passou a vitimar seres humanos. Daí a origem do apelido “gripe suína”, dado à patologia.

Foram várias as recomendações dos sanitaristas mexicanos para a população, entre elas uma que aconselhava que as pessoas travassem apenas contatos indispensáveis para a comunicação, evitando apertos de mão, beijos e abraços. Poucas horas após o anúncio oficial do governo, milhares de cidadãos correram aos supermercados em busca de mantimentos para enfrentar o provável confinamento por tempo indeterminado. Testemunhas relatam que um único espirro dentro das lojas era o suficiente para o surgimento de uma histeria generalizada.

As previsões da OMS (Organização Mundial de Saúde) se concretizaram e até o fechamento desta edição, 25 países confirmaram casos, inclusive o Brasil.

Para a socióloga Paula Regina di Francesco Picciafuocco, especialista em saúde pública, um fator determinante para se lidar de modo mais efetivo com a ameaça de uma pandemia diz respeito justamente à política de saúde de uma nação. A do Brasil, segundo sua visão, desenvolveu-se rapidamente nos últimos anos. “De 1988 para cá, com o advento da nova constituição que define o que é o SUS (Sistema Único de Saúde), o desenvolvimento da saúde pública aconteceu de maneira mais visível. Principalmente porque o Estado está cada vez mais atuante na área”, explica a especialista.

Ainda que admita que a população continue sofrendo com o preço dos remédios e com as confusas leis que regem a assistência privada, a socióloga viu grande avanço nos serviços de saúde pública. Para ela, hoje, os municípios definiram seus papéis. “O Estado gera a política de saúde e o município operacionaliza a gestão. A descentralização deste atendimento serviu p ara melhorar o sistema como um todo.”

A pandemia aumenta o índice de audiência dos programas de TV e a indústria cultural sabe como explorar isso.

Paula Picciafuocco ressalta, ainda, que um dos objetivos da Sociologia da saúde é, justamente, estudar a prevenção de epidemias como esta que se acerca do Brasil. “Acho que, com a exceção do México que teve um problema de controle, é possível se preparar para casos assim.”

A antropóloga Maria Helena Villas Boas Concone, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), especializada em antropologia da saúde, acrescenta que o aspecto cultural também tem importante papel nas campanhas preventivas de saúde promovidas pelos governos. “A cultura é um processo que está sempre em mudança, incorpora, perde, inova, etc. Felizmente, o uso de assistência médica e também de remédios industrializados já faz parte importante da cultura contemporânea.”

CONSIDERADAS ALARMISTAS por alguns e pouco rígidas por outros, as medidas tomadas pelos governos e órgãos mundiais de saúde vêm gerando grande polêmica na opinião pública no mundo todo. Algumas posições das autoridades mexicanas em especial foram muito criticadas, sendo que para muitos de maneira até injusta. “É lógico que fechar as pessoas em casa atrapalha toda a dinâmica de uma sociedade. As pessoas precisam de trabalho, as crianças precisam de escola e a economia precisa andar. Para isso, a população precisa estar nas ruas. No entanto, apesar de ser uma medida radical, talvez até pelo desconhecimento sobre a letalidade do vírus no início da epidemia, ela se justifique”, opina Paula Picciafuocco. Já o infectologista Stefan Cunha Ujvari aponta outra crítica aos mexicanos: “no dia em que estourou o caso da gripe, ouvi muitas pessoas falarem que o governo demorou a se mobilizar. As pessoas sempre têm a tendência de procurar um culpado”.

A verdade é que a humanidade sempre se deparou com epidemias. Essa ameaça de contaminação invariavelmente colocou o homem frente a frente com o pânico e o preconceito, aspectos às vezes muito mais nocivos à sociedade do que a própria doença.

A primeira grande epidemia registrada na história foi aquela descrita por Tucídides, que matou um terço da população de Atenas em 430 a.C., durante a guerra de Peloponeso contra Esparta. Roma, e posteriormente o Império Bizantino, também foram fustigados por epidemias, respectivamente em 165 d.C. e 541 d.C.

Europa presenciou o aparecimento da lepra no século XII. A doença chegou ao continente com as Cruzadas que voltavam do Oriente. “Acreditavam que a lepra era o resultado da imoralidade da pessoa, que aflorava na pele e que isso poderia ser contagioso”, explica Stefan Cunha Ujvari, autor do livro A história da humanidade contada pelo vírus, lançado em 2008. De acordo com o médico, toda pessoa que tinha uma lesão de pele era submetida a uma comissão das cidades. “Sem possuir nenhum conhecimento científico, avaliavam se o indivíduo era leproso ou não. Se o veredicto fosse positivo, a pessoa era afastada da comunidade”, diz.

DEVIDO À MITIFICAÇÃO das causas da doença, o tratamento dedicado aos leprosos da Idade Média foi repleto de sadismo, sendo a perseguição incentivada inclusive por autoridades da Igreja. Diversas leis foram promulgadas proibindo os doentes de se aproximarem das cidades. Eram vedados de beber a água das fontes e acabaram indo para leprosários. Porém, um detalhe revelado por Ujvari dá a dimensão do estigma das pessoas supostamente acometidas pela doença: “a lepra não é altamente contagiosa a ponto de causar uma epidemia. Muitos dos casos diagnosticados como tal, eram na verdade dermatites, lesões de pele, sífilis, entre outras doenças.

Pandemia é a definição dada às epidemias que ganham proporções gigantescas, espalhando-se por um continente ou mesmo por todo o planeta. A Idade Média registra aquela que é considerada uma das mais dramáticas da história da humanidade. Conhecida como peste negra, a doença transmitida pelas pulgas dos ratos causou grande flagelo na Europa do século XIV, matando, segundo alguns historiadores, cerca de um terço de todos os seus habitantes. Numa sociedade extremamente supersticiosa, é natural que a epidemia tenha sido encarada pela população atingida como um castigo de Deus.

A antropóloga Maria Helena Villas Boas acredita que a interferência da Igreja nas grandes epidemias que assolaram a humanidade vem do fato de, supostamente, a religião ter explicações sobre a doença, a morte e o sofrimento. “Todas oferecem um ‘guarda-chuva’ protetor aos fiéis que é, na verdade, a capacidade de dar um sentido ao sofrimento.”

Na busca por um culpado, a peste foi atribuída à ação de um grupo anticristão. As pessoas passaram a apontar principalmente os judeus como os responsáveis pela disseminação da doença. “Os leprosos teriam também importante papel dentro da suposta conspiração, como disseminadores do veneno que causava a peste na população”, arremata Maria Helena. “Há também relatos de casas incendiadas com pessoas dentro, assim como afogamento, apedrejamento e enforcamento de judeus, com o intuito de aplacar a doença”, complementa Ujvari.

Nenhuma doença do século XX mexeu tanto com o comportamento da população mundial quanto a Aids

Deflagrada em 1918, a gripe espanhola é considerada até hoje a mais mortal das pandemias que assolaram o planeta. Estima-se que cerca de 20 milhões de pessoas em todo o mundo tenham perecido devido à doença. Outras epidemias que causaram pânico durante o século XX foram a gripe asiática, em 1957, e a gripe de Hong Kong, em 1968.

Nos anos 1970, o Brasil, mais especificamente a cidade de São Paulo, sofreu com um grave surto de meningite que eclodiu na periferia. “Naquela época não havia um estudo profundo da saúde pública, e a cidade não estava preparada para aquela epidemia”, relembra a socióloga Paula Picciafuocco.

“Comentário corrente hoje é que as autoridades na época da ditadura omitiram o que estava acontecendo, e quando a epidemia apareceu gerou pânico, porque não se sabia o tamanho do problema”, complementa Ujvari.

Porém, nenhuma doença do século XX mexeu tanto com o comportamento da população mundial como a Aids. A eclosão de uma doença sexualmente transmissível, altamente letal até pouco tempo, e que afetou principalmente os homossexuais no início dos anos 1980, serviu para muitos setores conservadores da sociedade estigmatizarem milhões de pessoas ao redor do mundo.

O PRECONCEITO fez muitas pessoas esconderem o diagnóstico. “A atribuição de nomes como ‘peste gay’ e ‘grupo de risco’ gerou uma homofobia exacerbada. Embora muitas vezes a intenção fosse alertar sobre o chamado ‘comportamento de risco’, isto também levou à culpabilização dos doentes e infectados”, opina a antropóloga Maria Helena Villas Boas. Em 1988, em uma polêmica entrevista, o cantor e compositor Cazuza, que morreu em decorrência da doença, disparou: “a Aids caiu como uma luva, modelinho perfeito da direita e da Igreja. Caiu como um tailleur para eles”.

Apesar do flagelo que representa até hoje, a doença possibilitou, na visão da socióloga Paula Picciafuocco, maior atenção à questão dos hemocentros. “Neste aspecto, tivemos uma melhora significativa. E a discussão causada pela patologia possibilitou, inclusive, que falássemos de assuntos relacionados ao sexo, que até então eram tabus na sociedade”, revela.

Já o sociólogo norte-americano John Gagnon, em uma passagem pelo Brasil em maio de 2006, refletiu sobre o problema em uma palestra que tinha como tema Sexualidade, desejo e risco em tempos de Aids. “Para entender a Aids, é necessário entender a sexualidade como sendo parte da saúde, prazer e cidadania, a despeito da visão moralista e conservadora de enxergá-la. Afinal, a epidemia é um problema de saúde ou de moral? A relação sexo e risco é muito mais complexa do que evitar comportamentos de risco.”

Podemos dizer que a ameaça desta pandemia que tem o México como origem, assim como a SARS (Severe Acute Respiratory Syndrome), identificada na China em 2002, está sendo tratada de maneira diferente de suas antecessoras, principalmente no que se refere à informação. As duas são fenômenos acontecidos num mundo globalizado, em que a tecnologia permite apurações e troca de informações em tempo real, garantindo, assim, uma vigilância mais abrangente por parte das autoridades sanitárias dos países.

Por outro lado, a mesma abundância de trocas de informação possibilita a circulação de inúmeros boatos, informações distorcidas e dados imprecisos. “Várias pessoas garantiam que o vírus possuía uma letalidade muito grande e, na verdade, até aquele momento, nenhuma autoridade responsável pela área de saúde havia tido tempo suficiente de analisá-lo”, explica o médico Stefan Ujvari.

Durante tais eventos sempre há um jogo de informações e contrainformações que acabam por alimentar o pânico. “As respostas da sociedade a uma ameaça de epidemia depende muito da importância dada ao evento, de sua divulgação e de sua letalidade. A maneira como a mídia vai cobrir os fatos vai determinar a reação da sociedade”, observa Maria Helena Villas Boas.

Já a economista Maria Cristina Sanchez Amorim, especializada em saúde pública, tem uma opinião contundente sobre o tema. “É muito mais simples entrar no sensacionalismo. A gente olha as notícias e percebe que a esmagadora maioria vem de uma única agência que vai determinar a pauta de toda a mídia”, declara.

Com a tecnologia atual é possível ter uma vigilância mais abrangente das autoridades sanitárias.

Para o cientista político Marcos Florindo não há dúvida de que a epidemia é uma questão de segurança pública e requer cuidado. “Ao mesmo tempo, temos de perceber como isso vai flertar com as lógicas de mercado e de que maneira as informações, reveladas em forma de esclarecimento ao público, está potencializando a possibilidade do pânico”, ressalta. Para Florindo, o medo é tratado como uma mercadoria. “Afinal, o assunto contribui para o aumento dos índices de audiência em programas de TV. A indústria cultural explora isso muito bem.”

O fato de vivermos numa época de grandes avanços tecnológicos e científicos, não impede que, nos casos de ameaça de epidemias, ainda sejamos bombardeados com todas as espécies de informações. “Mesmo no mundo moderno sempre há o espaço para o milagre, assim como haverá também o espaço para as falas ‘apocalípticas’ que certamente trarão mais temor”, complementa Maria Helena Villas Boas.

A socióloga Paula Picciafuocco acredita que não há exagero em como as notícias referentes à pandemia vêm sendo divulgadas. “Sou da opinião que em alguns casos precisa-se provocar movimento, sob o risco da informação nos passar despercebida. É importante que o Estado alerte a população, ainda mais numa patologia transmissível como essa.”